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830 Words
Preciso de um segundo inteiro para processar suas palavras. Há tantas coisas que eu poderia dizer, tantas verdades escalando pela minha garganta, desesperadas para serem vomitadas… Respiro fundo. — Pai, ele me traiu. Por um breve momento, acredito que talvez isso importe. Que tenha peso. Que talvez, só talvez, ele veja a dor nos meus olhos. — Quando? — Há três anos. Ele ri. Ele ri. — Louise, minha filha. Três anos. Isso já faz tempo. Se ele vem tentando te reconquistar e consertar, significa que se arrependeu. Entreabro os lábios, sem saber o que dizer. — Está defendendo ele. É claro… — Vocês são iguais. — Todo mundo erra, até você que se acha perfeita. — Não me acho perfeita, mas a infidelidade não está entre os meus defeitos. — E isso tira o direito que ele tem de ser perdoado? — Direito de ser perdoado? E o meu direito de não querê-lo de volta? Ainda mais dentro da minha casa? — Minha casa — ele me corrige, dando um passo na minha direção. As mãos na cintura, as narinas infladas. É como se eu estivesse testando sua paciência. — Por acaso, notou como andam as coisas? Empregados demitidos, corte de gastos, fatura dos cartões de crédito atrasada, sua mãe vendendo o carro…? Estamos em uma situação financeira bem complicada, e o próximo passo é colocar esse apartamento à venda. A promotoria abriu uma sindicância, então preciso ficar esperto se não quiser destruir essa família. Estou dando tudo de mim para isso e espero que a única filha que me restou também. — E o que espera de mim com todo esse seu discurso? — Que reate com o Calebe e aja como adulta. — Que eu aceite ser a mulher que a mamãe é, você quer dizer? Minhas palavras enchem seus olhos de uma fúria corrosiva. Ele chega tão perto de mim, apontando seu dedo na minha direção, que meus ombros se encolhem. — Sua mãe e sua irmã fizeram muitos sacrifícios pela nossa família! — Ele aumenta o tom. — Você é a única que até hoje viveu numa bolha intocável, protegida das merdas que todos nós tivemos que lidar! Mas o círculo está se fechando, Louise, e chegou a hora de fazer sua parte. — Achei que tivesse tomado essa decisão há três anos! Não era isso que estava fazendo naquela noite em que Íris morreu? Me inserindo nos seus negócios sujos? — Você nunca sentiu o peso que sua irmã sentiu, Louise! Íris me dava orgulho quando se tratava de proteger essa família. Podia se inspirar nela pelo menos uma vez na vida, ser menos egoísta e mais prestativa! — E como não sentiria orgulho? Era a única que deixava aqueles seus amigos velhos e nojentos abusarem dela como se fosse sua prostituta! Porque é isso que você é, não é, pai? Um c*****o de elite? Num rompante violento, m*l vejo o momento em que ele pega o porta-retratos da minha escrivaninha e o acerta em cheio em mim. A ponta de madeira se choca contra minha maçã do rosto, eu m*l tenho tempo de reagir quando ele avança e me dá um tapa. Sinto o gosto de ferro na língua. Meus olhos transbordam lágrimas. Quando eu era pequena e minha mãe me batia, corria para os braços desse homem. O homem que devia me proteger. Cuidar de mim. Ser meu super-herói. Mas tudo o que eu vejo quando olho para ele é mágoa. Se achava que já tinha me decepcionado de todas as formas, estava enganada. Ser machucada desse jeito, levar um tapa na cara do meu próprio pai… É como se outra parte minha acabasse de morrer. Me encolho quando ele chega o rosto perto do meu, a ponto de sentir seu hálito quente contra minha bochecha. O nariz dele roça na minha pele, e sua voz vem cheia de uma raiva que me faz temer: — Repita essa merda outra vez na sua vida, e eu te arrebento inteira, entendeu? Não vai dar uma de garotinha mimada pra cima de mim, porque, na hora de entrar na minha conta e roubar meu dinheiro, eu sirvo muito bem! Acha que não notei os quinze mil que pegou? Aí o papai filho da p**a não é tão r**m, é? — n**o freneticamente. — Ótimo. Agora se recomponha, volte até aquela sala, sente-se ao lado do Calebe quando ele chegar e aja como se fosse a p***a da noite mais agradável da sua vida! Ele se afasta. A ponta de seu nariz está manchada de sangue. Levo os dedos trêmulos até meu rosto. É o meu sangue. Ele pisca, notando apenas agora o quanto me machucou, e se limpa com o dorso da mão. — Dê um jeito nessa cara — é a única coisa que diz antes de sair e bater a porta com força. Lágrimas quentes escorrem por minha bochecha. Vou dar um jeito. Um jeito de você nunca mais tocar em mim.
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