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1185 Words
— Quem era o cara na faculdade? — Calebe?! — me surpreendo com a pergunta. — Um amigo. — Um amigo — ele repete, irônico. — Foi o que disse a ele sobre mim. Você é uma péssima mentirosa. — Você acha? — Ergo as sobrancelhas e o vejo tensionar discretamente o maxilar. O que está irritando esse cara? Meu cinismo ou o assunto “Calebe”? — Ele é seu namorado? — Ex. — E ele não se tocou disso? — Calebe é insistente. Está tentando consertar as coisas. Don inclina um pouco a cabeça, avaliando minha resposta. — O que ele fez com você? — Ele me ensinou a não confiar em homem nenhum. — O babaca te traiu. — É. Homens. É isso que fazem. Mentem e traem o tempo inteiro. Não finja que acha um absurdo o que ele fez. — E por que eu não poderia achar? — Lá embaixo, enquanto andávamos pelo Oásis, as mulheres te comeram vivo. Não se faça, Don. Sabe que pode ter qualquer uma nessa cama. Seria impossível pra você ser fiel a uma mulher. Ele caminha até a garrafa de conhaque e enche dois copos. — Qualquer uma? Até você? Minha expressão se desmancha em surpresa e desconcerto. Seu olhar penetrante, com um lampejo de diversão, parece enxergar mais do que estou disposta a admitir. — O que eu quero dizer… — limpo a garganta e me recompondo — é que você é a escória dos homens que já conheci — minto. Ele só não é pior que o meu pai. — Não me admiraria se fosse infiel. — Assassino, sim. Traidor, jamais. Homens como eu precisam de lealdade para se manterem vivos. — Então, vai me dizer que consegue viver sem uma mulher diferente todo dia na sua cama? — Se eu fosse devoto a apenas uma, sim. — Devoto?! — Cruzo os braços, intrigada. — Sexo e devoção são coisas diferentes, Barbie. — Devoção é sua palavra pra amor? — Rio. — Me poupe. Tem medo até de dizer a palavra. Isso só prova que você não saberia amar uma mulher além da b****a dela. Quando pego o copo cheio de conhaque na mesa, ele o toma de mim. — Essa merda não é pra você. — Que grosseria. — Já pode ir — ele diz, impaciente. Acho que agora o irritei de verdade. — Como assim, já posso ir? — Tem alguma dificuldade pra entender o que eu digo? — Achei que fosse me levar de volta pra casa. Primeiro, minhas coisas estão no seu carro. Segundo, não vou sair por aquela porta sozinha. E se eu errar o caminho e acabar numa sala cheia de gente fazendo orgia e pensarem que estou ali pra participar também? — Ninguém aqui vai tocar em você. — Não pode garantir isso se não estiver comigo. — O símbolo no seu pescoço — ele diz — indica que você me pertence. Levo os dedos até o pescoço, lembrando da marca. Há alguma ligação entre o Oásis e o Tártaro, e em ambos Don é conhecido o suficiente para ser temido. — Você é dono dessa boate? — Não. — Então qual é a ligação com o Tártaro? — Esse seu interrogatório tá começando a me irritar. — Não sou da polícia, Don. Ele anda na minha direção enquanto bebe o conhaque, lambendo os lábios molhados depois. Engulo em seco, tensa, quando ele para a pouquíssimos centímetros de mim. — Me explica o motivo de tanta curiosidade a meu respeito, Barbie. Agora eu quero entender. — Sua voz dispara um calafrio que começa na minha nuca e desce pela coluna. — Só estou interessada no seu mundo, isso é crime? — respondo, sem desviar o olhar. — Você foi atrás de informações minhas, estou tentando fazer o mesmo. A diferença é que sou direta, já você… bom, você joga sujo. — Algo nos seus olhos me diz que você curte esse joguinho. — Talvez você só não me conheça. — Tenho minhas suspeitas. — De quê? — De que isso te excita. — Ele chega mais perto. — A violência, o perigo, a adrenalina… te deixam molhada, não é? — Fito seus lábios. Seu rosto quase colado, a respiração colidindo contra minha pele. — Você gosta de se sentir assim? — Presa a você? Em dívida com o d***o? Não, não mesmo — sussurro. — Prefiro morrer enforcada, lutador. O olhar de Don se incendeia. — Dia de sorte, amor. Enforcar é minha especialidade. Umedeço os lábios imaginando os dedos dele ao redor do meu pescoço e até onde esse toque nos levaria. — Pra quem reclama que o faço perder tempo, parece que perdeu bastante dele pensando no que fazer comigo… Devo me preocupar? — Se soubesse as coisas que penso, Barbie, correria de mim feito uma coelhinha medrosa. Se o objetivo dele era me botar medo, o tiro saiu pela culatra, porque as palavras dele só servem para inflar meu ego. A ideia de que eu possa habitar seus pensamentos mexe com minha imaginação. — Eu vi seu pior lado no Tártaro, depois da luta no ringue, todo coberto de sangue que não era o seu. E, ainda assim, não tenho medo de você. — Nem chegou perto do que eu posso ser. O demônio que habita bem aqui… — Don toma minha mão e a guia até seu peito, posicionando-a sobre o coração. — Ele é sedento. Não o faça te desejar, porque ele não para até conseguir o que quer. Minha respiração se acelera, a proximidade entre nós desencadeando um turbilhão de emoções conflitantes. — E o que aconteceria se ele conseguisse? — pergunto, num fio de voz. Os olhos de Don escurecem. Me arrepiam. — Ele nunca mais te deixaria partir. Minha mente se alerta do perigo costurado em suas palavras, mas meu coração lateja no desejo insano de sentir como é pertencer, mesmo que por um momento, à fera dentro dele. É esse olhar. O jeito como observa. Isso me queima por dentro. Tento dizer a mim mesma o quanto é errado desejá-lo, tento tirá-lo dos pensamentos, mas a pulsação entre minhas pernas é um claro sinal de que não tenho controle algum sobre isso. Minha atração por esse homem me condena. Me humilha. E, quanto mais eu n**o, mais forte fica. Seu hálito boêmio e quente se entrelaça ao meu, criando uma conexão efêmera e intoxicante. Seus olhos caem sobre meus lábios. O ar fica carregado de tensão e antecipação. O calor da sua proximidade faz com que eu arfe involuntariamente, minha mente girando em um turbilhão de emoções contraditórias. Mas então Don abaixa a cabeça e seus olhos se fecham por um instante. Sinto meu coração acelerar, minha própria coragem beirando a um ponto de ruptura. Ele se afasta. O espaço entre nós parece se expandir como se fosse uma parede de proteção erguida entre dois mundos que não deveriam se tocar. Minhas mãos tremem ligeiramente, reflexo da surpresa e da confusão que agora se alastram pelo meu corpo. O que eu estava prestes a fazer?
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