Nathan ficou alguns segundos em silêncio, encarando a porta por onde Lili tinha desaparecido.
O som do mar lá fora parecia distante demais, quase irrelevante diante do peso que tinha ficado no jardim.
Ele passou a mão pela nuca, tenso.
— Isso não faz sentido, Raul… nada disso faz.
Raul finalmente desviou o olhar da casa, como se tivesse sido puxado de volta à realidade.
— Faz sim.
Nathan olhou para ele na hora.
— Como?
Raul deu um passo lento pela grama, os olhos mais fechados, pensativo.
— O Fabio nunca deixou nada por acaso.
Nathan soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso não é estratégia, isso é loucura. Ele colocou uma mulher no meio de um testamento como se fosse… uma peça.
Raul parou, olhando de lado.
— Ele não colocou ela no meio.
Silêncio.
— Ela sempre esteve no meio.
Nathan franziu o cenho, irritado.
— Você tá ouvindo o que tá dizendo?
Raul respirou fundo.
— Tô.
Ele virou o corpo totalmente para Nathan agora.
— E você também deveria.
O vento bateu mais forte entre eles.
Nathan deu um passo à frente, a voz mais baixa, mais firme.
— Você tá pensando em aceitar isso?
Raul não respondeu de imediato.
A hesitação dele foi resposta suficiente.
Nathan percebeu.
E aquilo o incomodou de verdade.
— Você ficou maluco… dois anos preso numa ilha com ela?
Raul desviou o olhar por um segundo, como se estivesse medindo as consequências de algo maior do que ele.
— Não é sobre “ela”, Nathan.
Nathan riu de novo, dessa vez mais seco.
— Ah não? Então é sobre o quê?
Raul olhou de volta.
— É sobre o que o Fabio sabia que ia acontecer quando ele saísse de cena.
Um silêncio pesado caiu entre os dois.
Nathan baixou o olhar por um instante, depois voltou a encarar a casa.
— Ele queria nos colocar um contra o outro…
Raul completou, baixo:
— Ou queria ver qual de nós ainda era capaz de encarar o que ele deixou pra trás.
Nathan ficou imóvel.
Lá dentro, Lili tinha subido as escadas.
Mas a presença dela ainda parecia estar em todo lugar.
Nathan falou, mais controlado agora:
— E se nenhum de nós aceitar?
Raul demorou um segundo.
— Então ela fica com tudo.
Nathan fechou a mão, irritado com a própria impotência.
— Isso é injusto.
Raul soltou um leve riso.
— Bem-vindo ao testamento do Fabio.
Os dois ficaram em silêncio de novo.
E pela primeira vez, não era só uma escolha sobre herança.
Era sobre quem teria coragem de entrar naquele jogo até o fim.
Lá em cima, no quarto amplo da casa da ilha, Lili fechou a porta devagar.
O silêncio ali era diferente. Não era paz — era pressão.
Ela ficou alguns segundos encostada na porta, respirando fundo, como se o corpo inteiro tivesse chegado no limite de aguentar mais um dia de decisões que não eram dela.
Foi até a janela.
O mar se estendia infinito, bonito demais para o caos que tinha começado a representar na vida dela.
Lili apoiou a mão no vidro, o olhar perdido.
E então falou baixo, quase sem perceber.
— Ah, meu amor…
A voz dela falhou um pouco no começo.
— Você sabia que isso ia acontecer…
Ela engoliu em seco, os olhos ficando brilhantes.
— Por que você me botou nesse meio?
O silêncio respondeu, como sempre.
Ela soltou um riso curto, sem alegria nenhuma.
— Eu virei herança, Fabio…
Ela se afastou da janela, andando devagar pelo quarto.
Os passos eram lentos, cansados, como se cada pensamento pesasse mais que o anterior.
— Sua família tá me olhando como se eu fosse um contrato…
Parou no meio do quarto, passando a mão no rosto.
— E seus irmãos…
Ela respirou fundo.
— Eles nem sabem o que fazer comigo.
Sentou na beira da cama, olhando para o chão.
A voz ficou mais baixa agora, quebrada em alguns pontos.
— Eu não sou uma ilha… eu não sou um prêmio…
Um silêncio.
Ela fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, já havia mais dor do que raiva.
— Eu só queria… continuar sendo sua esposa.
A frase saiu quase como um sussurro.
Ela ficou ali sentada, parada, enquanto o vento entrava pela janela aberta e mexia levemente as cortinas.
Lá fora, a ilha continuava linda.
Lá dentro, Lili começava a entender que, mesmo depois da morte de Fabio, ele ainda tinha deixado ela presa dentro de uma escolha que não era só dela.
E agora… dois irmãos lá embaixo estavam prestes a decidir o resto da vida dela sem saber quem ela realmente era quando ninguém estava assistindo.