Dimitri
Traição familiar tem um gosto diferente.
Mais amargo.
Mais lento.
Mais difícil de engolir.
O nome ecoava na minha cabeça enquanto eu observava Isabela caminhar pelo escritório como se aquele espaço sempre tivesse sido dela.
— Você tem certeza? — perguntei.
Ela não levantou os olhos dos documentos.
— Tenho provas — respondeu. — E tenho paciência.
Isso me preocupava mais do que qualquer acusação.
— Ivan cresceu comigo — falei. — Comeu na minha mesa. Lutou do meu lado.
— E aprendeu tudo com você — ela rebateu, fria. — Inclusive onde dói mais.
Coloquei as mãos na mesa.
— Se você estiver errada—
Ela finalmente me encarou.
— Eu não estou.
O silêncio que se seguiu foi pesado. O tipo de silêncio que antecede mortes.
— O que você encontrou? — perguntei.
Isabela abriu a pasta. Fotos.
Transferências bancárias. Registros de chamadas criptografadas.
— Ele vendeu rotas secundárias — explicou. — Não as principais. As que você quase não olha.
Meu maxilar travou.
— Para quem?
— Para um intermediário de Morozov — ela disse. — Antes de Morozov cair.
Fechei os olhos por um segundo.
— Ele achou que eu perderia o controle — murmurei.
— Não — Isabela corrigiu. — Ele apostou que você escolheria o sangue.
Abri os olhos.
— E você quer testar isso?
Ela se aproximou devagar.
— Quero corrigir isso.
Isabela
Ivan chegou naquela noite achando que estava seguro.
Erro número um.
O jantar foi servido como sempre. Vinho caro. Pratos quentes. Conversa educada demais para ser verdadeira.
— Você está diferente — Ivan comentou, olhando para mim.
— Moscou não costuma amaciar as pessoas.
Sorri.
— Nem os cadáveres.
O garfo dele hesitou por um segundo.
Dimitri não falou nada. Observava.
— Dimitri, ouvi dizer que você está delegando mais — Ivan disse. — Confiança é rara nesses dias.
— Confiança se testa — respondi antes que Dimitri abrisse a boca.
Ivan riu, nervoso.
— Isabela tem senso de humor.
— Não — respondi. — Tenho senso de sobrevivência.
Levantei da mesa. Caminhei até o aparador. Peguei um tablet e deslizei até ele.
— Reconhece isso?
O rosto dele perdeu a cor.
— Isso é—
— Uma conta fantasma — continuei. — Registrada em Zurique. Alimentada por rotas que só três pessoas conheciam.
Ivan olhou para Dimitri.
— Primo, eu posso explicar—
Dimitri finalmente falou:
— Então explique.
Ivan respirou fundo.
— Era só um seguro — disse. — Você estava instável. Depois da morte de Yuri. Depois dela.
Olhou para mim como se eu fosse uma doença.
— Ela mudou tudo.
— Sim — concordei. — Mudou.
Apontei para a tela.
— E você vendeu essa mudança para o inimigo.
— Eu protegi a família! — ele gritou. — Morozov prometeu—
— Morozov está vivo — interrompi. — Mas quebrado. E agora sabe seu nome.
O terror se espalhou no rosto dele.
— Dimitri… — sussurrou.
Dimitri se levantou lentamente.
— Você me traiu.
— Pelo sangue! — Ivan implorou. — Somos família!
Dimitri olhou para mim.
O mundo parou ali.
— A decisão é sua — ele disse.
Não era um gesto simbólico.
Era real.
Aproximei-me de Ivan. Inclinei-me até ficar à altura do rosto dele.
— Família não vende família — falei baixo. — Família protege.
Endireitei o corpo.
— E traidores não ficam.
Dimitri puxou a arma.
Ivan chorou.
— Não! Dimitri, por favor—
— Não — Dimitri respondeu. — Isabela decidiu.
Dois tiros.
Silenciosos. Precisos.
Ivan caiu sobre o chão de mármore.
O sangue espalhou-se como uma assinatura.
Dimitri ficou parado por alguns segundos. Depois se virou para mim.
— Agora não há mais volta.
Aproximei-me dele.
— Nunca houve.
Ele segurou meu rosto, os olhos escuros, famintos, carregados de algo mais profundo que desejo.
— Você não é minha fraqueza — murmurou. — É minha lâmina.
Beijei-o devagar.
— E você… — sussurrei — é o trono.
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🔥 Cliffhanger:
• Morozov ainda respira
• Um novo inimigo observa em silêncio
• Isabela agora é temida, não protegida