— Você sabe que os remédios do papai estavam caros pra c*****o. A gente não tinha dinheiro, Camile! Ele só piorava e piorava, e eu… p***a, eu tinha que fazer alguma coisa.
— E você fez, não fez? Veio trabalhar aqui. Eu te ajudei a abrir essa loja com as minhas economias! Consegui o trabalho de meio período na biblioteca e na cafeteria… achei que estivéssemos bem.
— O que você recebe não dá pra comprar metade dos remédios de que ele precisa. Sem falar dos exames semanais, do aluguel, das contas… Nossos empregos medíocres não dariam conta de tudo.
— Be, não estou entendendo onde você quer chegar…
— Eu dei um jeito, beleza?
— Que jeito? — ela grita.
— Você não precisa se preocupar comigo! — ele grita de volta.
— Fala logo!
— Ele está vendendo drogas, Camile — eu digo.
O momento seguinte é tomado por um silêncio cortante.
Posso imaginar seu coração se esmagando dentro do peito.
— Não. Não acredito.
— Eu não queria que você soubesse, desculpa — Bernardo lamenta.
— Você só pode estar de s*******m comigo!
Não ouço a discussão que explode outra vez entre eles. Continuo com os olhos congelados na imagem. Eu pauso. Rebobino. Vejo tudo de novo. A discussão. Os socos. A tatuagem. A forma como os dois homens obedecem esse terceiro que chega tão ameaçador, tão autoritário, tão… familiar?
Quanto mais encaro ele — pelos poucos segundos onde a câmera pega seu rosto em boa resolução —, mais agoniada me sinto. Parece alguém que conheço. Alguém que…
De repente, me lembro daquela noite.
O desgraçado que atropelei.
Os nós dos dedos esfolados.
Talvez ele faça muito isso, socar os outros. Talvez seja ele. O cara do capuz que controlou os outros dois, que impediu Be de ser massacrado. E, se eu for ligar a tatuagem do cão de três cabeças daquele cara ao cartão que achei justamente onde atropelei aquele cretino… não pode ser coincidência.
— Quem são esses caras? — pergunto.
— Traficantes, é pra eles que preciso pagar os malotes que vendi.
— c****e, olha o que você tá falando! — Camile se revolta. — Virou um zé droguinha. Não acredito que você fez essa bosta com a sua vida!
— Eu não sou zé droguinha! Não uso, só vendo!
— E o terceiro cara? — eu interrompo. — O que chegou e te salvou? Quem é ele?
— Na real, ele não me salvou.
— Pelo que eu vi, ele impediu o outro de te espancar.
— Esse terceiro cara, o nome dele é Don. Ele é o demônio. Ele me deu uma sentença de morte.
— O que ele disse?
— Ele quer a grana que devo até o final do mês, senão…
— Ele vai te matar? — Camile se apavora.
— Pior que isso.
O que seria pior que a morte?
Camile me olha. O pavor domina cada canto de seu rosto?
— De quanto você precisa? — pergunto ao Bernardo.
— Não quero sua grana.
— f**a-se, Bernardo! Não é hora pra ter orgulho. Quanto é?
— Eu já tenho o que preciso — ele retruca. — Consegui vender o malote que eles me deram. Só estou esperando uns caras me pagarem.
— Deus, eu ainda não acredito que se envolveu em um buraco desses. — A voz de Camile trava, as lágrimas descem por seu rosto. — Não precisava disso, você perdeu totalmente a cabeça, Jesus Cristo…
— Camis, a gente conversa em casa, tá bom? Leva ela, Lou, por favor. Vou ficar e dar um jeito nessa bagunça.
Eu concordo com ele e envolvo os ombros de Camile, conduzindo-a para fora do depósito. Já no meu carro, ela desaba. Deixo que chore. Não há muito o que eu possa dizer agora. Também me sinto impotente como amiga. Conheço os dois há quase cinco anos, quando Camile chegou no meu colégio como bolsista e, numa aula de literatura, acabamos descobrindo nosso gosto em comum pelos livros, principalmente os nacionais, que o resto das garotas não conhecia.
O pai deles tem Alzheimer, glaucoma e mais algumas doenças que requerem um gasto mensal bem salgado. Minha mãe entrou com uma ação para fornecimento de remédios de alto custo pelo Estado, mas diversos estão em falta. Também me ofereci várias vezes para ajudar financeiramente, mas Camile e Bernardo sempre foram muito orgulhosos. E agora vejo até que ponto o orgulho dele foi capaz de chegar.
Quando estamos a poucos metros do apartamento de Camis, ela já parece mais calma. Eles moram em um condomínio habitacional do governo. Ela fita a janela embaçada pelo frio, o rosto ainda molhado. Estaciono rente à calçada e pego sua mão, entrelaçando nossos dedos.
— Pela primeira vez na vida, não sei o que fazer — ela confessa. — Não acredito que o Bernardo se meteu numa merda dessas.
— Vamos dar um jeito. Eu tenho dinheiro, Camis. Vou ajudar vocês.
— Nem sabemos quem são aqueles homens. O buraco pode ser mais fundo do que parece.
Umedeço os lábios e respiro fundo. Talvez eu esteja completamente errada, mas não posso ignorar meu sexto sentido.
— Eu esbarrei naquele cara. O do capuz.
— Como assim?
— Foi no aniversário da Íris. Da morte dela. Fiz o de sempre, você sabe. — Apenas respiro fundo ao ver seu olhar de compaixão. — Acabei atropelando um cara na volta para casa. Sai do carro para ajudar, mas ele não quis que eu chamasse o SAMU com medo de que isso atraísse a polícia.
Então, ele enfiou a arma na minha cara e roubou meu colar. Era ele. O mesmo cara nas câmeras de segurança. O que Be disse ser o demônio.
Camile me observa em choque. Imagino sua mente em curtocircuito com tanta informação nas últimas horas.
— Por que não me contou nada?
— Eu queria falar pessoalmente — minto.
A verdade é que, com Calebe me infernizando e a situação dos meus pais, eu entrei na minha bolha. Quando estou m*l, meu instinto é ficar reclusa. Sem falar que Camile já tem problema suficiente para ter que lidar com os meus.
— Você… tem certeza que era o mesmo homem? — ela pergunta.
Puxo o cartão preto da capa do celular e mostro para ela.
— Achei isso no chão, onde ele caiu depois que eu o atropelei. E o careca da imagem tinha uma tatuagem igualzinha nas costas.
Ela pega o cartão e observa.
— É um Cérbero — Camile diz.
— Um o quê?
— A tradução é “demônio do poço”. Na mitologia grega, era um monstruoso cão de três cabeças que guardava a entrada do submundo, o reino dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem, despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.
— Quais as chances desse cartão e do cara tatuado terem uma ligação?
— Não sei, mas, se for o caso, é bizarro. Acha mesmo que esbarrou no traficante do meu irmão?
— Tenho quase certeza que sim. — Aponto para o canto superior do cartão. — Olha essa sequência de números. Deve significar alguma coisa.
Camile lê os números em voz alta. Os minutos se arrastam até que ela solte um suspiro pesado.
— Minha cabeça parece que vai explodir. Preciso pensar com calma. Podemos conversar amanhã?
— É claro.
Ela abre a porta e sai do carro.
— Lou? Obrigada. De verdade.
— Vai ficar tudo bem, Camis.
Ela assente, os olhos cheios de lágrimas. Então bate a porta e vai embora.
Uma sensação r**m me preenche no mesmo instante. Algo que me diz que, não, não vai ficar tudo bem.