— Espero que ele não seja um stalker. Se eu for seguida depois do trabalho, juro que te mato.
Camile coloca meu drink na mesa e cruza os braços. É fim de tarde. O bar está vazio e silencioso. Gosto da estética daqui. Estou literalmente dentro de um cofre. O ambiente intimista fica no subsolo do antigo Banco do Estado de São Paulo, o Banespa. As paredes e chão são de mármore e duas portas redondas de aço dividem a casa em três ambientes. Um deles é adornado por duas mil pequenas caixas nas quais clientes guardavam joias, documentos e barras de ouro.
— Eu olhei a galeria de fotos dele — comento. — Não me parece um stalker.
— Eles nunca parecem. Você não ouve mesmo os podcasts que eu te mando, não sei por que insisto. — Ela suspira, checando se algum cliente está chamando, e volta a me encarar. — Algum nude?
— O quê?
— Alguma foto da piroca dele?
— Essa é sua preocupação?
— Eu chamo de curiosidade. Tem ou não tem?
— Deus, não! Parece que ele trabalha como segurança e tem uma filha, mas não tem aplicativo de mensagem, o que, sinceramente, achei um pouco estranho.
— Talvez ele seja do tipo low profile ou meio contra tecnologia.
— Isso existe?
— Existe. Geralmente são velhos ou esse povo que acredita em teoria da conspiração, esse lance de que a câmera do Iphone está gravando tudo o que a gente faz e enviando ao governo. Se bem que não parecia velho. Nem doido. Na verdade, se me lembro bem, era bem gostoso. Falando nisso, Don já entrou em contato?
— Ainda não.
— Você deixou seu número com ele ou endereço?
Nego com a cabeça.
— Então, como diabos ele vai te achar?
— Não sei. Mas ele garantiu que vai.
Nós trocamos um olhar temeroso. Um silêncio sinistro e esquisito paira no ar. Sei o que ela está pensando, mas agradeço por não dizer, porque nós duas sabemos que isso, sim, parece coisa de stalker.
— O Be ficou sabendo o que fizemos — ela diz. — Quase fez um barraco comigo, mas eu baixei a crista dele.
— E aí?
— E aí que não pôde fazer nada além de ficar puto. Eu sei que a raiva dele é, na verdade, pura vergonha. Ele não conseguiu a grana ainda, então sabe que não tem opção além de aceitar sua ajuda. Prometeu que vai te pagar cada centavo.
A porta do Cofre é aberta e o homem que entra suga nossa atenção. Confesso que fico surpresa conforme ele se aproxima, dentro de um terno que eu diria ser Armani, de corte slim muito bem passado, e sapatos de couro polidos. Vestido assim, eu diria que parece até mais velho. Talvez uns trinta, trinta e dois anos. É totalmente diferente do cara no Tártaro usando um cigarrinho na orelha, moletom e calça jeans surradas.
— Louise — ele me cumprimenta, e seus olhos encontram os de Camis. — E você é a…?
— Camile. — As bochechas dela tomam um rubor vermelho.
— É muito bom ver vocês inteiras. — Marlon abre os botões do terno e se senta na cadeira de frente para mim. Camile diz que vai preparar um drink para ele.
Aproveito para tirar o celular da bolsa e entregá-lo.
— Obrigada pelo que fez — reitero. — Foi legal da sua parte.
— Como eu disse, não foi nada. Não sei o que vocês estavam fazendo naquele lugar, mas, se quer um conselho, não voltem lá.
Eu o observo. Algo nele não faz sentido, principalmente quando pega o aparelho da minha mão e eu vejo o relógio em seu pulso. Ele usa roupas e acessórios caros. Me parece alguém que não andaria por aí com um celular como esse, caindo aos pedaços.
— E o que você fazia lá? — laço a pergunta, tamborilando as unhas na mesa.
— Gosto das lutas. Pode chamar isso de desvio de caráter, mas — ele sorri, relaxando na poltrona — acho que todo mundo tem algum, não?
— É. Acho que sim. — Devolvo o sorriso. — Belo terno. Armani?
Ele alisa as mangas, presunçoso.
— Legítimo.
— Não combina muito com seu celular capenga.
Marlon acha graça. Seus olhos se aprofundam nos meus, lendo meu ar sugestivo.
— Qual é sua conclusão? — pergunta.
— Minha conclusão?
— Sobre mim.
— Não quero ofender, só quero garantir que não é nenhum stalker psicopata. Sabe, o Tártaro não é o melhor lugar para se fazer amizade.
— Nisso você tem razão. — Ele puxa o crachá do bolso. Marlon Albuquerque, segurança privada. — Sou segurança particular há nove anos, então minha aparência faz parte do trabalho. Recebi alguns ternos de presente ao longo do tempo porque minha relação com a família sempre foi bem próxima.
— Hm… entendo.
— Isso te convenceu?
— Um pouco.
Ele ri.
Camile chega com os nossos drinks e sua bolsa, o que significa que já está liberada do bar.
— E então? Qual era o assunto? — Ela se senta ao meu lado.
— Estava tentando convencer sua amiga de que, não, não sou um stalker.
— Ela fez isso por mim. Sou meio paranoica. Leio muita coisa sobre crimes, então todo mundo é um suspeito em potencial.
— Então somos dois. Sou viciado nisso. Durmo ouvindo relatos de crimes brutais. É meio bizarro, mas…
— É relaxante — Camis completa, os olhos brilhando na direção dele.
Parece que ela encontrou sua alma gêmea.
Os dois engatam no assunto com tanto afinco que me vejo perdida em meio às barbaridades. Fito meu relógio e vejo que faltam apenas quarenta minutos para a minha aula na faculdade.
— Tenho que ir — eu os interrompo, pegando minha mochila. — Você quer uma carona, Camis?
Antes que eu tenha uma resposta, Marlon diz olhando para ela:
— Eu vou ficar mais um pouco, faz tempo que não venho aqui.
Se quiser me acompanhar…
Lanço um olhar de repreensão para minha amiga.
— Ah, posso ficar mais um pouquinho.
Ih, merda.
— A gente se fala mais tarde, então. — Respiro fundo e me despeço.
Enquanto saio do bar, digito a mensagem:
Louise: não entre no carro dele
Camile: quem me dera
Reviro os olhos e guardo o celular no bolso. Espero que o único desvio de caráter desse cara seja apostar em lutas clandestinas mesmo, porque, se não for, pelo olhar de fascínio que vi no rosto de Camile, nós teremos mais um problema.