Camile segura firme na alça de teto do carro, os dedos roxos
com tanta pressão, como se estivéssemos a caminho de um
matadouro. Vou contornando o terreno para deixar o carro a uma
distância segura caso alguém apareça por aqui.
— Isso aqui é macabro pra c*****o — Camile sussurra. — Será
que é o lugar certo?
— Olha o muro.
Ela maneia a cabeça na mesma direção que eu. O grafite em
branco na parede da fábrica expõe o cão de três cabeças, meio
escondido atrás de umas escavadeiras enferrujadas.
— p**a merda. — Ela meneia a cabeça, frustrada. — Ainda dá
tempo de desistir. Esse lugar parece perfeito para desovar um
corpo. Deve ter gente desaparecida enterrada aqui.
— Você pode esperar no carro, se quiser.
— Achei que tínhamos um acordo. “Se o lugar for insalubre,
vamos embora”, lembra?
— Estamos atrás das pessoas que querem matar seu irmão.
Não acho que vamos achá-lo num parque de diversões andando
numa roda-gigante colorida.
— Essa sua dose de coragem me deixa aterrorizada.
— Fica aqui. Eu dou uma olhada e volto pra dizer que se tá tudo
bem.
— Nem fodendo. Não vou deixar você morrer sozinha. Não
quero ser citada nos podcasts de crimes reais como a melhor amiga
covarde.
— Nós não vamos morrer, Camile.
— Ah, tá ótimo. Com você dizendo assim, me sinto muito mais
segura. — Ela me encara e revira os olhos, depois puxa todo o ar e
expira pesadamente, colocando a bolsa atravessada no corpo. —
Vê se cala a boca e vaza do carro, antes que eu me arrependa.
Observo enquanto ela sai primeiro e bate a porta como se
estivesse pronta para enfrentar o Maníaco do Parque. Isso me faz
lembrar de quando contei que Calebe me traiu com Íris. Três dias
depois, Camile e ele se esbarraram na sala lá de casa e ela deu
uma cotovelada na boca dele tão forte que todo mundo ficou em
choque na hora.
Ela acabou cortando o cotovelo com o golpe, mas o prazer de
machucá-lo foi mais do que suficiente para tornar a dor
insignificante. Quando perguntei por que tinha feito aquilo, ela só
disse que ele mereceu. Sem mais palavras. É por isso que hoje eu
sei: Camile não é o tipo de amiga que avisa que vai dar merda, ela
simplesmente vive a merda com você.
É mais uma noite fria em São Paulo. Minhas mãos estão
congelando mesmo enfiadas dentro dos bolsos da jaqueta puffer.
Há uma touca preta na minha cabeça da mesma cor que as outras
peças de roupa. Uso calça, tênis. O mais confortável e ágil possível.
Empurro meu cabelo para dentro da camisa e subo a gola até a
altura do queixo.
O vento gelado castiga meu rosto logo que começo a andar.
Camile vem logo atrás de mim. Nossa respiração fica cada vez
mais alta, misturando-se ao som das solas contra os grãos de terra.
Observo marcas no chão, pegadas na lama. Pelo tamanho, diria
que homens passaram por aqui. Por um lado, isso é bom. Significa
que estamos no caminho certo, mas por outro… estar no caminho
certo também representa um risco.
Ao nos aproximarmos do muro com o Cérbero pichado,
identificamos uma passagem por trás de alguns entulhos de
madeira — ripas, portas, partes soltas de móveis. Camile e eu
afastamos os objetos e encaramos a passagem.
Está escuro. Nem uma luz ou vislumbre do caminho. E fede.
Muito.
O cenário soa como um alerta, dizendo para nos afastarmos.
Camile me encara.
Eu a encaro de volta.
— Tem certeza?
— Não — admito.
E mesmo assim nós entramos.
Não faço a menor ideia de onde estamos.
Parece um conjunto de túneis gigantes de esgoto. Camile não
dá um pio, apenas segura minha mão conforme avançamos. Tenho
certeza de que ela está aterrorizada demais para dizer o quão burra
nós duas somos, que deveríamos voltar antes que seja tarde
demais.
As paredes dos túneis são cobertas de pichações. Não só
Cérberos, mas dezenas de desenhos e frases macabras. Após
alguns minutos, encontramos um lance de escadas de concreto que
nos leva a algo que parece um estacionamento subterrâneo.
Lâmpadas fracas vacilam na tarefa de dissipar a escuridão.
Para minimizar o ar pútrido que preenche meus pulmões, subo a
gola da jaqueta e tampo nariz. Alguns murmúrios abafados ecoam à
medida que avançamos. As vozes aumentam com uma cacofonia
de gritos e uivos.
— Perdidas, moças?
Meu coração sobe pela boca. A voz pesada se apresenta em
um homem alto e musculoso. Está todo coberto — jaqueta preta de
gola alta, calças largas, balaclava. Somente os olhos à mostra e, é
claro, a arma em sua cintura.
— Hm… na-não — Me odeio por gaguejar.
— O convite — ele exige.
— O quê…?
— O convite, p***a!
Seu tom faz estremecer. Camile geme atrás de mim.
— Você é surda, loirinha? — o cara insiste.
Meu raciocínio segue lento. E agora? O que esse homem quer
de nós? Que p***a de convite é esse?! Arrisco e pego o cartão no
bolso interno da jaqueta.
Que seja isso. Por favor.
Ele encara o cão de três cabeças entre os meus dedos. O olhar
desconfiado, como se soubesse exatamente que somos duas
imbecis no lugar errado.
— Qual é seu nome?
— Beatriz.
Porra, foi a primeira coisa que veio à cabeça.
Ele estreita os olhos.
— Não. Não é. — O homem chega mais perto. Camile aperta
minha mão. — Eu não vou perguntar de novo. É melhor não mentir
dessa vez.
— Lou-Louise.
Ele sustenta meu olhar. Parece a p***a de um polígrafo.
— E o seu? — Sua atenção recai sobre meus ombros.
Camis tira o convite de Be do bolso e estende na direção dele.
— Meu nome é Camile. E saiba que, aqui na minha bolsa, eu
tenho spray de pimenta e um canivete!
Esmago os dedos dela em desespero. É agora que esse
homem vai dar um tiro na nossa cara.
Mas, surpreendentemente, ele solta uma risadinha irônica.
— E em quem as madames irão apostar hoje?
Quem? Então são pessoas? Eles apostam em pessoas?
Não faço ideia do que esse merdinha está falando, mas não
posso dar bobeira. Apostas. É o que rola aqui. Um cassino talvez.
Jogo do bicho? p**a que pariu. Deve estar cheio de bandido aí
dentro. É isso. Duvido que ele faça essa pergunta cheia de marra
para o pessoal que frequenta esse lugar.
— Isso não é da sua conta — arrisco dizer e estufo o peito. —
Vai me dar me deixar passar ou o quê?
Camile treme, a mão encharcada de suor sob a minha. O
homem me analisa com certa curiosidade.
— Por que impedi-las, não é?
Engulo em seco.
— Obrigada.
— Você não vai me agradecer depois, acredite.
Dito isso, ele abre passagem.