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1439 Words
No dia seguinte, quando acordo, a primeira coisa que faço é checar meu celular. Hoje é sexta, o último dia que Bernardo tem para pagar a dívida, ou seja, o último dia para que Don entre em contato comigo. O dia voou. Já são quase dez e meia e nem sinal dele. Saio da aula e atravesso o campus em direção à saída. Ligo para minha mãe para ver a possibilidade de me dar uma carona, já que meu carro ficou com ela hoje cedo, sem mais nem menos, depois que soube que ela simplesmente vendeu seu Corolla. A ligação cai na caixa postal. Não insisto. Corro para debaixo da tenda da saída, me esquivando da chuva, e decido chamar um Uber. Levei fé quando Don disse que me acharia, mas estou começando a duvidar disso. Não há nenhuma mensagem no meu celular além das de Camile, que está completamente inquieta. Ela já me perguntou uma dezenas de vezes se o lutador apareceu, e a resposta é sempre a mesma. Camile: notícias do Don? Louise: nada ainda Camile: tô ficando preocupada… Louise: até 23h59 ainda é sexta Camile: me avisa se ele aparecer, por favor e se não aparecer também Louise: ok cadê o Be? Camile: trancado no quarto proibi ele de sair se isso não der certo… nem sei o que pode acontecer Digo que vai dar certo, mesmo sem certeza nenhuma disso. Estou digitando outra mensagem para ela quando um cara aparece subitamente ao meu lado, perto demais para me assustar. Ele está com um guarda-chuva preto na mão e o terno azul-marinho cheio de respingos d’água. — Calebe? Tá fazendo o que aqui? — Sua mãe disse que estava sem carro hoje, então vim te buscar. Estacionei lá fora. Ah, é claro. E quem mais ela sugeriria para me buscar senão o incrível paladino da lealdade? Deus, sério. Não aguento mais ele se esgueirando pela minha vida com a ajuda dos meus pais. É tão desrespeitoso. E o pior é que não há nada que eu possa fazer quanto a isso. — Já chamei um Uber, mas obrigada pela gentileza. — Abro meu guarda-chuva e avanço pelo estacionamento, ouvindo passos atrás de mim. — Lou… — Ele me alcança. Me odeio por não ter trazido meus fones. — Não precisamos conversar, não vou te incomodar. Só me deixa te levar em segurança, olha só essa chuva… — Essa insistência não te deixa cansado? É uma pergunta genuína, de verdade. — Suspiro e me viro para ele. — Louise, é só uma carona. Não precisa fazer uma tempestade. — Nós dois sabemos muito bem que não é só isso. Eu não sei mais como deixar claro que não te quero por perto, não quero seus favores, sua gentileza, não quero nada que venha de você. É tão difícil respeitar isso? — Não sem tentar fazer você me perdoar. O que fiz foi terrível, Lou, e só eu sei o quanto me arrependo, mas não vou mais tentar justificar o injustificável, só quero conquistar o seu perdão. Queria que você visse o quanto me esforço para isso. — Se esforce pra respeitar meu espaço pessoal, pra ouvir o que tento te dizer todas as vezes que temos essa mesma discussão. Me deixe respirar, Calebe. Há três anos você me cerca e me pressiona. Se enfia na minha casa sempre que pode, fortalecendo sua relação com meu pai, me perseguindo em cada lugar que eu vou, como agora. Calebe se aproveita da situação, do fato de nossas famílias serem sócias e de que nunca tive coragem de contar aos meus pais o que aconteceu naquela noite. Como eu poderia? Toda a vez que pensei em dizer que peguei minha irmã fodendo com ele, me lembro de que, minutos depois, ela morreu. Muitas vezes o desabafo esteve na ponta da língua. Nos jantares em que meu pai convidava os dele e, consequentemente, lá estava Calebe sentado à mesa, bem ao meu lado. Ou quando o teciam de elogios e me questionavam o motivo de termos terminado, por mais inconveniente que fosse. Eles acham que nosso relacionamento chegou ao fim porque fiquei deprimida demais depois que Íris morreu. Dói ouvir que sou burra por afastar alguém com tanto potencial, um cara tão educado, gentil e promissor quanto ele. — É isso que você realmente quer, Lou? Que eu me afaste pra valer? — É exatamente o que venho te implorando todos esses anos. Ele abre a boca, mas não diz nada. Não sei como ainda consegue ficar surpreso. Sempre fui direta e explícita quanto ao desconforto que a presença dele me traz. Eu era apaixonada por esse cara, tinha algo genuíno e bonito crescendo que tendia para o amor. Mas ele tirou isso de mim com tanta brutalidade que, hoje, encará-lo me causa uma profusão de sentimentos que nem consigo definir. Só sei que me faz m*l e preciso que ele entenda isso. Seus lábios se comprimem, e ele fita os próprios pés. Sua expressão triste até me deixaria com pena se minha memória fosse fraca, mas infelizmente ela não é. Me lembro daquela noite mais vezes do que gostaria, da conversa deles atrás da porta, dos gemidos de Íris, das palavras cruéis de Calebe. Da cena terrível diante dos meus olhos. De como meu coração se partiu em mil pedaços e tudo o que eu sabia sobre confiança se perdeu em questão de segundos. — Vou dar o espaço que tanto pede, mas só se aceitar minha carona. A última vez, prometo. Impaciente, solto uma lufada de ar. É como se entrasse por um ouvido e saísse pelo outro. Minha vontade é mandá-lo se f***r, mas fico em silêncio quando um Fiat Toro preto começa a se aproximar de nós, devagar, e para bem ao meu lado. Calebe e eu olhamos o carro com certa desconfiança. A janela se abre na altura do meu rosto. Paro de respirar por um momento, petrificada. O braço musculoso e com veias saltadas se apoia na janela. A tatuagem de corrente se salienta na pele bronzeada. A mandíbula marcada por uma expressão nada amigável, olhos escuros que quase ocultam o verde salpicado neles. O cabelo desgrenhado em sua testa é um detalhe que desordena a perfeição, mas só serve para deixá-lo mais atraente. Seu olhar se crava em mim enquanto me perco na sua beleza arrebatadora. — Entra — é tudo o que Don diz, maneando a cabeça para dentro do carro. Ao meu lado, Calebe assume uma postura severa. Há urgência na forma como ele me encara, exigindo uma explicação sobre esse homem que chegou do nada, com meias-palavras, e me lançou uma ordem, cheio de autoridade. Don podia ser um pouco mais educado ou um pouco menos… suspeito. — Quem é ele? — Calebe pergunta. — Um amigo — minto. — Nós conversamos depois. Tenho que ir. — Como assim “tem que ir”? Não. Não vai. — Seus dedos rodeiam meu pulso e me forçam a ficar no lugar. O olhar de Don se estreita na direção dele. — Dá um tempo — resmungo, entredentes, aproximando meu rosto dele. — É um assunto particular, cuida da tua vida. — Ele não parece um amigo. Entra?! Quem você é? Uma cachorra? — Não é da sua conta, c****e. Me solta. — Louise — Calebe me repreende. — Não sei quem é esse cara, então você vai embora comigo. —Se eu sair desse carro pra te fazer soltar o braço dela — Don diz —, é bom que saiba que vou quebrar todos os seus malditos dedos e esmagar seu pulso com a porta. Você tem dois segundos. Eles trocam um olhar, com uma tensão irascível. O vento chicoteia meus cabelos, e as gotas de chuva começam a cair com mais força. Forço meu punho de novo. Dessa vez, Calebe não tenta me impedir, apenas me observa com reprovação. Mal sabe ele que estou lhe fazendo um dos maiores favores da sua vida, impedindo que Don abra a porta do carro e o faça, com toda sua grande gentileza, tirar as mãos de mim. Dou a volta pelo Toro e entro no banco do carona. Don fecha as janelas e dá partida. Minha pele se arrepia de frio por causa da temperatura do ar-condicionado. Eu o encaro de relance na escuridão. A mandíbula forte e angulosa, um dos braços no volante e outro na marcha, as pernas abertas. Ele é tão sexy que me dá raiva. Seu perfume gostoso está impregnado por toda parte, e ele parece muito arrumado. Usa botas Timberland caramelo, calça escura e um sobretudo preto.
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