Isabela
A linha de frente não tinha glamour.
Tinha silêncio.
E decisões que não davam espaço para arrependimento.
Na manhã seguinte, Moscou parecia mais fria. Não pela neve — mas pela sensação de que algo invisível estava se movendo sob a cidade.
Dimitri não dormira. Eu sabia pelo modo como observava tudo: atento demais, preciso demais.
— Você vai comigo hoje — ele disse, ajustando o relógio no pulso.
— Onde? — perguntei.
— Reunião com um antigo contato.
Alguém que odeia Morozov quase tanto quanto eu.
— “Quase” não me tranquiliza — respondi.
Ele me encarou de lado.
— Confiança, Isabela, não é ausência de medo. É saber quem vai atirar primeiro.
O carro avançou pelas ruas como um predador silencioso. Dois veículos de apoio nos seguiam. Segurança máxima.
Mesmo assim, meu corpo estava alerta, como se cada esquina pudesse esconder uma decisão fatal.
O local era um prédio antigo, fachada discreta, janelas altas demais para curiosos. Dimitri saiu primeiro. Eu o segui.
Lá dentro, o ar era denso. O homem que nos esperava tinha olhos cansados e mãos inquietas.
— Dimitri Volkov — ele disse. — Ouvi dizer que está perdendo o controle do tabuleiro.
Dimitri sorriu. Frio.
— Ouvi dizer que você perdeu três rotas para Morozov.
O homem riu, sem humor.
— Ele não joga limpo.
— Nenhum de nós joga — respondi antes de pensar.
Os dois me olharam.
— Essa é a variável — Dimitri disse. — E o motivo pelo qual Morozov vai errar.
O encontro terminou sem acordo. Apenas promessas vagas e ameaças disfarçadas.
Quando voltamos ao carro, senti pela primeira vez que alguém nos observava de verdade.
— Estamos sendo seguidos — murmurei.
— Eu sei — Dimitri respondeu, calmo demais. — Deixe.
— “Deixe”? — encarei-o.
— Eles querem medir você. Ver se treme.
O carro desacelerou. Um semáforo. Silêncio.
Então o vidro traseiro estilhaçou.
O impacto foi seco. Rápido. Profissional.
— Abaixe! — Dimitri gritou, puxando-me contra o banco.
O motorista acelerou, desviando em alta velocidade. Os carros de apoio reagiram. Tiros. Sirenes. O caos explodiu ao nosso redor.
Meu coração martelava, mas minha mente estava estranhamente clara.
— Não era para matar — eu disse. — Era para avisar.
Dimitri me olhou, os olhos incendiados.
— Você aprendeu rápido demais.
Quando chegamos à mansão, o silêncio voltou. Mais pesado. Mais perigoso.
Dimitri
Ela não chorou.
Não tremeu.
Não pediu para ir embora.
Enquanto os homens verificavam o perímetro, Isabela ficou parada no centro da sala, observando o vidro quebrado sendo substituído.
— Ele sabe que agora eu sei — ela disse.
— Sim — respondi.
— E ainda assim, ele não atirou para matar.
— Não ainda.
Ela se virou para mim.
— Então ele quer me conhecer melhor.
Aproximei-me devagar. O espaço entre nós carregava tensão demais para ser ignorado.
— Isabela… — comecei.
— Não — ela interrompeu. — Não me diga para ficar fora disso. Já passou dessa fase.
Segurei o rosto dela com firmeza, não por controle, mas por necessidade.
— Se você continuar, não haverá retorno.
Ela sustentou meu olhar.
— Eu já morri uma vez — respondeu. — O que veio depois foi sobrevivência.
Algo mudou dentro de mim naquele instante.
— Então escute — disse, baixo. — Morozov não destrói cidades. Ele destrói pessoas. Primeiro por dentro.
— Então ele vai se decepcionar — ela murmurou. — Porque eu não quebro fácil.
Eu soube ali que a guerra tinha um novo centro.
E não era mais Moscou.
Era ela.
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🔥 Cliffhanger:
Morozov ataca à distância.
Isabela não recua.
E Dimitri percebe que protegê-la pode custar tudo — inclusive o controle que ele sempre teve.