Isabela
O primeiro treino não aconteceu em uma academia.
Aconteceu em uma sala fria, sem janelas, no subsolo da mansão. O chão era de borracha escura, as paredes lisas, iluminadas por luz branca demais.
Dimitri estava ali quando cheguei, vestindo roupas simples, sem terno, sem armas visíveis — o que, estranhamente,
o tornava ainda mais perigoso.
— Aqui — ele disse — ninguém grita. Ninguém hesita. E ninguém confia fácil.
Cruzei os braços.
— Parece minha infância.
O olhar dele pousou em mim por um segundo mais longo do que o necessário.
— Então você vai aprender rápido.
Dois homens entraram. Grandes. Treinados. Não me olharam como mulher. Me olharam como alvo.
— Eles vão tentar te imobilizar — Dimitri explicou. — Não vencer. Só sobreviver.
— E se eu falhar?
— Você levanta — respondeu. — Ou aprende onde errou.
O primeiro veio rápido demais. Um braço no meu pescoço, pressão. Lembrei do passado. Do pai. Do medo. Mas dessa vez, não congelei. Pisei com força, girei o corpo, escapei por centímetros.
O segundo me derrubou.
Caí com o ar saindo dos pulmões, mas rolei antes que ele pudesse me prender.
Meu corpo doía. Meu orgulho também. Mas eu levantei.
— De novo — pedi, ofegante.
Dimitri não disse nada. Apenas observou.
Quando o treino terminou, eu estava suada, cansada e com o corpo inteiro reclamando. Mas estava de pé.
— Você aprende rápido — ele disse, aproximando-se. — Mas reage com raiva.
— É o que me mantém viva.
— É o que pode te matar.
Ele estendeu uma toalha. Peguei.
— O que mais eu preciso aprender? — perguntei.
— A ler pessoas — respondeu. — Aqui, quem sorri demais geralmente já te vendeu.
Dimitri
Ela me surpreendeu.
Não pela força física, mas pela resistência. Isabela não se rendia. Não pedia pausa. Não reclamava. Cada queda parecia alimentar algo dentro dela
— uma recusa absoluta em voltar a ser vítima.
Levei-a até meu escritório depois do treino.
— O que você vê? — perguntei, apontando para o grande mapa na parede.
Ela se aproximou, ainda respirando pesado.
— Rotas — respondeu. — Portos. Empresas. Isso não é só máfia. É… estrutura.
— É um império — confirmei. — E cada parte dele tem alguém esperando eu cair.
Ela me encarou.
— E agora eu estou no centro disso.
— Agora você é o ponto fraco mais óbvio
— fui honesto. — E por isso, o mais protegido.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dela.
— Você protege bem suas fraquezas.
— Não gosto de tê-las.
Antes que ela respondesse, o interfone tocou.
— Senhor Volkov — disse a voz do chefe de segurança. — Tivemos um acesso não autorizado ao sistema interno. Nada foi levado… ainda.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— Quem estava de serviço?
— Yuri.
O nome caiu como uma peça fora do lugar.
Yuri era antigo. Leal demais. Ou assim parecia.
— Não faça nada — ordenei. — Eu resolvo.
Desliguei e encontrei o olhar de Isabela fixo em mim.
— Traição — ela disse.
— Possível — corrigi. — E perigosa.
— Por minha causa?
— Por poder — respondi. — Sempre é.
Isabela
Mais tarde, no quarto, tentei relaxar, mas algo não encaixava. O jeito como uma das funcionárias evitava meu olhar. Como um dos seguranças cochichou ao me ver passar.
Não era paranoia.
Era instinto.
Quando saí para o corredor, vi Yuri ao longe, falando ao telefone em russo baixo demais. Parei atrás da parede, sem pensar.
— …ela não desconfia — ele dizia. — Mas ele está diferente. Isso muda tudo.
Meu coração disparou.
Voltei para o quarto em silêncio absoluto.
Minutos depois, a porta se abriu.
Dimitri entrou, fechando atrás de si.
— Você sente quando algo está errado — ele disse.
— Yuri — respondi. — Ele está mentindo.
O olhar dele escureceu.
— Eu sei.
— Então por que ele ainda está aqui?
Dimitri se aproximou.
— Porque traidores revelam mais quando acham que não foram descobertos.
— E eu? — perguntei. — Sou isca?
Ele parou a um passo de mim.
— Não — respondeu, firme. — Você é o motivo pelo qual eu não posso errar.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— Dimitri… — comecei.
— Hoje não — ele interrompeu, a voz tensa. — Hoje, eu preciso pensar como o homem que eu era antes de você.
E saiu, deixando para trás uma verdade perigosa:
Eu estava no meio de uma guerra que ainda nem tinha começado.
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🔥 Cliffhanger:
A traição está dentro da mansão.
E o próximo ataque não virá de fora.