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1396 Words
Eu admito. Sou uma negação para cumprir promessas. São quase onze da noite quando reúno meu material de aula, porque sou sempre a última a deixar a sala de Diana Velares. Sim, quero que ela me note. Há três anos luto por isso. Sei que ela sabe meu nome. Contei as vezes que ela falou comigo. Que acenou, satisfeita, ao me entregar as provas com nota máxima. Nas últimas semanas, no entanto, prometi a mim mesma que pararia com essa obsessão louca pela professora. Ela deve me odiar, no mínimo me achar uma bajuladora. A necessidade de chegar nela e dizer que só sou assim porque eu a acho perfeita e intocável só não é mais forte que minha vergonha. Porque se eu pudesse… Eu a observo de relance. A pele preta retinta, os lábios carnudos pintados de nude discreto, as unhas no mesmo tom. Ela está dentro de um terno púrpura caríssimo. É elegante, simplesmente linda. Quando entrei na faculdade, foi pelo desejo dos meus pais. Eu odiava direito. Mas Diana mudou minha percepção de um jeito natural, gradativo. Essa mulher fez do direito penal minha fascinação. Sua didática e postura profissional me hipnotizaram desde a primeira aula. Ela já foi uma juíza renomada, mas abdicou do cargo para se dedicar integralmente ao magistrado. É sua maior paixão, como ela mesma diz. — Bom descanso, Diana — eu cumprimento ao passar por ela. Íris dizia que eu era uma verdadeira puxa-saco. Ela odiava Diana, mas só porque nunca conseguia uma nota acima de seis na matéria. Sua antipatia se dava somente seu ego ferido, por ser r**m em alguma coisa, sem ter a quem culpar. — Louise, tem um minuto? Estou tendo uma alucinação? Meio surpresa, confirmo com a cabeça e me aproximo da mesa de mogno. Vejo quando ela abre uma pasta de couro e comprime os lábios, depois me encara com certa curiosidade. — Mais um “dez” na minha prova. Parabéns. — Obrigada. — Gosta dessa matéria, não gosta? — É minha favorita. — Já sabe se quer advogar quando se formar? Ou pretende concorrer a um cargo público? Que pergunta c***l. Estou no sexto período e ainda não me decidi. Não apenas quanto a minha profissão, mas… tudo. De um jeito estranho — e até mesmo preocupante — não consigo imaginar os próximos anos. É como se houvesse uma barreira bloqueando meus pensamentos. Quando Íris era viva, ela fazia o nosso roteiro. Chega a ser ridículo pensar nisso, mas acho que me acostumei tanto com minha irmã conduzindo minha vida que, quando ela morreu, percebi que eu não sabia mais como fazer isso. — Se eu advogar, sem dúvidas, será na área criminal. — Se? — Se eu sobreviver até o último período. Ela sustenta meu olhar. E então ri. Minhas palavras soam como uma dessas piadas de qualquer universitário. É bom que ela não tenha visto o peso por trás delas. — Olha, Louise, preciso confessar que não te considerei para uma das minhas vagas, porque sei que privilégios você já tem aos montes. O pai promotor, a mãe advogada… — Ela suspira pesadamente. Eu assinto, porque concordo. — No entanto, não posso ignorar o fato de que você é uma das melhores alunas da classe, senão a melhor. Notas excelentes, participação ativa, trabalhos impecáveis. É brilhante. Não solto um pio. Paralisada, meu coração estoura dentro do peito. Conheço Diana. Ela é justa. Extremamente exigente. Sei bem o que ela quer dizer. Estou inserida nesse mundo desde que nasci. A influência dos meus pais poderá abrir as portas dos escritórios de advocacia mais renomados de São Paulo. No entanto, sempre me dediquei ao máximo nos estudos. Diferente de Íris, tinha pavor de olhar minha vida e perceber que absolutamente tudo o que conquistei foi mérito deles. E, agora, me vejo diante de uma oportunidade única de ter o nome de alguém como ela, tão importante e célebre, compondo meu histórico acadêmico. Tenho medo até de soltar o ar e perder essa chance. Por isso, apenas assinto. Em silêncio. Suando frio. — Meu próximo grupo de mentoreados consistirá em um seleto número de alunos, aqueles que eu acredito ter o perfil necessário para se tornarem excelentes advogados criminais. Pretendo orientálos em suas trajetórias acadêmicas e profissionais, oferecendo insights, compartilhar minha experiência e abrir portas para oportunidades relevantes na área de atuação. Gostaria de convidála para se juntar a esse grupo. Sua dedicação e interesse no direito penal me impressionaram desde o início. Você tem um potencial tremendo para ser uma advogada criminal de destaque no futuro. — Nossa, eu… — Minha garganta arranha. Os dedos tremem. — Eu fico imensamente grata pelo seu reconhecimento e por essa oportunidade. Seria uma honra fazer parte do seu grupo. — Que bom. Minha assistente vai enviar o e-mail com todas as informações necessárias. Já adianto… não tolero nenhuma falta ou atraso nas aulas, nem nota abaixo daquelas que me fizeram te escolher. É provável que a mentoria comece agora no segundo semestre, então organize sua agenda. — Ela fecha a pasta, removendo os óculos quadrados do rosto. — Está dispensada. Te vejo na semana que vem. — Pode deixar comigo. Vou ficar atenta. Obrigada, professora, sério, muito obrigada mais uma vez pelo convite! Estou tão nervosa que acabo fazendo uma reverência ridícula, e então me apresso para sair da sala. — Louise? — Diana chama. Me viro, morrendo de medo que ela retire tudo o que acabou de dizer. — Sim? — Um erro e você está fora, entendido? Um suspiro de alívio escapa dos meus lábios. — Entendido. Retiro as chaves do carro e dou uma checada no pátio da BSP, a biblioteca onde Camile trabalha no turno da tarde. O lugar está fechado há tantas horas que não há uma viva alma por aqui. Por ser quase meia-noite, caminho depressa até a entrada dos funcionários. A brisa chicoteia os fios do meu cabelo e gela meu nariz. Vai chover de novo. Vagueio pelo salão, imersa na escuridão total, até achar o único foco de luz a alguns metros. Ele vem do abajur em cima do balcão de atendimento, onde Camile está mexendo no notebook. Os cabelos cacheados estão presos em um coque enorme em cima de sua cabeça. Ela acena e puxa uma cadeira para que eu me sente ao seu lado. — Aqui é bem assustador a essa hora — comento. — Isso porque não está ventando tanto. Os assobios são bizarros. Olho ao redor, abraçando meu próprio corpo. Pelas janelas de vidro, noto o vento agitando as árvores lá fora. — Com seu irmão está? — pergunto. — Não conversamos muito depois de ontem, mas tive tempo de mexer nas coisas dele logo que você me deixou em casa. Olha isso… — Camile estende o cartão de três cabeças na minha direção. — Achei um idêntico dentro de uma agenda. Puxo o meu de dentro da capa do celular por desencargo de consciência. Confiro a sequência de números. De fato são iguais. — Isso só confirma que aquele cara que chegou por último é o mesmo que eu atropelei. E aquele outro, o da tatuagem de Cérbero… todos eles vieram do mesmo buraco. — Sim, não pode ser coincidência. Você topou com o traficante do Be. Que loucura. Quais as chances de isso acontecer? Me pergunto a mesma coisa. — Tinha mais alguma coisa na agenda do Be que nos ajude a descobrir o que esse cartão significa? Camile abre a galeria do celular e mostra umas fotos recentes. — Achei umas anotações sobre as drogas que ele pegou. Basicamente maconha e cocaína. Se eu entendi direito, ele deve quase quinze mil àqueles caras. — Camile aperta os olhos e n**a com a cabeça. Posso ver a preocupação estampada no rosto dela. — Também tem esses nomes aleatórios com valores distintos. Não consegui entender muito bem, mas me parece coisa de aposta. — Tipo… jogos de azar? — Não sei. Não descarto a possibilidade. Mas o principal… — Ela arrasta o dedo na tela, mostrando outra foto. Vejo suas unhas roídas, até a pele envolta de seus dedos estão machucadas. — “Coordenadas do convite. Seguir pela estrada de terra à direita, ir até o fim. Terá uma placa ‘PERIGO, NÃO ULTRAPASSE’. Caminhar na direção das escavadeiras abandonadas. Entrada secreta do Tártaro atrás do muro de salpico.”
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