Isabela
A primeira regra que aprendi depois da morte de Yuri foi simples:
nada naquela casa era neutro.
Nem o silêncio.
Nem os corredores vazios.
Nem os olhares que desviavam quando eu passava.
Dimitri manteve a promessa de não esconder mais nada, mas isso não significava respostas fáceis. Significava mapas sobre a mesa, reuniões que varavam a madrugada e telefonemas que terminavam sempre com o mesmo tom duro.
— Ele está se movendo — Dimitri disse naquela manhã, o dedo marcando um ponto no mapa. — E quer que eu saiba.
— Quem? — perguntei.
Ele me encarou como se estivesse medindo o peso do que ia dizer.
— Alexei Morozov.
O nome caiu pesado.
— Devo conhecê-lo? — perguntei.
— Não — respondeu. — E esse é o problema.
Aproximei-me da mesa.
— Então me explica.
— Morozov era meu aliado — começou.
— Antes de ser meu inimigo. Ele controla rotas que eu não controlo. Compra silêncio. Compra lealdade. Compra tempo.
— E agora? — insisti.
— Agora ele quer você.
Meu estômago revirou.
— Por quê?
— Porque você é a única coisa que não estava nos planos — ele respondeu. — E homens como Morozov odeiam variáveis.
— Então eu não sou o alvo — concluí. — Sou a mensagem.
Um silêncio tenso se instalou.
— É por isso que você vai sair da mansão hoje — Dimitri disse de repente.
— O quê? — arqueei a sobrancelha. — Você acabou de dizer—
— Justamente — ele interrompeu. —
Quero ver quem reage quando você aparece em público comigo.
— Isso é uma armadilha.
— É — ele confirmou. — E você é a isca.
— Não sem dentes — rebati.
O canto da boca dele se curvou, quase imperceptível.
— Então mostre.
Dimitri
Levá-la para fora era um risco calculado.
Mas ficar parado era pior.
O restaurante escolhido era discreto, porém frequentado pelas pessoas certas
— aquelas que informam, observam e vendem pedaços de verdade para quem paga melhor. Mantive Isabela ao meu lado, não por aparência, mas por estratégia.
Ela estava calma demais.
— Você está pensando em algo — eu disse, baixo.
— Sempre — respondeu. — Se Morozov quer me ver, ele vai mandar alguém.
— Não aqui.
— Não hoje — corrigiu. — Mas logo.
O garçom trouxe o vinho. Isabela observou o movimento ao redor com atenção afiada.
Não parecia a mesma mulher que tinha chegado assustada a Moscou. Havia algo novo nela. Mais firme. Mais consciente.
— Dimitri — ela murmurou. — Aquela mulher ali. De casaco cinza.
Segui o olhar dela.
— Ela está fingindo não olhar — Isabela continuou. — Mas já olhou três vezes. Sempre quando você fala.
A mulher levantou e saiu.
— Motorista — ordenei pelo ponto no ouvido. — Siga o carro cinza.
O coração acelerou. Isabela estava certa.
De volta à mansão, recebi a confirmação.
— Senhor — disse o chefe de segurança.
— O carro foi até um hotel. Quarto registrado em nome falso. Mas temos uma coisa.
— O quê?
— Um recado.
Ele colocou um envelope sobre a mesa.
Isabela se aproximou.
Dentro, apenas uma frase, escrita à mão:
“Toda variável pode ser eliminada.”
O sangue gelou.
— Ele está falando comigo — ela disse.
— Ele está me desafiando — respondi.
— Não — ela corrigiu, levantando o olhar.
— Ele está tentando me assustar.
— Funcionou? — perguntei.
Ela sorriu. Não havia medo.
— Não.
Aquilo me atingiu mais forte do que qualquer ameaça.
— Você não entende o tipo de homem que ele é — falei.
— Entendo — respondeu. — Porque ele não é tão diferente de você.
A verdade doeu.
Isabela
Naquela noite, enquanto Dimitri lidava com ligações e estratégias, eu não fiquei no quarto. Fui até o escritório. Abri gavetas que nunca tinha ousado tocar.
Não por curiosidade.
Por necessidade.
Encontrei arquivos, nomes, alianças quebradas. E uma coisa em comum: Morozov sempre aparecia antes do caos.
Quando Dimitri entrou, me encontrou lendo.
— Eu disse que nada seria escondido — ele falou.
— Então não esconda — respondi. — Eu posso ajudar.
— Ajudar como?
Fechei a pasta.
— Ele me quer viva. Por enquanto. Então me use.
Ele me encarou por longos segundos. Não como homem. Como líder.
— Isso vai te colocar na linha de frente.
— Eu já estou nela — respondi. — Só estava desarmada.
Dimitri respirou fundo.
— Então escute bem — disse. — A partir de agora, você não reage. Você antecipa.
— Ótimo — sorri. — Porque eu nunca fui boa em esperar.
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🔥 Cliffhanger:
Morozov fez o primeiro movimento.
Isabela decidiu jogar.
E Dimitri percebe que a guerra não é mais só dele.