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1008 Words
Passaram alguns dias. O clima na família não tinha melhorado — pelo contrário. A leitura do testamento parecia ter aberto uma ferida que ninguém conseguia fechar. Nathan evitava decisões. Raul, por outro lado, começou a aparecer com mais frequência nas propriedades, como se estivesse medindo cada centímetro do império que agora parecia suspenso no ar. A ilha era o ponto central de tudo. E Lili… tinha sido levada até lá sob o argumento de “organização da herança”. Mas nada naquele lugar parecia organização. Era silêncio demais. Luxo demais. E lembranças demais. Naquela tarde, o céu estava limpo, o mar calmo batendo leve contra as pedras. Lili estava sentada no jardim principal da propriedade, descalça na grama, o olhar perdido. Ela parecia cansada de lutar contra tudo ao mesmo tempo: o luto, os irmãos, o testamento, e a sensação de estar sendo observada como se fosse parte de um contrato. Atrás dela, passos. Ela nem precisou virar para saber quem era. — E aí… como você está? — Nathan perguntou primeiro, a voz mais contida. Raul veio logo atrás, as mãos no bolso, o olhar analisando tudo ao redor como se tentasse decifrar não só a casa, mas a própria Lili. Ela soltou um suspiro lento e finalmente olhou para os dois. — Tô tentando seguir. O silêncio ficou pesado por um instante. Ela puxou os joelhos contra o peito, encarando os dois sem desviar. — Vocês já decidiram qual de vocês vai casar comigo… ou vão abrir mão da ilha e deixar só pra mim? Nathan franziu o cenho imediatamente. Raul soltou uma risada curta, incrédula. — Isso não é uma escolha simples assim. Lili inclinou levemente a cabeça, firme. — É sim. Vocês só não querem admitir. Os dois trocaram um olhar rápido. A tensão entre eles era quase palpável. Ela respirou fundo e continuou, como se já tivesse pensado nisso há dias. — O irmão de vocês nunca foi bobo. Segundo ele… um de vocês sempre foi apaixonado por mim. Nathan reagiu na hora: — Isso é absurdo. Raul não disse nada. Só ficou mais sério. Lili continuou, sem se abalar. — Só que escondia muito bem. O vento passou entre as árvores, mexendo os cabelos ruivos dela. — Ele fez isso por um motivo. Ele dizia que, se um dia algo acontecesse com ele, eu seria cuidada por um de vocês. Ela riu sem humor, balançando a cabeça. — O problema é que agora é real. Silêncio. Dessa vez, ninguém interrompeu. Lili levantou o olhar, duro, direto. — Vou ser sincera com vocês. Eu tenho mansão, tenho shopping, tenho clínicas… e tenho a ilha. Ela fez uma pausa curta, deixando o peso das palavras cair. — E sim… aquela ilha é um paraíso. Eu amo aquele lugar. Os olhos dela endureceram ainda mais. — Eu não tenho direito de vender pra vocês. E se tivesse, eu vendia. Nathan franziu a testa. Raul observava, em silêncio. Lili se levantou devagar, limpando a grama do vestido preto. — Eu não tô a fim de ser um corpo carregado por vocês só pra manter uma ilha viva num testamento maluco. Ela deu um passo à frente, encarando os dois de frente agora. — Se isso aqui é uma escolha… então escolham direito. Porque eu não sou prêmio. Nem herança. O vento ficou mais forte por um instante e Nathan soltou um riso curto, quase automático, tentando aliviar o peso da conversa. — Relaxa, Lili… você não faz meu tipo. A frase caiu no ar como uma pedra. Por um segundo, ninguém reagiu. Raul olhou de lado, como se tivesse ouvido algo errado. O vento passou mais forte pelo jardim, balançando as folhas e deixando o silêncio ainda mais incômodo. Lili ficou imóvel. Depois, ela riu. Mas não era um riso leve. Era aquele tipo de riso que vem quando algo já passou do limite. Ela passou a mão no rosto, como se estivesse organizando os próprios pensamentos. — Olha que ótimo... Nathan franziu o cenho, sem entender o tom dela. Lili virou o corpo totalmente para eles agora, firme, cansada e direta. — Vamos fazer o seguinte, tá? Fiquei com a herança de vocês e deixem a minha. Ela apontou de leve, como se estivesse organizando um contrato invisível no ar. — Vocês já assumiram empresa, hotel, restaurante, mansão… tudo que ele deixou pra vocês. O olhar dela endureceu. — Me deixem cuidar da minha herança sozinha então. E esqueçam a ilha. Raul soltou o ar devagar. — Não é simples assim, Lili. Ela riu de novo, dessa vez com mais irritação. — Sabe o que não é simples? Ela deu um passo à frente, olhando direto para Nathan. — Você me dizer que eu não sou seu tipo, como se eu tivesse algum interesse em você. O olhar dela virou mais afiado. — Eu amava o Fabio. Eu vivi anos felizes com ele. Não é fácil pra mim estar aqui… muito menos pensar em casar com o irmão dele. O silêncio ficou pesado outra vez. Lili respirou fundo e continuou, mais controlada agora, mas ainda firme: — Então vocês só têm uma escolha. Nathan cruzou os braços, desconfortável. Raul observava tudo em silêncio, atento demais. Lili apontou levemente para o chão, como se estivesse selando algo. — Quem quiser a ilha vai ter que aceitar viver dois anos comigo. Ela fez uma pausa. — Dois anos. O vento bateu mais forte, levantando uma mecha do cabelo ruivo dela. — E depois disso… recebe metade da ilha. Ela olhou de um para o outro. — Ou então deixam tudo pra mim e acabam com essa história agora. Nathan soltou uma risada sem humor. — Isso é chantagem agora? Lili nem piscou. — Não. É limite. Raul finalmente falou, baixo: — E você acha que isso resolve alguma coisa? Lili deu de ombros. — Resolve pra mim. O silêncio que veio depois não era mais só tensão. Era decisão. E, pela primeira vez, a ilha deixou de ser o prêmio. E virou o campo de guerra.
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