Lili respirou fundo, como se finalmente estivesse colocando tudo na mesa sem filtro nenhum.
O vento vinha do mar, batendo leve nas folhas do jardim, mas ali dentro parecia que tudo estava preso, parado no mesmo ponto há dias.
Ela cruzou os braços, encarando os dois com uma calma quase fria.
— E sejamos sinceros, tá?
Nathan ergueu o olhar, atento.
Raul já não brincava mais. Só observava.
Lili continuou, firme:
— O irmão de vocês colocou na cláusula dois anos comigo na ilha.
Ela apontou de leve, como se fosse óbvio demais para ainda estar sendo discutido.
— Vocês só têm que decidir quem vai aceitar isso.
Um silêncio curto.
Ela deu um passo para o lado, caminhando devagar pela grama.
— Depois de dois anos… nos divorciamos.
Ela parou, virando de novo para eles.
— Metade da ilha fica comigo. A outra metade fica com quem aceitou.
Lili deu de ombros, como se fosse simples.
— Simples.
Nathan soltou o ar pelo nariz, claramente incomodado.
— Isso não é simples, Lili.
Raul finalmente falou, mais baixo:
— Você tá tratando isso como contrato, não como vida.
Lili riu, mas sem humor.
— Porque é isso mesmo pra vocês, não é?
Ela olhou direto para Nathan primeiro.
— Pra você é herança.
Depois para Raul.
— Pra você é disputa.
Ela respirou fundo, a voz ficando mais firme.
— Pra mim é sobrevivência.
O silêncio voltou a pesar.
Lili passou a mão no cabelo, cansada, mas ainda muito consciente de cada palavra.
— Eu não tô pedindo amor de ninguém aqui.
Ela levantou o olhar de novo.
— Não tô pedindo escolha emocional. Não tô pedindo romance. Não tô pedindo nada disso.
Um passo à frente.
— Só tô dizendo como funciona.
Ela apontou para o chão, como se estivesse selando a decisão.
— Dois anos. Ilha. Casamento de contrato. Depois, cada um segue sua vida.
Raul estreitou os olhos, pensativo.
Nathan ficou em silêncio por alguns segundos longos demais.
E naquele espaço entre uma respiração e outra, ficou claro que o testamento de Fabio não tinha sido sobre dinheiro.
Era sobre decisão.
E nenhum dos três ainda tinha entendido o tamanho disso.
Lili soltou o ar devagar, como se tivesse chegado no limite de tudo aquilo.
O olhar dela passou de Nathan para Raul, sem pressa, mas com uma exaustão evidente.
— Olha… não me levem a m*l.
Ela ajeitou o vestido, a voz mais baixa agora, menos cortante, mais humana.
— Eu sou só a peça de xadrez aqui.
Nathan abriu a boca como se fosse responder, mas não conseguiu no primeiro instante.
Raul também não interveio.
Lili continuou, dando um leve passo para trás, já se afastando da conversa.
— Vocês que têm que decidir isso entre si… se é que um de vocês realmente me ama do jeito que o irmão de vocês pensava.
A frase ficou no ar por um segundo mais pesado do que todas as anteriores.
Ela respirou fundo, os olhos brilhando de cansaço, mas sem chorar.
— Agora… se me dão licença…
Ela fez uma pequena pausa, já virando o corpo em direção à casa.
— Eu vou me retirar. Preciso deitar. Não estou bem.
E sem esperar resposta, Lili entrou.
A porta da casa fechou atrás dela com um som seco, definitivo.
Ficaram os dois.
Nathan e Raul parados no jardim, encarando a mesma casa onde ela tinha desaparecido.
O vento voltou a soprar, mas agora parecia mais frio.
Nathan passou a mão pelo rosto, tenso.
— Isso tá ficando fora de controle…
Raul não respondeu de imediato. Só olhou para a porta fechada por alguns segundos.
Depois falou baixo, quase para si mesmo:
— Não… isso já saiu do controle faz tempo.
E pela primeira vez, não era sobre a ilha.
Era sobre quem, ali, ainda conseguia sair daquela história inteiro.