O SANGUE NÃO ESQUECE

679 Words
Dimitri Traição familiar tem um gosto diferente. Mais amargo. Mais lento. Mais difícil de engolir. O nome ecoava na minha cabeça enquanto eu observava Isabela caminhar pelo escritório como se aquele espaço sempre tivesse sido dela. — Você tem certeza? — perguntei. Ela não levantou os olhos dos documentos. — Tenho provas — respondeu. — E tenho paciência. Isso me preocupava mais do que qualquer acusação. — Ivan cresceu comigo — falei. — Comeu na minha mesa. Lutou do meu lado. — E aprendeu tudo com você — ela rebateu, fria. — Inclusive onde dói mais. Coloquei as mãos na mesa. — Se você estiver errada— Ela finalmente me encarou. — Eu não estou. O silêncio que se seguiu foi pesado. O tipo de silêncio que antecede mortes. — O que você encontrou? — perguntei. Isabela abriu a pasta. Fotos. Transferências bancárias. Registros de chamadas criptografadas. — Ele vendeu rotas secundárias — explicou. — Não as principais. As que você quase não olha. Meu maxilar travou. — Para quem? — Para um intermediário de Morozov — ela disse. — Antes de Morozov cair. Fechei os olhos por um segundo. — Ele achou que eu perderia o controle — murmurei. — Não — Isabela corrigiu. — Ele apostou que você escolheria o sangue. Abri os olhos. — E você quer testar isso? Ela se aproximou devagar. — Quero corrigir isso. Isabela Ivan chegou naquela noite achando que estava seguro. Erro número um. O jantar foi servido como sempre. Vinho caro. Pratos quentes. Conversa educada demais para ser verdadeira. — Você está diferente — Ivan comentou, olhando para mim. — Moscou não costuma amaciar as pessoas. Sorri. — Nem os cadáveres. O garfo dele hesitou por um segundo. Dimitri não falou nada. Observava. — Dimitri, ouvi dizer que você está delegando mais — Ivan disse. — Confiança é rara nesses dias. — Confiança se testa — respondi antes que Dimitri abrisse a boca. Ivan riu, nervoso. — Isabela tem senso de humor. — Não — respondi. — Tenho senso de sobrevivência. Levantei da mesa. Caminhei até o aparador. Peguei um tablet e deslizei até ele. — Reconhece isso? O rosto dele perdeu a cor. — Isso é— — Uma conta fantasma — continuei. — Registrada em Zurique. Alimentada por rotas que só três pessoas conheciam. Ivan olhou para Dimitri. — Primo, eu posso explicar— Dimitri finalmente falou: — Então explique. Ivan respirou fundo. — Era só um seguro — disse. — Você estava instável. Depois da morte de Yuri. Depois dela. Olhou para mim como se eu fosse uma doença. — Ela mudou tudo. — Sim — concordei. — Mudou. Apontei para a tela. — E você vendeu essa mudança para o inimigo. — Eu protegi a família! — ele gritou. — Morozov prometeu— — Morozov está vivo — interrompi. — Mas quebrado. E agora sabe seu nome. O terror se espalhou no rosto dele. — Dimitri… — sussurrou. Dimitri se levantou lentamente. — Você me traiu. — Pelo sangue! — Ivan implorou. — Somos família! Dimitri olhou para mim. O mundo parou ali. — A decisão é sua — ele disse. Não era um gesto simbólico. Era real. Aproximei-me de Ivan. Inclinei-me até ficar à altura do rosto dele. — Família não vende família — falei baixo. — Família protege. Endireitei o corpo. — E traidores não ficam. Dimitri puxou a arma. Ivan chorou. — Não! Dimitri, por favor— — Não — Dimitri respondeu. — Isabela decidiu. Dois tiros. Silenciosos. Precisos. Ivan caiu sobre o chão de mármore. O sangue espalhou-se como uma assinatura. Dimitri ficou parado por alguns segundos. Depois se virou para mim. — Agora não há mais volta. Aproximei-me dele. — Nunca houve. Ele segurou meu rosto, os olhos escuros, famintos, carregados de algo mais profundo que desejo. — Você não é minha fraqueza — murmurou. — É minha lâmina. Beijei-o devagar. — E você… — sussurrei — é o trono. ___&&_______&&__&_&_&__&&_____ 🔥 Cliffhanger: • Morozov ainda respira • Um novo inimigo observa em silêncio • Isabela agora é temida, não protegida
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD