Ela ficou alguns segundos olhando pra ele, ainda absorvendo a conversa, e então soltou de repente, meio assustada com a própria conclusão:
— Então… calma, calma… você tá dizendo que se a gente casar hoje… hoje eu vou pra sua casa e vou virar oficialmente sua mulher em tudo? Hoje tipo… fazer aquilo?
Ela falou rápido, com os olhos arregalados.
Ele soltou uma risada curta, surpresa.
— Calma… eu não tô falando isso.
Ela fechou os olhos imediatamente, respirando fundo, aliviada.
— Ufa… me pareceu isso.
Ele riu de novo, dessa vez mais leve.
Ela passou a mão no rosto, tentando recuperar a compostura.
— Eu tenho uma vida muito corrida… mas como eu falei pra você, eu tô disposta a ajudar.
Ela o olhou de volta, mais firme.
— Mas se você achar isso tudo muito maluquice… a gente esquece tudo, tá?
Ela deu de ombros.
— Não tem por que complicar algo dessa magnitude agora.
O silêncio caiu por um segundo entre os dois.
Mas antes que ele respondesse, passos rápidos ecoaram pelo corredor.
Uma mulher de jaleco branco apareceu na entrada.
— Filha!
Linda virou imediatamente.
— Oi, mãe!
Ela abriu um sorriso e foi até ela, abraçando-a com força.
— O que você tá fazendo aqui no hospital? Tá tudo bem com você?
— Tá, mãe… tá tudo bem. Eu só ajudei uma senhora na rua e vim garantir que ela estivesse bem.
A médica então olhou para o lado e viu Daniel.
— E esse, quem é?
Ele se aproximou educadamente e estendeu a mão.
— Eu sou Daniel Brown.
A expressão da médica mudou levemente, mais atenta agora.
— Senhor Daniel Brown… eu estou cuidando da sua avó, a senhora Carla Brown, né?
— Sim, sim. É minha avó.
— Ela está no soro, foi medicada. Mais tarde a gente consegue dar alta. Foi só um susto, uma queda de pressão.
Linda soltou um suspiro de alívio.
— Graças a Deus…
A médica então voltou o olhar pra filha.
— Filha… você desapareceu. A gente tá com saudade. Seu pai, seus irmãos… todo mundo.
— Mãe, eu prometo… essa semana eu vou tirar um dia pra ir lá.
— Um dia? — a mãe cruzou os braços. — Você passa dois meses fora, volta e não vai pra casa. Você acabou de chegar de viagem e já sumiu de novo.
Linda suspirou.
— Foi corrido, mãe…
— Dois meses em Las Vegas, isso é corrido? — a mãe rebateu.
Linda tentou rir.
— Eu sei, mãe… eu sei. Eu vou viajar de novo daqui a 20 dias.
A médica arregalou os olhos.
— Pra onde agora?
— Bahamas… vou passar uns 20 dias lá.
A mãe soltou um riso incrédulo.
— Você fala isso como se fosse normal, né? Uma turnê de três meses pra lá e pra cá…
Linda riu junto.
— Mãe…
— Tá bom, tá bom. Eu tenho que voltar pro trabalho. Mas aparece, tá?
— Tá, mãe. Manda beijo pro pai e pros meus irmãos.
— Cuida de você, minha menina.
Ela saiu apressada pelo corredor.
Silêncio voltou.
Daniel olhou pra Linda, meio surpreso, meio intrigado.
— Então… eu vou casar com uma mulher que vive viajando.
Ela soltou uma risada leve, ajeitando a bolsa no ombro.
— Em minha defesa… eu moro sozinha. Minha irmã é recém-casada, meu irmão tá noivo, meus pais têm vida corrida…
Ela deu de ombros.
— Eu viajo mesmo. Às vezes passo cinco dias aqui e volto pro exterior. Tem vez que minha família nem sabe que eu já tô fora do país.
Ela o olhou de lado, tranquila.
— Minha vida é assim. E pelo visto… a sua também não vai ser muito parada.
O corredor voltou a ficar silencioso, mas agora com um detalhe diferente:
Nenhum dos dois parecia mais tão assustado com a ideia.
Daniel ficou alguns segundos em silêncio depois que ela terminou de falar.
O corredor do hospital parecia mais vazio agora, como se o mundo tivesse diminuído só para eles dois.
Ele passou a mão de leve na nuca, respirou fundo e soltou, num tom mais baixo:
— Isso é… muita informação pra processar em um único dia.
Linda deu um leve sorriso, encostando o corpo de leve na parede, mais relaxada agora que a mãe tinha saído.
— Eu te avisei que minha vida não era parada.
Ele a olhou de lado, dessa vez com um leve traço de curiosidade real, não só análise.
— E mesmo assim você aceitou isso tudo tão fácil.
Ela deu de ombros.
— Eu não aceitei “fácil”. Eu aceitei ajudar uma senhora. O resto… foi consequência.
Ele assentiu devagar, como se aquilo fizesse sentido.
Um silêncio curto caiu entre os dois.
Mas agora não era desconfortável.
Era… cheio.
Ele olhou para a porta do quarto da avó por um instante, depois voltou pra ela.
— Minha avó vai ficar bem. Isso já foi confirmado.
— Ainda bem — ela respondeu, sincera.
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Então tecnicamente… não existe mais urgência nenhuma nesse casamento.
Linda cruzou os braços, encarando ele com calma.
— Tecnicamente, não.
Ele ficou olhando pra ela por mais um segundo.
— E mesmo assim você ainda está aqui.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— E você também.
O olhar dele mudou um pouco com isso.
Mais direto.
Mais presente.
Ele deu um passo pequeno na direção dela, sem pressa.
— Então me explica uma coisa, Linda.
Ela ergueu o olhar.
— Você realmente acha que isso vai funcionar do jeito que você falou? Essa… “parceria”?
Ela respirou fundo.
— Eu acho que funciona se for honesto. Sem cobrança, sem invenção. Só duas pessoas ajudando uma situação.
Ele soltou uma leve risada sem humor.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é simples — ela corrigiu na hora. — É só claro.
Aquilo fez ele parar.
Clareza.
Essa palavra ficou um pouco no ar.
Ele passou a mão pelo bolso do terno, pensativo.
— E se em algum momento isso deixar de ser só “claro”?
Ela não respondeu imediatamente.
Dessa vez, foi ela quem o encarou com mais atenção.
— Aí a gente resolve quando chegar nesse momento.
Silêncio.
Daniel sustentou o olhar dela por alguns segundos a mais do que o necessário.
E então, mais baixo, quase como se estivesse falando consigo mesmo:
— Você é muito segura do que fala.
Ela deu um leve sorriso.
— Eu trabalho com isso. Se eu não for segura… eu caio.
Ele soltou um leve ar pelo nariz, quase um riso.
— E eu que achei que só lidava com pessoas difíceis no meu mundo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E eu achei que só lidava com coreografia complicada.
Os dois ficaram em silêncio por um instante.
Mas agora havia algo diferente entre eles.
Como se, mesmo sem perceber, já estivessem entrando na mesma dança.