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1386 Words
O hall da Atlas era imponente. Pé-direito alto, estruturas de vidro espelhado, mármore preto e dourado no chão, e recepcionistas com sorrisos treinados. Isadora acompanhava Dante de salto alto, vestido social e a mesma elegância firme que sempre mostrava nos momentos profissionais. Por fora, impecável. Por dentro, tentando ignorar as lembranças da noite anterior. — A sala de reuniões é no último andar — disse Dante, após cumprimentar o recepcionista. — Vamos resolver isso rápido. Subiram em silêncio. No elevador, ele digitava no celular e ela mantinha o olhar na frente, focada. Quando as portas se abriram, um grupo de executivos já os aguardava. No meio deles, estava ele. O americano da casa de swing. Mesmo terno alinhado, expressão confiante — mas agora com um sorriso mais discreto. Os olhos dele foram direto para Isadora, e ela congelou por um segundo antes de disfarçar. — Mr. Montenegro — o homem disse em um tom cordial, apertando a mão de Dante. — Prazer revê-lo. E Miss Mendes — ele virou-se para ela com um sorriso leve —, uma bela surpresa. Ela apenas assentiu com educação. — Senhorita Mendes, por favor — corrigiu, sem retribuir o sorriso. Entraram na sala, e a reunião começou. Assinaturas, acordos finais, trocas de pastas. Dante liderava com firmeza, enquanto Isadora apresentava alguns dados financeiros quando necessário. Tudo corria bem — até que, durante uma pausa para café, o americano se aproximou dela no canto da sala. — Não esperava te ver aqui hoje. Não assim... — Ele sorriu, abaixando a voz. — Você estava maravilhosa aquela noite. Ela manteve o tom firme. — Foi uma situação pontual. E prefiro que fique no passado. — Você parecia estar gostando — ele disse, aproximando-se um pouco mais, com confiança demais. Isadora deu um passo sutil para o lado, afastando-se. — Eu estava sob efeito do ambiente. Não se engane. Antes que ele dissesse algo, Dante apareceu do outro lado da sala, chamando por ela. — Isa, vamos revisar os relatórios da parte brasileira? — Claro — respondeu imediatamente, aproveitando para se afastar do americano. Ela se sentou ao lado de Dante, que não percebeu a tensão no ar, mas lançou um olhar breve ao homem antes de se voltar aos papéis. Isadora manteve a postura profissional até o fim, mas não esqueceu o incômodo. Na saída do prédio, já na calçada, Dante acendeu um cigarro enquanto aguardavam o carro. — Tá tudo bem? — ele perguntou, casual. Ela sorriu com gentileza, sem hesitar. — Tudo certo. Só cansada. Foi uma reunião longa. Ele assentiu e abriu a porta do carro para ela. Isadora entrou com a mente ainda girando. Não queria criar um problema — principalmente se ainda estava entendendo o que eles dois tinham. Mas algo naquele americano insistia em ultrapassar limites. O sol entrava pelas janelas grandes da suíte, aquecendo o quarto e iluminando as malas abertas sobre a cama. Isadora estava de joelhos no chão, dobrando algumas roupas com precisão. Separava o que ainda usaria na viagem de volta e o que ia despachar. Ao lado, sua nécessaire já estava pronta. Dante surgiu da porta do banheiro, com uma toalha pendurada no ombro e os cabelos ainda úmidos. Ele olhou em volta e soltou um suspiro. — Odeio arrumar malas. Gosto de vir, mas voltar nunca tem a mesma graça. — Eu gosto — disse ela, sem olhar diretamente. — Dá uma sensação de organização. Encerrar ciclos. — Você sempre vê poesia até em fazer a mala, Mendes? Ela sorriu de canto. — Alguém precisa manter a ordem, Montenegro. Dante passou por ela, pegou uma camisa na poltrona e a jogou dentro da mala sem dobrar. Ela lançou um olhar crítico. — Você vai chegar no Brasil com a roupa parecendo que dormiu nela. — Eu provavelmente vou dormir nela — ele respondeu, rindo. Isadora balançou a cabeça, mas continuou a arrumar as coisas em silêncio. O clima estava leve, com uma tensão sutil que nenhum dos dois parecia querer nomear. Depois do que viveram ali — as noites intensas, a troca de olhares, os limites ultrapassados —, voltar à rotina parecia um contraste brusco demais. — Já confirmou com o motorista? — ela perguntou, fechando o zíper da mala menor. — Sim, ele nos busca às cinco. O voo sai às oito. Tudo certo com seus documentos? — Tudo. Só vou dar uma última conferida no passaporte antes de sair. Dante observou ela de pé, ajeitando a blusa dentro da calça jeans com um movimento simples, mas que ele já conhecia bem. Havia algo na forma como ela fazia tudo com cuidado, mesmo as pequenas tarefas, que o cativava. — Vai sentir falta de Nova York? — ele perguntou, mais curioso do que parecia. — Da cidade? Talvez. Do quarto ao lado do seu? — Ela olhou para ele com um sorriso carregado de provocação. — A gente vê quando chegar no Brasil. Ele arqueou uma sobrancelha, satisfeito com a resposta. — Então é um "até logo", não um "adeus", senhorita Mendes? — Isso depende de você, senhor Montenegro. Eles trocaram um olhar firme, e por um segundo o silêncio falou mais do que qualquer flerte. Ambos sabiam que estavam voltando com mais bagagem do que a que entraria no porão do avião. O carro preto estacionou diante do prédio de Isadora. Ela soltou o cinto, pegou a bolsa e olhou para Dante com um sorriso leve. — Obrigada por... tudo. A viagem, as experiências, o cuidado. — Não precisa agradecer. A gente se vê segunda. Ela assentiu, abriu a porta e saiu. Dante a observou entrar no prédio antes de seguir caminho para sua casa. --- Ao chegar na mansão em que morava, Dante estacionou na garagem e entrou com a mala na mão. Não esperava encontrar ninguém àquela hora — pretendia tomar um banho quente e deitar por horas. Mas logo no hall, uma voz familiar o surpreendeu. — Finalmente resolveu voltar pra casa. Ele levantou os olhos e deu de cara com sua mãe, Estela Montenegro, sentada no sofá da sala com um café nas mãos. Elegante como sempre, cabelo impecavelmente preso, olhar sério. — Mãe? O que você tá fazendo aqui? — Vim ver meu filho. É pecado agora? — Não, só... — ele deixou a mala no chão. — Só não esperava. Achei que estava em Búzios. — Estava. Mas voltei. E parece que voltei bem na hora certa — ela cruzou as pernas e o encarou. — Helena passou aqui ontem. Dante se recostou na parede, respirando fundo. — Ah, claro. — Ela estava... destruída, Dante. Disse que foi atrás de você em Nova York, tentou conversar e acabou dando de cara com uma mulher no seu quarto. Ele franziu o cenho, impaciente. — Ela não tinha que ter ido atrás de mim, mãe. Nós terminamos. E faz tempo. Ela sabe disso. — Vocês podem ter terminado, mas foi um noivado de anos. E o fim foi... conturbado. Você a expôs, Dante. Ela se sentiu humilhada. Dante se aproximou e falou com calma, mas firmeza. — Ela me traiu com o meu irmão. E mentiu por meses. Eu não a expus, ela mesma se entregou. Ela apareceu no meu quarto de surpresa e encontrou alguém comigo — isso não me transforma no vilão da história. Estela suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Mesmo assim, você poderia ter sido mais cuidadoso. Helena foi como uma filha pra mim. Ver ela daquele jeito... me partiu o coração. — Mãe, eu entendo seu carinho por ela. Mas não dá pra fingir que nada aconteceu. Eu estou seguindo minha vida. Helena precisa fazer o mesmo. Estela o observou por um instante, depois se levantou. — Eu só quero que você pense com mais cuidado nos seus passos. No que você mostra pro mundo. A família Montenegro carrega um nome, uma reputação. — E eu carrego minha verdade, mãe. Só isso. Ela o encarou mais uma vez antes de se dirigir à porta. — Pense no que eu disse. E vê se aparece mais. Essa casa anda vazia demais. Dante ficou ali parado, sozinho na sala, sentindo o peso das palavras e das escolhas. Helena estava longe de ser um capítulo encerrado para os outros — mesmo que para ele, não passasse de um passado resolvido.
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