FARAÓ - PRAZER!!
Salve, salve!
Vou me apresentar, meu nome é Felipe, mas aqui no Pedra Clara, só vai ouvir um vulgo: Faraó - porque desde moleque, eu sempre andei com uma corrente de ouro que minha mãe me deu de aniversário de 1 ano e sempre que eu crescia, ela pedia para o ourives ajeitar.
Tenho 27 anos de vivência, 1,92m de altura e um corpo que conta história — sou moreno e fechado na tinta, do pescoço aos pés. A única parte que deixei limpa foi o rosto, pra que todos vejam bem quem está no comando quando eu passo.
Assumi a frente da quebrada há cinco anos. Meu velho, conhecido como Chefe, decidiu que já tinha trocado tiro o suficiente. Pegou minha coroa e foi buscar o sossego que o crime nunca deu pra eles lá em Angra.
Justo.
Aquela mulher é uma santa; aguentou décadas de invasões, o estresse das sirenes e o medo constante de ver o marido voltar num saco preto. Quem tá de fora não entende, mas mulher de bandido carrega um fardo que pesa mais que qualquer fuzil.
Diferente de muito canibal que sobe o morro querendo botar terror, eu não sou fã dessa pose de "bandido mau". Meu controle é no diálogo e na inteligência. Circulo pela favela toda: dou atenção pro pivete que tá jogando bola, escuto o conselho dos mais velhos, respeito as tias do morro e mantenho a linha com meus vapores e gerentes.
Para mim, o medo é uma ferramenta que a gente usa só quando a inteligência falha. No resto do tempo? É postura, carisma e visão. Mas se precisar a gente resolve no tiro também.
E por falar em mulheres, eu sou solteiro porque eu cresci vendo o exemplo dentro de casa. Meu pai, sempre foi um cara de visão, e a maior prova de inteligência dele não foi estratégia de guerra nem domínio de território, foi a postura com a minha coroa. No mundo onde a gente vive, o que mais tem é cara querendo ostentar "fiel" e um harém de amantes pra inflar o ego. Mas lá em casa a banda tocava diferente. Apesar de toda a fofoca que o povo gosta de inventar pra tentar desestabilizar quem tá no topo, meu pai nunca teve outra. Era ela e ponto final.
Eu lembro dele sentado na varanda, limpando o fuzil e trocando ideia comigo quando eu ainda era um menor aprendendo as lições para liderar. Ele sempre dizia:
"Felipe, escuta o que eu vou te falar: uma mulher de responsa do teu lado deixa o dono do morro duas vezes mais forte. Ela vira alvo? Vira. O perigo aumenta? Aumenta. Mas se a mulher tiver cabeça, meu filho, vocês vão longe. Malandro que se perde em r**o de saia acaba entregando o ouro pro inimigo."
Ele tratava a minha coroa como uma rainha, não por mimo, mas por respeito à disposição que ela sempre teve. Ela era o porto seguro dele. Enquanto o bicho pegava no pé do morro, era ela quem mantinha o equilíbrio lá dentro.
Hoje eu sigo essa mesma linha. Sou o Faraó, mando e desmando, mas sei que a força de um homem não tá na quantidade de mulher que ele coloca na garupa da moto, mas na qualidade daquela que ele escolhe pra fechar no 10 a 10.
Claro, eu sou novo, sou o dono do lugar e não sou de ferro — os olhares que recebo quando passo de fuzil e ouro no baile não são poucos. Mas o ensinamento do meu pai tá tatuado na mente tanto quanto o corpo tá fechado na tinta: lealdade gera lealdade.
As vezes, eu levo algumas para uns barracos - nunca pra minha goma. Mas o papo é reto e sem curva: eu saio, eu curto, eu pago e cada um pro seu lado - sem promessas, sem castelo, sem conto de fada.
No final da noite, o que fica é o prazer e o dinheiro no bolso delas; o coração continua blindado, igual ao motor da minha Land Rover preta.
Mas se tem uma coisa que eu não abro mão é da lealdade de quem tá comigo no dia a dia. E ninguém fecha mais comigo do que o Magrão, meu sub-comandante e primo de sangue.
O Magrão tem 26 anos, um ano a menos que eu, mas a vivência dele é de veterano. A gente cresceu brincando, correndo pelas vielas do Pedra Clara. O destino dele foi selado cedo, quando o pai dele — meu tio e braço direito do meu coroa na época — caiu em combate numa invasão covarde da milícia.
"Felipe, a partir de hoje é nós por nós," ele me disse no dia do enterro, ainda moleque, mas com o olhar frio de quem já tinha entendido como o sistema funcionava.
Desde então, não houve um dia que ele não estivesse na minha sombra. Se eu sou a cabeça, ele é o gatilho. O cara é frio, silencioso e não treme na base por nada. Ele sabe que, se eu cair, ele cai junto, e vice-versa. É o único cara em quem eu confio de olhos fechados pra segurar o morro se eu precisar me ausentar.
No Morro da Pedra Clara, a hierarquia é respeitada porque a gente dá o exemplo. O Magrão cuida da logística, da contenção e de manter a disciplina na tropa. Enquanto isso, eu foco na política, no progresso e em manter o morro girando sem chamar a atenção desnecessária da "justiça". Algumas vezes, ele perde o controle - muita gente tem ]medo dele, porque ele é instável.
A gente é a prova viva do que meu pai falava: se tiver cabeça, a gente vai longe. E a gente tá indo. O império tá sólido, mas eu sinto que o destino ainda vai colocar essa minha postura de "gelo no coração" à prova.