— Cadê o dinheiro? — Don nem me olha.
— Em casa.
— Você sacou tudo?
— Saquei.
Ele não diz mais nada.
Me remexo, desconfortável.
— O que acontece agora? — pergunto.
— Vamos buscar a grana.
Apenas quando ele diz isso, percebo que estamos no caminho para o meu condomínio. Além de saber onde eu estudo e em qual horário me encontrar, não me surpreende que também saiba onde eu moro.
Não gosto disso. Não gosto de ninguém revirando minha vida. Não sou exatamente um livro que deva ser aberto.
— Como sabe meu endereço?
— Do mesmo jeito como sei onde estuda.
— Então andou me seguindo feito um stalker maluco?
— Se eu tivesse algum tempo livre, Barbie, não gastaria atrás de você.
Eu o fuzilo com o olhar e me afundo no banco de couro.
Minutos depois, ele estaciona o carro próximo ao meu condomínio, mas a uma distância segura das câmeras. Eu saio do carro e subo para buscar a mochila. Noto que meus dedos tremem enquanto espero o elevador, o coração batendo na garganta. Apenas mais alguns minutos e isso acaba. Be não terá mais problemas. Camile vai poder dormir em paz. Falta pouco.
Respira, Louise.
Pego a mochila e volto, jogando-me ao lado dele outra vez. Don abre o zíper e confere as notas. Quando ele acaba, coloco a mão na maçaneta do carro e me preparo para ir embora.
— Tudo certo? — pergunto.
— Perfeitamente.
— Ótimo. Tchau.
Ouço um clique.
Puxo a maçaneta.
Trancada.
— Abre a porta, agora.
— Não acabamos ainda.
— Como não? Eu já te dei a grana, tá aí. Me deixa sair.
Ele liga o carro.
Arregalo os olhos.
— Me deixa sair!
Ele acelera.
— Don, eu quero sair!
— Eu já ouvi.
— ENTÃO ABRE A PORTA!
— Continue gritando e eu vou te jogar daqui, com o carro em movimento.
— SOCORRO!
De repente, ele pisa no freio e joga a bolsa de dinheiro em cima de mim, destrancando as portas. Meu peito sobe e desce em uma respiração descompassada enquanto eu o encaro completamente confusa.
— Não quer sair?! Vai. Some. Mas leve essa merda com você. Se não tem coragem de fazer, então não faça.
Fico longos segundos num impasse violento.
— Pode pelo menos me dizer para onde está me levando? — questiono, irritada.
— O responsável quer te ver.
— Por quê?
— Porque é assim que funciona. Comprou a dívida do moleque, parece suspeito. Ele quer ter certeza de quem você é.
— E quem você disse para ele que eu sou?
— Uma patricinha rica e inconsequente, que se mete com gente que não devia, pra evitar que um amigo i*****l acorde com a boca cheia de formiga.
Engulo em seco.
Ele não mentiu.
— É perigoso? — sondo.
Don trava as portas outra vez.
— Ninguém vai tocar em você.
— Como pode garantir isso?
— Do mesmo jeito que fiz no túnel do Tártaro. — Ele apoia a mão no encosto de cabeça do carona e me encara. — Fazendo-os pensar que você é minha. Porque ninguém toca no que é meu.
***
OÁSIS.
Esse é o nome na fachada suntuosa por onde Don entra com o carro. Parece uma boate ou clube. Ele sobe alguns andares de estacionamento até parar próximo a uma placa escrita “área reservada”, onde há vários automóveis caríssimos parados.
— Tem uma caixa no banco de trás, use tudo o que tem nela. — Don fita o relógio no pulso e me encara. — E, antes que me faça perder tempo, sim, é necessário.
Seguro o ímpeto de questioná-lo e o vejo bater a porta, levando a mochila de dinheiro junto. Arrogante. Me viro e pego a caixa de veludo. Dentro dela, encontro um vestido preto dobrado, um conjunto de colar e brincos de ouro. Há uma sandália de salto fino. É bonita, justo do meu tamanho e, pelo solado limpo, nova em folha.
De olhos fechados, me xingo mentalmente. Não acredito que estou me sujeitando a isso, sendo tratada como uma marionete nas mãos dele, sem saber nada dessa palhaçada. Poderia infernizá-lo mais um pouco, me recusando a entrar nesse tubinho vulgar, mas sei que, quanto antes terminar isso, mais rápido essa tortura chegará ao fim.
Deito o banco do carro e olho pelo retrovisor. Don está parado na lateral da traseira, encostado na lanterna. Ele acende um cigarro e o traga aos poucos. Seus olhos se fecham enquanto a nicotina preenche seus pulmões. Vendo-o distraído, começo a me trocar nesse cubículo. Sei que o vidro do carro é fumê e que ele não pode me ver aqui, mas isso não me acalma quando fico completamente nua.
Levo um tempo até estar pronta. Abaixo o espelho do quebrasol e penteio meus cabelos com os dedos. Depois, puxo da bolsa um batom vermelho que sempre carrego comigo e p***o meus lábios. Agora, pareço pronta para o que quer que seja.
Saio do carro e ajeito o vestido, puxando-o um pouco mais para baixo, mas ele nem chega à metade das minhas coxas. Quando viro o rosto, Don está olhando para mim com o cigarro preso no canto dos lábios. Sinto meu corpo esquentar sob a intensidade de suas íris, como se ele estivesse me gravando na memória. Ajeito a postura e pigarreio, jogando o cabelo para o lado.
— Estou como você me imaginou nesse vestido, chefe? — A palavra sai cheia de sarcasmo.
Don encara minha boca vermelha e depois meu pescoço e colo desnudos.
— Quer a verdade, Barbie?
— E por que não?
Don solta a fumaça no ar lentamente.
— Porque, na minha imaginação, você só aparece pelada.
Um rubor violento toma minhas bochechas, e um arrepio esquisito percorre minha espinha. Todos os meus pelinhos da nuca e dos braços se eriçam. E, pelo discreto curvar no canto de seus lábios, sei que o desgraçado percebe. Limpo a garganta, sem saber o que dizer.
Eu deveria dar um tapa na cara dele ou dizer o quanto isso é desrespeitoso, certo? Uma mulher que se preze faria isso, não faria? Então, por que tudo o que eu sinto é fogo no r**o e uma vontade louca de flertar também?
Na minha crise de segundos, ele se aproxima e coloca o braço ao redor da minha cintura para me conduzir até a entrada. O toque me deixa tensa. Essa proximidade, o perfume dele… tudo isso mexe com meus sentidos de um jeito muito perigoso.
Ao atravessarmos uma porta preta, me deparo com um corredor de luz púrpura. Nos fundos, há outra passagem. Quando Don a abre, uma sala escura é exposta. Parece uma recepção particular, tipo um camarote. O ambiente é luxuoso, com cadeiras de veludo vermelhas, garrafas de destilados e vinhos. Não há ninguém aqui além de uma mulher com um vestido bordô, tão colado quanto o meu, parada atrás de um balcão.
Don troca poucas palavras com ela, que já o conhece, e ela lhe entrega uma máscara de pano preta que esconde somente a boca e o nariz, com um focinho de cão raivoso desenhado no centro. Já eu, recebo uma máscara em formato de olhos de gato que se prende por trás dos meus cabelos com um elástico.
Ela pede para chegar mais perto e, mesmo ressabiada, obedeço. Sinto uma coisa gelada no pescoço quando ela pressiona uma espécie de carimbo ali.
— Que merda é essa? —Me afasto bruscamente, assustada.
Me fito no espelho gigantesco da parede. Há um pequeno desenho de Cérbero no meu pescoço, tipo tatuagem de henna. Fui marcada com a mesma arte do cartão do Tártaro. Me viro para Don, cheia de suspeitas. Espero uma explicação, mas ele só me lança aquele olhar de quando me mandou vestir a roupa no carro.
É necessário.