Dona Laura estava linda num vestido vermelho que realçava sua pele branca.
Só vi minha mãe tão radiante, quando anunciou seu casamento repentino. Ela estava tão feliz, tão satisfeita. Seu único problema havia sido resolvido.
Uma mão frágil cobre a minha, tirando minha atenção da minha mãe.
- E os namoradinhos, Karina? - Minha vó, Amélia, pergunta nos auge dos seus 93 anos, viúva há 15 anos.
Muitas vezes me perguntava se estava fadado as mulheres da família serem viúvas, pois a maioria era e quem não era, iria ficar.
- Não tem, vó.
- Como não tem? Uma menina bonita feito você e solteira? Alguma coisa tem errado.
- A única coisa de errado, mamãe, é que minha meninha não quer namorar - diz minha mãe, afagando meu rosto.
Minha vó franze o cenho, me olhando preocupada.
- Não pode demorar muito para arrumar um marido - diz tentando segurar minha mão com firmeza.
- E se ele morrer, vó? - pergunto segurando o riso.
Ela se inclina um pouco para frente.
- Você arruma outro, só não pode ficar sozinha. Já está na hora de ter filhos.
- Por quê será que não imagino Karina tendo filhos? - Beatriz pergunta em pé no meio da sala - Quando penso na Karina, só imagino ela trabalhando.
- Minha filha gosta do que faz - Minha mãe afaga minha bochecha com as costas da mão.
- Mas trabalhar demais não presta - diz tia Íngride, mãe de Mariana e Gustavo - Sempre falo isso pro Gustavo.
- E ele nunca escuta - diz Beatriz, saindo da sala.
- Karina vai encontrar o homem certo para ela - diz Dona Laura, colocando a mão em meu joelho - Na hora certa, dentro ou fora do trabalho.
- Já pensaram em nomes de bebês? - Uma outra tia pergunta, trazendo todos para o foco daquele jantar, me deixando respirar aliviada por me esquecerem.
Alex se aproxima, segurando um copo com uma bebida âmbar. Seu cabelo preto estava bem penteado para trás, como sempre; Parecia relaxado, vestido em uma camiseta polo e calça jeans. Mas acima de tudo, feliz por saber que seria pai.
- Acho que a ficha ainda não caiu - Ele comenta com um leve sorriso no rosto - Talvez depois da ultrassom, a ficha caia.
- Pensei que iriam fazer chá revelação.
- E vamos - diz minha mãe, olhando para Alex - Vou fazer a sexagem fetal e iremos descobrir o sexo só no dia do chá revelação.
- Mas alguém precisa saber se é menino ou menina - diz Mariana, sentando no braço do sofá.
- Já pensei nisso também e a Karina vai ficar responsável por isso.
Pisco algumas vezes, olhando para ela.
A última coisa que queria naquele momento, era ficar responsável pelo segundo dia mais feliz da vida da minha mãe, quando ela podia pagar uma empresa para ficar responsável por isto.
- Mãe, eu não...
- Karina - diz séria, sem me olhar.
Respiro fundo levantando, ouvindo a conversa prosseguir com a minha saída.
Na sala de jantar, encaro a mesa posta, em tons de amarelo e branco, começando a odiar tudo aquilo.
- Pode me explicar qual é seu problema? - Minha mãe pergunta de repente, entrando no cômodo.
- Não quero ficar responsável pelo resultado da sexagem fetal.
Ela inclina a cabeça para o lado, franzindo o cenho.
- Posso saber por quê?
- Por que eu não quero?
Ela ri sarcástica.
- Está fazendo isto por birra, não é?
- Hã?! Não!
- Sim, você está. Não está aceitando bem, o fato de não ser mais filha única, de não ter todas as atenções só pra você.
- Mãe, não é isso.
Ela dá um passo na minha direção.
- Então o quê é?
- É difícil entender que só não quero participar disso? - Num gesto repentino, um tapa é desferido contra meu rosto, fazendo com que abaixasse a cabeça.
Odiava quando aquilo acontecia.
Odiava quando ela me batia, por não fazer seus gostos, como Alex fazia.
As vezes odiava minha mãe. A mulher que havia me dado a vida e como ela mesmo dizia: “ E que tinha o poder de tirar a vida de mim”.
Mesmo com 25 anos, ainda me sentia uma criança perto dela e na grande maioria das vezes, só pelo fato de me impor. E não seguir o quê ela queria.
- Trate de voltar para a sala, não me faça vir de novo aqui - murmura entre dentes, camuflando a raiva que estava sentindo.
- Oi, minhas meninas - diz Alex, entrando na sala de jantar, afagando as costas da minha mãe - Tudo bem?
Minha mãe sorri, o olhando.
- Está sim - diz colocando uma mão no peito dele - Só estava conversando um pouco com Karina.
Ele me olha, depois novamente para ela.
- Atrapalhei a conversa só de meninas?
- Você nunca atrapalha, meu amor. Já estávamos voltando para a sala, não é Karina?
Ergo a cabeça, sorrindo levemente, temendo que o lado do rosto que ela bateu, estivesse vermelho.
- É. Já estávamos voltando para a sala.
Alex passa o braço pela cintura dela, a guiando para fora do cômodo.
O jantar fluiu como minha mãe planejou. Todos pareciam estar se divertiam e só falavam de sua gestação, especulando se era um ou dois bebês, os possíveis nomes e os tons que usariam no quarto destinado à eles.
A única coisa que conseguia fazer, era sorrir de vez em quando e dar algum palpite quando me era perguntado alguma coisa.
Volta e meia, Mariana me olhava, perguntando por gestos se eu estava bem. Disfarçadamente assentia, tentando me esforçar mais e não deixar nada transparecer.
Havia sido difícil, mas aprendi a lidar com a minha mãe e principalmente a não contrariá-la.
- Nos vemos amanhã no calçadão, bebê - diz ela, quando o jantar termina e seus convidados começam a ir embora, inclusive eu.
- Tá bom - Me inclino sobre ela, dando um beijo em sua bochecha, antes de sair pela porta.
Não sabia por quanto tempo mais conseguia protelar a revelação da minha gravidez. Não demoraria para minha barriga crescer e duvidava que conseguiria esconder o crescimento da minha barriga.
Estava entre a cruz e a espada.
Optar por um aborto, parecia ser o caminho mais adequado a seguir, porém, não o certo.
Era meu bebê que crescia dentro de mim. Não quero algo substituível, mesmo algumas pessoas acreditando que era, que naquela idade gestacional eles não sentiam nada. E por alguma razão, algo em mim queria lutar por aquele bebê e estava pronto para ir para a guerra se fosse necessário.
As ruas não estão muito movimentadas, o quê facilitou um pouco minha ida para a casa.
Com os olhos fixos na estrada, acreditava que só precisava de uma boa noite de sono para organizar minha vida.
Franzo o cenho ao ver um carro atravessado no meio da pista logo a frente, diminuindo a velocidade aos poucos.
Meu coração dispara em meu peito, quando quatro homens erguem as armas compridas em minha direção.
É um assalto, minha mente grita, deito meu corpo sobre o banco do carona, no exato momento em que uma chuva de tiros começa.