Isabela
A noite caiu pesada sobre a mansão.
Depois da conversa com Dimitri, eu não consegui dormir.
A sensação de estar sendo observada voltou mais forte, como se o ar carregasse intenções escondidas. Cada estalo da casa parecia alto demais. Cada sombra, longa demais.
Sentei na cama, abraçando os joelhos.
Eu tinha aceitado aprender a sobreviver ali.
Mas ninguém me avisou que sobreviver também significava desconfiar de tudo — e de todos.
Levantei para beber água. O corredor estava silencioso, quase bonito demais. Foi quando ouvi passos suaves atrás de mim. Virei rápido.
— Você anda muito à noite — disse Yuri, encostado na parede, o rosto relaxado demais.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— Não sabia que isso era proibido — respondi, mantendo a voz firme.
Ele sorriu.
— Aqui, muitas coisas são proibidas sem serem ditas.
— Dimitri sabe que você está fora do posto?
O sorriso dele vacilou por uma fração de segundo. O suficiente.
— Ele confia em mim — respondeu. — Há anos.
— Confiança é uma coisa curiosa — falei.
— Normalmente cega as pessoas certas.
Os olhos dele endureceram.
— Você fala demais.
Antes que eu reagisse, ele se aproximou rápido demais. Não me tocou, mas invadiu meu espaço, me prendendo contra a parede com o próprio corpo.
— Você não entende onde está — murmurou. — E está fazendo perguntas erradas.
Meu coração disparou, mas mantive o olhar firme.
— Se você encostar em mim, morre — sussurrei.
Ele riu baixo.
— Dimitri não saberia quem culpar.
— Saberá — respondi. — Porque você está cometendo o mesmo erro de todos os outros.
— Qual?
— Achar que eu sou fraca.
Os passos pesados ecoaram no corredor.
Yuri se afastou no mesmo instante.
Dimitri surgiu das sombras, o olhar cortante, a presença preenchendo o espaço como uma ameaça viva.
— Algum problema? — perguntou, calmo demais.
— Nenhum — respondeu Yuri rápido. — Só estava garantindo que ela não se perdesse.
Dimitri olhou para mim.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não — respondi. — Ainda.
O silêncio que se seguiu foi mortal.
— Volte ao seu posto, Yuri — ordenou Dimitri.
Yuri se afastou, mas o olhar que lançou para mim prometia algo r**m.
Muito r**m.
Dimitri
No momento em que Yuri saiu do meu campo de visão, eu soube: a traição estava mais avançada do que eu imaginava.
— Ele te ameaçou — afirmei.
— Ele se revelou — corrigi. — E isso é pior.
Fechei a distância entre nós.
— Você não deveria confrontá-lo sozinha.
— Eu não confrontei — respondi. — Eu observei.
Segurei o rosto dela com cuidado, forçando-a a me olhar.
— Isso aqui não é um jogo, Isabela.
— Eu sei — ela respondeu, firme. — É uma guerra silenciosa.
Soltei-a, respirando fundo.
— A partir de agora, você não anda sozinha — disse. — Nem de dia.
— Vai me trancar?
— Vou te proteger — corrigi.
— À força?
— Se for preciso.
Ela não recuou.
— Então você vai ter que aceitar uma coisa — disse. — Eu não sou só algo que você protege. Eu vejo. Eu escuto. E eu posso ajudar.
— Ajudar pode te matar.
— Ficar cega também.
Aquela mulher era impossível.
— Fique perto de mim amanhã — disse por fim. — Quero ver quem se mexe quando você está ao meu lado.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Vai usar isso como armadilha?
— Vou usar a verdade — respondi. — Eles não conseguem se esconder quando acham que estão ganhando.
Isabela
No dia seguinte, a mansão estava diferente.
Mais movimentada. Mais tensa. Dimitri me manteve ao seu lado o tempo todo — reuniões, telefonemas, conversas em russo que eu não entendia completamente, mas captava o tom: urgência.
Yuri observava de longe.
Sempre de longe.
Quando Dimitri se afastou para atender uma ligação, senti a presença atrás de mim novamente.
— Ele não confia mais em mim — sussurrou Yuri.
— E você esperava que confiasse? — perguntei, sem virar.
— Você o mudou.
— Não — corrigi. — Eu só mostrei o que já estava quebrado.
— Pessoas morrem por menos — ele disse.
Virei-me lentamente.
— Então escolha bem de que lado você está quando isso acontecer.
Nesse instante, um disparo ecoou do lado de fora da mansão.
Gritos. Correria. O caos explodiu.
Dimitri voltou correndo, a arma já em mãos.
— Para trás de mim — ordenou.
Obedeci.
Mas antes que tudo se resolvesse, vi Yuri se afastar rápido demais. Indo na direção oposta do perigo.
Fugindo.
— Dimitri — falei, o coração disparado. — É ele.
O olhar de Dimitri seguiu o meu.
E endureceu.
— A guerra começou — ele disse.
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🔥 Cliffhanger:
Yuri fugiu.
O ataque foi só um aviso.
E Dimitri sabe que o próximo movimento vai exigir sangue.