Isabela
O cheiro de álcool e mofo sempre me dava náusea, mas naquela noite parecia pior. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que algo estava prestes a dar errado. Meu pai gritava na sala, a voz embriagada atravessando as paredes finas da casa como uma ameaça constante.
A madrasta ria, um riso agudo e c***l, enquanto a televisão ligada servia apenas como pano de fundo para o caos que sempre foi minha vida.
Eu estava no quarto, sentada na beira da cama, apertando os dedos contra o tecido fino do vestido simples que usava. Não era medo comum. Era um pressentimento pesado, daqueles que fazem o estômago afundar.
Então a campainha tocou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Não era visita comum. Meu pai empalideceu. Eu vi quando ele abriu a porta e deu de cara com homens que não pareciam pertencer àquele bairro pobre do Brasil. Eles vestiam ternos escuros, caros demais para aquela rua esburacada. Um deles falou baixo, em um português carregado de sotaque.
— A dívida venceu.
Meu pai caiu de joelhos.
Meu sangue gelou.
— Não… por favor… eu preciso de mais tempo…
Foi quando eu senti. Aquela presença. Não vi o homem naquele momento, mas senti. Algo pesado, dominante, como se o ar tivesse mudado de densidade.
— Tempo é um luxo que você não pode mais pagar — disse uma voz grave, fria, impaciente.
Eu apareci na porta da sala sem perceber. E quando meus olhos encontraram os dele, tudo parou.
Dimitri
Ela não estava no acordo.
Essa foi a primeira coisa que pensei ao vê-la.
Pequena, mas não fraca. Olhos escuros
e desafiadores demais para alguém que cresceu naquele inferno. O corpo tenso denunciava medo, mas o que me chamou atenção foi o que ela não fez: não abaixou o olhar.
Quase sorri.
O pai dela estava ajoelhado diante de mim, chorando como um rato encurralado. Eu já tinha visto dezenas iguais. Homens que apostaram alto demais achando que nunca seriam cobrados. O nome dele constava na minha lista havia meses.
— Você prometeu dinheiro — eu disse, em russo primeiro, depois em português.
— O que me entregou foram desculpas.
Ele apontou para ela com mãos trêmulas.
— Eu… eu não tenho mais nada… só ela…
O silêncio caiu pesado.
Os olhos dela se arregalaram, mas não houve súplica. Houve fúria.
— Eu não sou moeda de troca — ela disse, a voz firme demais para alguém naquela posição.
Interessante.
Aproximei-me devagar. Cada passo calculado. Eu gostava de observar a reação das pessoas quando percebiam quem realmente mandava. Ela recuou apenas um centímetro. Orgulho. Coragem. Ou estupidez.
— Seu nome — exigi.
— Isabela — respondeu. — E você é um covarde se acha que vai me comprar como se eu fosse um objeto.
Meu maxilar travou.
— Dimitri Volkov — respondi. — E eu não compro pessoas. Eu cobro dívidas.
Passei o olhar por ela sem disfarçar. Não com desejo ainda, mas com avaliação. Inteligente. Boca afiada. Perigosa. Do tipo que não se quebra fácil.
— Você vem comigo — concluí. — Não como escrava. Como garantia.
Ela riu. Um riso curto, nervoso, provocador.
— Garantia de quê? Que meu pai continue sendo um lixo?
Cheguei mais perto. Perto demais.
Senti o perfume barato misturado com adrenalina. Ela sentiu meu tamanho, minha presença, o perigo.
— Garantia de que ele continuará respirando.
Os olhos dela escureceram.
— Então mata logo — ela sussurrou. — Porque eu não vou te implorar.
Aquilo… aquilo despertou algo.
Não piedade.
Interesse.
— Arrume suas coisas, Isabela — ordenei. — Você vem para Moscou comigo.
— E se eu disser não?
Inclinei o rosto, voz baixa, mortal.
— Você já disse sim no momento em que nasceu filha dele.
Isabela
Quando subi no carro preto naquela madrugada, eu sabia: minha vida tinha acabado.
Ou estava apenas começando.
E o homem sentado ao meu lado, silencioso, tatuado, c***l e absurdamente perigoso…
Era o responsável por isso.
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🔥 Cliffhanger:
Isabela deixa o Brasil. Dimitri a leva. Nenhum dos dois imagina até onde essa dívida vai chegar.