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1035 Words
Dirijo o mais rápido que posso pelas ruas até a casa de Diana. Foi difícil sair do apartamento, precisei esperar o momento certo para passar longe da vista do meu pai e isso me custou tempo. Quando Calebe e sua família chegaram pela entrada da sala de estar, aproveitei para escapar pela cozinha. Estou muito atrasada para a mentoria, o que significa que tenho pouquíssimas de chances de me justificar com Diana, mas não posso deixar de tentar. Quando finalmente chego e me identifico na portaria, percebo que o guarda tem uma lista de nomes, provavelmente dos alunos que ela escolheu. O homem passa os olhos pelo papel e me olhar com certo receio. — Desculpa. Tenho ordens da dona Diana pra não deixar ninguém entrar depois do horário. — Você poderia interfonar pra ela, por favor? Ou só me deixar falar? Eu prometo que vai ser rápido. Ele n**a com a cabeça. — Se quiser ligar pra ela do seu celular, fique à vontade, mas infelizmente não posso te deixar entrar. — Tudo bem, eu entendo. — Com a voz embargada, apenas observo o porteiro fechar a janela da cabine. Manobro o carro e começo a dirigir sem saber exatamente para onde, com os olhos cheios d’água. Meu pai conseguiu. Esperei há semanas pelo início desses estudos e agora minha professora pensa que sou uma mimada irresponsável. A vontade é de ir lá e destruir seu precioso jantar assim como fez com minha mentoria, mas prefiro deixá-lo se afogar em raiva ao perceber que eu saí, mesmo depois de ter me ameaçado. Passo a mão pelo rosto. O corte na maçã do rosto arde ao toque. Encaro-me no retrovisor. Estou machucada e inchada. Um hematoma arroxeado começa a se formar ao redor do corte, e a região ainda está vermelha pelo tapa que levei. Desgraçado. Mordo o canto da bochecha. Piso mais fundo no acelerador, as luzes do trânsito de São Paulo perdendo o foco e ficando para trás. Afundo as unhas na palma das mãos e ranjo os dentes com força. Já com a cabeça explodindo, tento controlar a fúria dentro de mim. Respira. Respira. Às vezes, não sei até onde vou aguentar. Até que ponto posso controlar essa coisa em mim. Da última vez que me senti assim, cometi um erro terrível e jurei que nunca mais deixaria esse sentimento me domar. Essa sede. Esse veneno. Essa outra Louise. Sinto falta da inocência, de um passado onde não havia tanta raiva dentro de mim, de quando eu achava meus pais os reis do mundo, com tanta riqueza, tantas reuniões em veleiros suntuosos e festas de alta classe. Cresci rodeada de herdeiros de grandes fortunas, dentro e fora do Brasil, o que significa que minha vida foi regada pelo que há de melhor. Sempre soube que éramos privilegiados. Que a vida que levávamos era diferente da maioria das pessoas. Íris foi a primeira a ingressar nos negócios. Quatro anos mais velha que eu, depois do seu aniversário de dezoito anos, ela estava animada para sua primeira aparição na festa anual dos Salles, um evento cheio de nomes importantes do mundo político e corporativo. Eu achava que meu pai como promotor de justiça era um superherói, que prendia bandidos e fazia do mundo um lugar melhor. Ingênua. Ridiculamente ingênua. Me lembro da admiração que senti ao vê-la de braços dados com nosso pai, usando um vestido azul-escuro longo exuberante, que delineava suas curvas, o cabelo loiro em cascatas macias e um batom marrom nos lábios. Ele parecia muito orgulhoso da obraprima ao seu lado. Íris era perfeita. A atração perfeita. Fiquei esperando o retorno deles durante toda a madrugada. Queria que ela me contasse como era na mansão. A festa acontecia na propriedade deixada pela vovó como herança ao nosso pai, em algum lugar distante da capital paulista. Tudo sempre um tanto misterioso. Embora o evento fosse importante, nunca era comentado entre nós nos jantares ou reuniões da família. Meus pais sempre contornavam o assunto, como se eu fosse nova demais para entender a burocracia dos negócios. Mas Íris não voltou para casa naquela noite. Nem no dia seguinte. Foram sete dias sem notícias. Quando eu perguntava aos meus pais, diziam que ela estava em uma viagem com uma amiga. Era mentira. Eu conhecia as amigas de Íris e, sondando-as nos dias seguintes, não sabiam de nada. No oitavo dia, ela apareceu. “O que houve com você?”, perguntei, preocupada. “Não é da sua conta.” Foi a resposta dela. Dali em diante, a relação entre ela e papai mudou. Havia algo ali. Uma certa mágoa nos olhos de Íris. Uma acidez em suas palavras. Era como se andasse em uma corda bamba, segurando um segredo pesado demais para se manter equilibrada. Ela se tornou sombria. Misteriosa. Reclusa. Foi nessa mesma época que a devoção dos meus pais por Íris se intensificou. Que o tratamento entre nós duas virou um abismo. Íris ganhava carros, joias, viagens. Meus pais a mimavam e estendiam um tapete vermelho por onde ela passava. Isso fez seus olhos brilharem, e, se antes havia aquele ar de mágoa e ressentimento, agora ela parecia igual a eles, cheia de segredos. “Um dia você vai entender, Lou”, ela me disse quando perguntei o que estava acontecendo. “Nós precisamos fazer o que é necessário pela família, e isso inclui abraçar a pior parte dela”. Bom, minha irmã estava certa. Jamais imaginei que toda a minha vida se transformaria em uma mentira de uma hora para outra. Assim que completei dezoito anos, meu pai fez o convite. Eu participaria da festa anual daquele ano. E o que era minha maior curiosidade se tornou meu pior pesadelo. Ainda ouço o ritmo dos meus saltos no piso polido, a noite escura através das portas envidraçadas da varanda da mansão. A noite quente no interior de São Paulo, mesmo com tantas árvores ao redor da propriedade suntuosa. O cheiro de conhaque misturado a perfumes importados, suor masculino e nicotina. O calor das mãos enrugadas pressionando a curva da minha cintura, meu estômago se revirando e a bile subindo pela garganta no exato momento em que entendi o segredo.
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