Duas portas enormes se abrem, e as batidas da música começam a reverberar pelas paredes escuras. Luzes estroboscópicas cintilam por todos os lados. À medida que caminhamos, tento ignorar a mão pesada de Don se firmando em meu quadril, cada vez mais possessiva.
Estudo as pessoas ao redor, a luxúria que entorpe, o clima lascivo pairando, a sensualidade em cada pessoa mascarada aqui dentro. Noto que as mulheres não disfarçam seu interesse em Don. Seus corpos reagem instantaneamente. Um ajeitar de decote, uma jogada de cabelo, um sorriso provocante de quem deixa claro que está disponível caso ele estale os dedos. E, embora elas sejam absurdamente lindas e atraentes, Don ignora a toda essa atenção.
Mais ao centro do salão, um enorme chafariz jorra a água para cima formando uma abóbada azulada. O bar se estende por uma parede espelhada, com barmans e garçonetes indo e vindo. Essa é a única área mais iluminada do salão, porque, nas demais, a luz é bem discreta e camufla ainda mais os convidados.
— Qual é o conceito por trás das máscaras? — pergunto enquanto subimos uma escadaria até o terceiro andar. — É uma noite temática ou uma exigência do lugar?
— Muitos homens e mulheres influentes frequentam o Oásis e não querem ser reconhecidos. Você provavelmente passou por políticos, empresários, atores globais, milicianos, traficantes internacionais… a lista é longa.
Engulo o nervosismo diante do déjà-vu. Uma ideia perturbadora surge de um lugar sombrio da minha mente e me castiga, sugerindo que esse parece o tipo de lugar que meu pai frequentaria.
— E o que acontece aqui, exatamente?
— Veja você mesma.
Enquanto avançamos, salas de portas vermelhas começam a se multiplicar pelo corredor. Algumas com janelas de vidro fumê, outras não. As que não têm privacidade são compostas de sofás de couro e mesas redondas, onde alguns homens e mulheres assistem uns aos outros fazendo sexo. Fico chocada, observando as cenas libertinas que se moldam bem diante dos meus olhos.
Em uma das salas, uma mulher nua se deita na mesa. Abre as pernas para receber um homem entre elas e deixa mais um desenhar uma carreira de cocaína no vale de seus s***s. Enquanto um a penetra, o outro usa uma nota de duzentos reais para inalar o pó branco de sua pele.
Ouço gemidos. Gritos. Uma sinfonia erótica.
A orgia se alastra. Isso continua por todo o andar.
Sinto o olhar de Don em mim. Aposto que não quer perder nenhuma reação minha. Tento disfarçar, mas meu corpo me sabota. Minha nuca esquenta, minhas mãos suam, meus olhos piscam mais que o necessário e minha respiração se descompassa.
— Parece nervosa.
— Estou bem… — Minha voz falha. — Estou ótima.
Agradeço a Deus quando chegamos no quarto andar. Aqui é muito mais silencioso. Há um homem parado no começo do corredor, todo de preto. Uma arma pende em sua cintura, o que me deixa tensa.
— Cadê o Otto? — Don pergunta, lhe entregando a bolsa.
— Na sua suíte.
Alguns passos à frente, Don abre a porta e me deixa entrar primeiro. Meus olhos logo se ajustam à luz vermelha do quarto. Há uma cama larga e confortável, sobre o chão de granito escuro, rodeada por um dossel de cortinas pesadas em veludo preto-royal. Tudo aqui tem um ar sexy e selvagem. Entre os espelhos espalhados pelo cômodo, um me chama mais atenção. Está preso no teto, dando uma visão privilegiada de quem quer que esteja deitado na cama.
Deve ser bem interessante.
Sentado em uma das poltronas do quarto, há alguém sozinho, de pernas cruzadas e olhar perdido, virando uma dose de conhaque. À primeira vista, parece um homem solitário e taciturno. Deve ter a mesma idade que Don, mas, enquanto o lutador parece intimidador e bruto, esse cara é elegante até na forma como se move.
— Otto — Don cumprimenta.
— Don. — O homem se levanta e vem até nós. O terno caro, a postura, a voz… tudo nele exala poder e chame. — Como está o ombro?
— Recuperado.
— Que bom. Fiquei preocupado quando soube da sua… luxação?
— Treino pesado.
Don troca um olhar comigo. É um aviso silencioso. Se acha que vou dizer alguma coisa sobre o nosso pequeno incidente, está muito enganado. Seja lá quem Otto for, ele tem autoridade sobre Don. Isso já me basta para temê-lo. Não quero que descubra que fui eu quem fodeu com o ombro do lutador, atropelando-o da forma mais vergonhosa possível naquela madrugada.
— Pra quem já foi até baleado — diz Otto —, uma torçãozinha não é nada. — Arregalo os olhos. — Então, essa é a garota? Louise?
— Eu mesma. — Aceno com a cabeça, forçando um sorriso amarelo, ainda chocada com o fato de que Don já levou um tiro.
— Sorte do seu amigo ter um anjo como você. Não é todo mundo que tem alguém pra acertar as contas fácil assim.
Não gosto do jeito que ele fala, como se houvesse muita coisa nas entrelinhas. Quinze mil que o Be devia com certeza não paga nem aquele conhaque dele. Não sei qual é seu interesse em mim, mas isso me preocupa.
— Agradeço por aceitar — digo, incerta. — Ele é um bom garoto, só está em um momento difícil.
— Não agradeça a mim. Você deve ser especial. É o primeiro favor que o Don me pede em muitos anos. Saiba que isso vale muito.
Não faço a menor ideia do que isso significa. Nem de quem é esse homem. Que favor é esse, afinal? Não acho que a dívida insignificante de Bernardo valha de alguma coisa aqui.
Um silêncio incômodo preenche o ar.
Eles trocam um olhar demorado.
Don permanece sério, impassível.
— Já estou de saída. Vejo você na reunião da Lorena? — Otto pergunta.
— Sim, pode contar comigo — Don responde.
O homem anuí com a cabeça e então sai da suíte, fechando a porta.
Franzo as sobrancelhas.
— Era só isso? — pergunto, meio confusa. — Ele literalmente só queria ver meu rosto?
— O que esperava?
— Sei lá. Algo que fizesse eu me arrepender amargamente de estar aqui?
— Eu mesmo posso fazer isso acontecer, se é o que quer.
O desafio nos olhos dele me faz recuar. Começo a caminhar pela suíte, observando cada detalhe.
— Então, em qual categoria seu amigo Otto se enquadra? Político? Empresário? Banqueiro? Aposto que é empresário. Drogas, lavagem de dinheiro… Acho que é o lance dele.
— Como deduziu isso?
— Quando você convive com os ratos, aprende a sentir o cheiro deles de longe.
Don me encara. Dessa vez, ele parece interessado no que eu digo. Gosto de receber a atenção dele, mas prefiro segurar a língua. É melhor assim, embora eu duvide que ele não saiba que meu pai seja um promotor muito influente.
— Você convive com os ratos, Barbie? — o filho da mãe me sonda.
— Talvez… — uso um tom de provocação — ou quem sabe eu só esteja te fazendo perder seu precioso tempo, já que é isso que faço sempre, não é mesmo?
Vejo a sombra de um sorriso brincando nos lábios dele, mas some tão depressa que penso estar alucinando. Não sei se Don Santoro sabe o que é sorrir.