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1208 Words
Uso a mochila de escudo para me proteger das gotas geladas de chuva e corro pelo breu que rege o estacionamento da universidade. A aula de direito penal acabou quinze minutos depois do horário, então a área parece mais inóspita do que o habitual. Há uma guarita a poucos metros, mas tenho a mesma sensação bizarra das últimas noites: a nuca arrepiada, um alerta no fundo da cabeça, como se alguém me observasse através da escuridão. Já faz quase duas semanas do encontro com aquele marginal e, deste então, ando meio psicótica. Tudo fruto da minha imaginação, é claro, mas não consigo parar de pensar no que aconteceu. Quando fecho os olhos, consigo sentir a pressão do cano da arma no queixo, os dedos dele no meu pescoço, o colar sendo arrancado e aquele olhar tão ameaçador quanto todo o resto. Ao entrar no carro, travo as portas e passo as mãos pelo cabelo. O blazer lilás está molhado, assim como minha saia. Puxo o celular da bolsa e envio uma mensagem para Camile. Combinei de buscá-la no trabalho para bebermos alguma coisa e eu finalmente lhe mostrar o cartão. Louise: pronta? chego em cinco minutos Ainda não decidi qual desculpa dar a ela quando me perguntar por que estou obcecada por essa coisa. Até poderia contar que dirigi bêbada e atropelei um cara. Mas se disser que depois ele colocou uma pistola na minha cara, me roubou e me ameaçou e mesmo assim quero encontrá-lo… ah, isso seria demais até para Camile. Camile: desculpa, Lou invadiram o depósito do meu irmão tive que vir correndo pra cá A mensagem me assusta. Ligo pra ela. Caixa postal. Louise: ele tá bem? Camile: mais ou menos agrediram ele, quebraram tudo aqui Louise: manda a localização Coloco no GPS o endereço que ela enviou e dirijo até a zona oeste de São Paulo. Quando paro em frente ao depósito de bebidas e entro pela porta destrancada, encontro um cenário catastrófico. Dezenas de garrafas de cerveja e vinho estouradas, cacos de vidro no chão e prateleiras caídas. Parece que passou um furacão por aqui. Desvio com cuidado do caos até a área do caixa, onde vejo Camile e seu irmão. Ele está com os lábios machucados e o olho inchado. As orelhas salientes sob o corte militar estão vermelhas, assim como a ponta do nariz. — Meu Deus! O que aconteceu? — Uns filhos da p**a foderam tudo — Camile resmunga. — Roubaram o caixa, quebraram as garrafas… não sobrou quase nada pra contar história. — Chamaram a polícia? — Vieram há algumas horas. Não adiantou muita coisa, as câmeras não estavam funcionando e o Be não conseguiu ver o rosto dos caras. — Nada? Nem um detalhe? Bernardo n**a. — Sinto muito — eu digo, afagando suas costas. — Vamos dar um jeito, ok? Mas acho que você precisa ver um médico, Be. Seu rosto está muito inchado. — Vou ficar bem. — Sei que vai, mas isso aí vai doer o dobro amanhã, seria bom algum… — Eu não vou ao hospital, Louise — ele me corta, rude. Ergo as sobrancelhas, surpresa com o tom de voz. Camile troca um olhar preocupado comigo. Bernardo é o tipo de cara que morreria antes de ser grosseiro. Eu o conheci quando ainda era um garoto e sempre ficava envergonhado perto de mim. Mesmo agora, aos vinte e cinco anos, um homem-feito, ele nunca falou desse jeito comigo. Das poucas vezes que o vi estressado, era porque havia algum problema que não podia resolver. Por isso, o silêncio desconfortável dura alguns segundos. Eu o observo esfregar um dedo de cada vez nas palmas das mãos, o nervosismo palpável. Ele quase nunca precisou mentir para mim e, quando tentava, não conseguia. Não tem erro, quando se conhece bem uma pessoa, ela até pode te enganar por um tempo, mas de alguma forma você sente. Você sabe. Olho ao redor. Os vidros, a desordem. As câmeras parecem novas. Devem ser. Afinal, Bernardo abriu esse depósito há pouco mais de seis meses. Ele investiu em cada detalhe. Estava animado com o novo projeto. — Por que não funcionam? — pergunto. — O quê? — Ele me encara. — As câmeras. Ele olha para o canto superior da loja onde uma delas está. Depois, balança a cabeça negativamente. — Sei lá — responde. — Acho que deram defeito em algum momento e eu não reparei. — Posso ver? Ele fecha a cara com o pedido. — Nem adianta, Lou. Não tem nada. — Me mostra, então. Há um lampejo de irritação em seu rosto e, logo depois, receio. Nossa troca de olhares é mais que suficiente para que eu confirme minha suspeita. — Estou esperando, Be… Ele sustenta meu olhar. Eu o torturo. Bernardo finalmente puxa o ar e aperta os olhos, estalando a língua em derrota, marchando para os fundos do depósito, onde os aparelhos das câmeras estão conectados ao notebook. Não espero que ele faça as honras. Apenas me sento na cadeira e ligo tudo como se soubesse o que estou fazendo. Bom, eu não sei. Mas sei que ele é um mentiroso. Sei que esse roubo fede mais do que o cheiro de merda que podemos sentir. — Qual horário? — pergunto. — Dez e meia, por aí — ele resmunga. — Não tô entendendo. Disse à polícia que não funcionavam! Como… como a Lou…? — Camile arfa quando eu acerto os comandos, a voz perdendo-se no ar conforme as gravação das câmaras aparecem. Dez e meia. A loja está fechada. Bernardo mexe no celular atrás do caixa. Dez e quarenta e sete. Pela porta dos fundos, dois homens entram. Não há capuz, nem balaclava. Nenhuma preocupação em esconder seus rostos, muito menos as pistolas nas mãos. Eles se aproximam de Be, e, pela forma como conversam, não parece um assalto, nem que são estranhos um para o outro. Um minuto se passa. Dois. A conversa acaba quando um deles — o de cabeça raspada — ergue a arma na altura da cabeça de Bernardo. Ele gesticula, nervoso. Be n**a com a cabeça. Várias e várias vezes. O outro homem começa o caos. Derruba garrafas e prateleiras, destrói tudo o que vê pela frente em completo frenesi. Depois disso, o que segura a arma se aproxima de Be e lhe dá uma coronhada tão forte que o faz cair. Então suas costelas são chutadas. Ele se encolhe, tenta se defender, mas continua apanhando feio. É quando um terceiro homem encapuzado entra pelos fundos. Ele avança no agressor de Be e o joga no chão com um soco no rosto. O homem caído se ergue com dificuldade, abaixando a cabeça para o encapuzado, como um cão violento que é contido pelo dono. Então o homem careca tira a jaqueta para limpar o sangue do golpe que tomou. É quando ele se vira de costas que vejo uma tatuagem curiosa: o cão de três cabeças desenhado por toda a extensão de sua pele. — Você ficou louco?! — Camile berra atrás de mim. — Por que mentiu pra polícia?! — Eu fiz merda… — o irmão admite. — Bernardo, pelo amor de Deus, comece a falar que p***a tá rolando aqui antes que eu surte!
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