e se ?

934 Words
Ela continuou olhando para ele, ainda firme, quando o celular tocou no meio daquele silêncio pesado do corredor. — Com licença… — ela disse baixo, se afastando alguns passos. Ela atendeu. — Cade você, Linda? Você falou que já tava a caminho. Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo antes de responder, tentando manter a calma. — Desculpa… aconteceu um problema familiar. Eu não vou conseguir chegar agora. Do outro lado, a pessoa insistiu algo rápido, preocupada. Linda escutou com atenção, depois respondeu: — Hoje o ensaio vai ser mais tarde… eu te aviso melhor, tá? Provavelmente depois da meia-noite. A gente ensaia até umas três da manhã. Ela encerrou a ligação. Guardou o celular e voltou devagar para perto dele, como se nada tivesse mudado — mas ainda com a energia da vida dela pulsando no ritmo acelerado. Ele a observou em silêncio. — De meia-noite até três da manhã? — ele repetiu, com a sobrancelha levemente levantada. Ela deu um pequeno sorriso, como se aquilo fosse normal pra ela. — Sim, senhor… quer dizer… Daniel. Ela corrigiu rápido, lembrando do que ele tinha pedido. — Minha vida é meio assim mesmo. Daqui a pouco eu vou pra aula, depois durmo umas três horas e vou pro ensaio. Ela deu de ombros, natural. — Eu tenho estúdio com minha turma. Danço bastante. Acabei de voltar de uma viagem internacional também. Ele a observou com mais atenção. — Pra onde você foi? — Las Vegas. Ela falou com tranquilidade, como quem fala de rotina. — Eu viajo bastante por causa do trabalho. Ela respirou fundo, ajustando a bolsa de novo. — E isso também pode ser bom pra você, sabe? Porque eu vou estar muito fora. Você vai poder cuidar da sua vida no escritório, resolver suas coisas… sem interferência. Ela o encarou com calma. — Quando precisar que eu esteja como sua “esposa” pra algum evento, você só me avisa. Eu me organizo. Um leve sorriso passou pelo canto dos lábios dela. — Eu só preciso que você me avise antes pra eu colocar na agenda e não marcar nada. Ela deu um passo leve, concluindo com naturalidade: — Fora isso… minha vida continua. Eu tô sempre fora mesmo. Trabalhando, dançando… essa é minha rotina. O corredor voltou a ficar silencioso. Mas agora não era um silêncio vazio. Era o tipo de silêncio em que os dois percebiam, ao mesmo tempo, que aquela “farsa” estava começando a encostar demais na vida real. Ele ficou em silêncio por alguns segundos depois dela falar, como se estivesse reorganizando tudo na própria mente. Então soltou, com um leve tom de ironia contida: — Então… basicamente, eu vou ter uma esposa aqui quase metade do tempo. Ele repetiu a frase, como se testasse o absurdo daquilo. — É isso? Linda não desviou. — É, basicamente isso. Ela falou com calma, prática, como se estivesse resolvendo uma agenda. — Alguém que não vai ficar em casa te incomodando, nem invadindo seu espaço, nem atrapalhando sua rotina. Você vai continuar com sua liberdade. Ela deu de ombros, simples. — Não tem disso. Pode ficar tranquilo. Ele respirou fundo pelo nariz, ainda olhando pra ela. Ela continuou, mais objetiva ainda: — E quando eu estiver em casa… eu posso ficar mais no meu estúdio ou na minha casa mesmo. Eu não pretendo me desfazer da minha casa. Um segundo de pausa. — Caso você precise que eu esteja com vocês, eu vou. Mas fora isso, eu fico no meu espaço. Ela ajustou a bolsa no ombro, tranquila. — No máximo eu volto pra dormir, quando for necessário. O silêncio entre eles voltou a cair pesado no corredor. Mas dessa vez ele não parecia incomodado. Parecia… analisando. Ele encostou mais firme na parede, cruzou os braços e a olhou por um instante mais longo do que antes. — Você fala isso como se casamento fosse um contrato de logística. A voz dele saiu baixa, quase seca. Mas não era crítica aberta. Era percepção. Ele desviou o olhar por um segundo, depois voltou pra ela. — E se um dia isso deixar de ser só “logística”? Ela ficou em silêncio por um segundo, analisando o que ele tinha acabado de dizer. Então ergueu o olhar e falou, direta, sem fugir do assunto: — Você fala de deixar de ser logística… como assim? De você acabar se interessando por mim como sua mulher de verdade? Ele não desviou. — Sim. A resposta veio simples, firme, sem hesitação. O corredor pareceu ficar mais pesado naquele instante. Linda respirou fundo, mas manteve a calma. — Bom, senhor Daniel… isso vai levar tempo, claro. E convivência também. Ela ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha, prática como sempre. — Mas eu acredito que você também tenha uma vida muito corrida, né? Ela deu um leve sorriso, mais racional do que emocional. — Então talvez isso nem seja um problema tão imediato assim. A gente vai vivendo… cada um no seu ritmo. Ele continuou olhando pra ela, como se estivesse tentando entender não só as palavras, mas a forma como ela pensava. — Você fala disso como se fosse algo simples. A voz dele saiu baixa. Ela deu de ombros. — Eu não gosto de complicar o que já nasceu complicado. Um silêncio curto. Ele deu um leve passo pra frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles, mas sem invadir. — E se eu não quiser que isso continue só “complicado”? Linda sustentou o olhar dele. E pela primeira vez, não respondeu rápido.
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