"Há tanto tempo que eu deixei você
Fui chorando de saudade
Mesmo longe, não me conformei
Pode crer, eu viajei contra a vontade" (Roupa Nova, Aviagem)
Não teria como descrever a dor que Heitor sentia com a falta de Vanessa, o amor deles foi grande, forte, puro, mesmo sendo uma paixão ardente de desejos carnais.
Pensar na sua amada era a única coisa que ele fazia, se entregando num caminho de solidão.
Os seus pais ajudaram em toda parte do velório e sepultamento, cuidaram da pequena Violeta nos primeiros dias, ela havia perdido a mãe para uma viagem sem volta, mas seu pai parecia que também havia ido, não comia, não sai do quarto, a empresa estava nas mãos dos colaboradores, não queria ver ninguém; foi assim a primeira semana sem Vanessa.
Ruth mãe de Heitor resolver dar o primeiro passo procurando o seu filho para conversar, quando entrou no quarto ficou assustada, o seu filho sentado no chão abraçado ao vestido de noiva da sua finada esposa, olhando aquele homem, a mãe não o reconheceu, o seu corpo antes forte e musculoso, estava fraco por conta da má alimentação, a barba sempre bem-feita, agora sem fazer há dias, os seus olhos castanhos que sempre passaram muita alegria pareciam mais olhos de vidros sem vida.
Sentando ao lado do filho Ruth começou:
"Meu filho você precisa sair daqui, Vanessa não gostaria de ver você nessa situação! Ela te amou de mais para querer você matando-se aos poucos, por favor filho reagi"
Com um fio de voz e responde à mãe: "Não consigo"; as lágrimas caem sem ele mesmo perceber, já era automático chorar, para ele a sua vida foi com o caixão da esposa.
A sua mãe sai do quarto desolada, procurando o marido Hélio, juntos decidem que precisam procurar ajuda de um médico, o seu amado filho precisa sair dessa escuridão sem fim, temem que o mesmo não se recupere.
A preocupação era tanta que nem perceberam que a sua conversa era ouvida por alguém muito esperta, que resolveu dar a solução:
"Vovois papai está sofrendo, eu estou sofrendo, vocês estão sofrendo, mamãe era única, super demais, minha heroína. Mas ele sempre dizia que vocês eram super pais, porém mimavam muito omeu papai."
"Do que você está falando Vitoria", questionou o seu avô curioso.
"Mamãe morreu, isso é muita dor, mas não tem volta, agora só da para esperar Papai do Céu chamar para gente se encontrar, isso"
"Quanta sabedoria nessa cabecinha minha neta, sim, você está certa"; diz a avó emocionada com as palavras da sua neta.
"Agora quem cuidava com a mamãe das coisas?"
"Seu papai!" disseram juntos
"Pois bem quem está cuidando agora?"
"Vi estamos cuidando por que o seu pai não está bem, precisamos dar um apoio para ele neste momento de pesar"; respondeu o seu avô não entendendo o que a neta queria afinal.
"Então e as coisas dos senhores lá no sítio, quem está cuidando? Das vacas, quem tira o leite? Os cachorros, Tufão e Banguela, quem está alimentando? E mais serio quem dá cafúne neles? As suas plantas lá do quintal, vó a senhora disse que elas só crescem com a senhora conversando com elas. Tadinhas nem quero pensar na saudade que ela devem estar." Falou Violeta fazendo carinha de preocupada e triste, e continuou.
"Vocês amam o seu filho, eu amo o meu pai, mas precisamos fazer o mesmo que ele fez quando me ensinou a andar de bicicleta, tirar as rodinhas e soltar, ele me disse que só assim para aprender a andar sozinho, os machucados faz crescer, dói, muito, mas se não jogar remédio não vai sarar. Eu quero o meu pai cuidando de mim, amo os meus vovois, mas vocês como mamãe sempre dizia são os que irão mimar-me, cuidar e educar agora ficou a missão para o papai, prometo que vou tentar não dar trabalho, mas quero o meu pai de volta, a minha mãe não pode sair do caixão para me abraçar, mas ele precisa sair do quarto, porque preciso do seu colo, nem que seja para chorarmos juntos". As lágrimas já saiam dos olhos da menina, os seus avôs a abraçaram tentando passar todo amor possível.
Os pais de Heitor naquela noite arrumaram as suas malas sem falar com o seu filho, na manhã seguinte logo as cinco da manhã o seu pai entrou no seu quarto abrindo as cortinas e falando alto com o filho:
"A escolinha da Violeta ligou ontem, hoje ela precisa voltar para as aulas, já deixamos as orientações com a doméstica que cuida da casa que estaremos mandando ou trazendo comida congelada para vocês até você se organizar, liguei na sua empresa e pedi para sua secretaria deixar o local onde a Vi passa a tarde organizado, assim quando vocês voltarem depois do almoço não precisa se preocupar, agora você rapaz levante, faça essa barba e venha tomar o seu café da manhã antes que eu e a sua mãe peguemos a estrada de volta para o sítio, aquilo lá está de cabeça para baixo". Ele falou tudo tão rápido que Heitor nem conseguia acompanhar, entendendo apenas que os seus pais estavam indo embora.
"Como pai? Vocês irão me abandonar no momento que mais preciso de vocês." Heitor estava indignado com os seus pais, que pareciam não ligar para seu sofrimento.
"Na verdade, vamos ajudar você muito mais indo embora do que ficando filho. Sabemos o quanto seu amor por Vanessa era forte, mas o fruto desse amor está lá na sala esperando o pai, que continua vivo, dar colo para ela que perdeu a mãe. Mas que está sem o pai também." Olhando nos olhos do filho completou. " Se realmente amou Vanessa, saia desse quarto e vá cuidar do maior presente que ela te deixou"
Como um balde de água fria foi assim as palavras do seu pai caíram em Heitor, olhando o quarto mais uma vezes vazio, olhou para a foto de família na parede, onde ele e Vanessa beijavam as bochechas de Violeta, foi como um choque ele caiu mais uma vezes no chão, porém desta vez não para chorar e sim pedir perdão, não ficou muito tempo nessa posição, pois sabia que a partir daquele momento tinha uma grande missão, ser pai solo, do fruto do seu grande amor.