Isabela
A reunião foi convocada para a mesma noite.
Nada de adiamentos. Nada de desculpas.
Quando entrei na sala, os homens já estavam lá. Rostos duros, alguns marcados pelo tempo, outros pela violência recente. Todos me observaram
— não com curiosidade, mas com cálculo. Eu não era mais um detalhe. Eu era parte do problema.
Ou da solução.
Dimitri tomou a cabeceira da mesa. O silêncio se formou como uma ordem.
— Morozov executou um dos nossos para testar limites — ele disse, direto.
— Não haverá resposta simbólica.
Um murmúrio atravessou a sala.
— Ele quer uma reação — disse um dos homens. — Atacar agora é cair no jogo dele.
— Não atacar — Dimitri respondeu — é admitir fraqueza.
Olhei para o mapa aberto sobre a mesa. Rotas. Portos. Pontos de influência. Tudo aquilo que eu começava a reconhecer como veias de um organismo doente.
— Ele escolheu São Petersburgo porque é longe — eu disse, sem pedir permissão para falar.
— Quer que você se divida.
Alguns rostos se voltaram para mim. Dimitri não me interrompeu.
— Se Morozov quer atenção
— continuei
—, ele vai atacar onde dói menos para ele e mais para você. Não onde ele está forte.
Dimitri inclinou a cabeça, interessado.
— Onde você atacaria? — perguntou.
— No dinheiro — respondi. — Não no sangue. Ainda.
O silêncio foi absoluto.
— Ele compra lealdade — acrescentei. — Então tirem o que ele usa para comprar.
Um dos homens soltou um riso curto.
— Ela pensa como um de nós.
— Não — Dimitri disse, firme. — Ela pensa melhor.
A decisão foi tomada ali. Não por unanimidade. Mas por autoridade.
Quando a reunião terminou, fiquei sozinha no corredor. O peso do que eu havia feito caiu de uma vez. Aquilo não era teoria.
Pessoas iam cair por decisões que eu ajudei a tomar.
Dimitri me encontrou ali.
— Você cruzou outra linha hoje — disse.
— Eu sei.
— Não posso te proteger disso.
— Não quero proteção — respondi. — Quero verdade.
Ele se aproximou devagar. A tensão entre nós ainda era elétrica, perigosa.
Não havia espaço para fingimentos depois do beijo.
— A verdade é que Morozov vai reagir — disse. — E quando reagir, não será estratégico. Será pessoal.
— Então ele vai errar — murmurei.
— Ou vai mirar em você.
Sustentei o olhar dele.
— Então não erre antes dele.
Por um segundo, vi algo raro nos olhos de Dimitri: dúvida.
— Se algo acontecer com você… — ele começou.
— Não termine essa frase — interrompi. — Eu não sou sua fraqueza.
Ele segurou meu braço, firme, como se precisasse ter certeza de que eu ainda estava ali.
— Você é o que me obriga a escolher — disse. — E isso é pior.
Dimitri
Morozov respondeu em menos de vinte e quatro horas.
Um dos nossos carregamentos foi interceptado. Nenhum morto. Apenas um símbolo deixado para trás. Um aviso claro: estou observando.
— Ele está jogando limpo demais — disse meu braço direito.
— Não — respondi. — Ele está preparando algo sujo.
Quando voltei ao escritório, encontrei Isabela sentada à mesa, olhando uma foto impressa.
— De onde você tirou isso? — perguntei.
— Dos arquivos antigos — respondeu. —
Essa mulher.
Era uma imagem antiga. Morozov mais jovem. Ao lado de uma mulher.
— Ela morreu — eu disse.
— Não — Isabela respondeu, firme. — Ela desapareceu. Há diferença.
Meu corpo ficou tenso.
— Por que isso importa?
Ela me olhou com aquela calma perigosa.
— Porque homens como Morozov não esquecem perdas. Eles transformam em obsessão.
O telefone tocou.
Atendi.
— Dimitri — a voz do outro lado era calma demais. — Espero que esteja cuidando bem da minha variável.
Meu sangue ferveu.
— Não a mencione — rosnei.
Morozov riu.
— Tarde demais. Ela já faz parte do jogo.
E quando eu terminar… — fez uma pausa
— …nada ficará no lugar.
A ligação caiu.
Olhei para Isabela.
— Ele sabe demais — murmurei.
— Então pare de jogar como se isso fosse só seu — ela respondeu. — Porque agora… é nosso.
E eu soube, naquele instante, que a guerra tinha mudado de dono.
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🔥 Cliffhanger:
Morozov revela conhecer o passado.
Isabela passa a ser o centro do tabuleiro.
E Dimitri entende que proteger pode significar perder tudo.