Dou apenas um passo na direção dela. Um tanto tarde demais, percebo que seu sorriso não é exatamente um sorriso. Como uma cortina que desce aos poucos para finalizar o espetáculo, caio na realidade. Ela encara fixamente o bolo. As sobrancelhas unidas. As narinas se inflando.
— Achei que poderíamos comemorar em casa mesmo, já que anda ocupada no trabalho. — Minha voz falha. Limpo a garganta. — É de caramelo. Você gosta, não gosta?
— Comemorar? — Sua voz é tão fria que o ar parece congelar. Ela tira a bolsa do ombro e se aproxima de nós. Meu pai abaixa a cabeça, como se não pudesse controlar o que está por vir.
Eu aperto o prato do bolo, tensa.
— Bom… nós podemos sair se você quiser, mas o papai preparou um jantar…
— Trinta e quatro funcionários me felicitaram naquele escritório hoje — ela me corta. — Trinta e quatro vezes que eu tive que forçar um sorriso e agradecer. Tive que fazer isso porque eles não me conhecem tão bem quanto minha própria filha. — Ela aponta para mim com tanta repulsa que eu me afasto instintivamente. — Minha própria filha deveria saber que eu não tenho nem um mísero motivo para comemorar.
Pisco, atônita. Estremeço enquanto puxo o ar.
— Desculpa, mãe.
Ela ri. A forma como faz isso lembra Íris. Ela tinha uma risada meio enigmática, daquelas que você não tem certeza se a pessoa está rindo com você ou de você.
— Três anos, Louise. Três anos que você me vê na merda em toda data comemorativa. Você faz de propósito.
— Não faço.
— Você faz.
— Maitê, por favor — meu pai interfere.
Ela alterna o olhar entre nós dois, como se fôssemos patéticos. Como se eu, segurando esse bolo, fosse tão desprezível quanto ele.
— E você, Rossi? Nenhuma das suas amantes estava disponível hoje?
— Já vai começar? Quer mesmo fazer o inferno a essa hora?
— Você quer que eu acredite que esse jantar é mesmo pra mim?
— Mas é pra você!
— Então por que o Montes ligou, já que não conseguia falar com você, e perguntou se a reunião aqui em casa estava de pé? Ele nem sabia que era o meu aniversário. Você marcou esse jantar há semanas e agora está agindo como se fosse uma comemoração planejada.
Agora faz sentido. A surpresa de ver essa mesa assim, como se meu pai tivesse se esforçado pelo aniversário dela, me pegou de surpresa porque, de fato, ele jamais faria algo assim. E não fez.
— E o que muda? — ele grita. — Não pode simplesmente aceitar e agir como uma mulher normal? Vamos receber nossos amigos, nossos sócios. Tente ser agradável, pelo amor de Deus!
A discussão se estende, como todas as outras vezes.
Eles somem aos berros pelo apartamento, como todas as vezes.
E eu me recolho até o quarto, como todas as vezes.
Reúno meus livros e todo o material necessário, tentando engolir o bolo espesso na minha garganta e a ardência nos olhos. Quando a gritaria finalmente cessa, ouço portas batendo com violência e me assusto quando meu pai entra no quarto.
— Aonde pensa que vai com essa mochila?
Seu rosto está vermelho, provavelmente pelos berros da discussão com minha mãe. Ele alisa a camisa social preta e fita o relógio de prata que ganhou de Íris. A aliança de casamento brilha no dedo anelar.
— Comentei com você sobre a mentoria da Diana, minha professora de direito penal, lembra? Começa hoje.
Ele aperta os olhos e solta um suspiro exasperado.
— Isso foi autorizado pela universidade?
— Eu acho que sim.
— Você acha?
Franzo as sobrancelhas, sem entender a indignação dele.
— Pelo que parece, é mais como um curso privado. Ela deve passar as informações pra gente hoje e contar como funciona. — Puxo uma jaqueta jeans do guarda-roupa e jogo por cima dos ombros. — Tenho que ir, não posso nem pensar em me atrasar.
Quando avanço, ele bloqueia meu caminho, o que me faz dar um passo para trás, confusa. Seu corpo inteiro se enrijece em uma postura quase ameaçadora.
— Preciso que você participe do jantar.
Nego com a cabeça.
— Se eu não for à mentoria, estou fora. Diana escolheu o grupo a dedo, as pessoas na minha turma morreriam pra trabalhar com ela.
— Bom, lamento. Você fica. Já basta sua mãe trancada naquela merda de quarto.
— Pai, não pode fazer isso.
— Posso e estou fazendo. O que importa são suas aulas na faculdade, que não é nada barata, por sinal. Suas obrigações lá dentro são prioridade, não essa palhaçada que Diana inventou para inflar o ego de vocês.
— Inflar o ego? Do que você está falando? Essa palhaçada pode significar uma vaga no escritório de advocacia mais conceituado do país! E, por mais que pareça não gostar dela por algum motivo, não pode negar que isso seria incrível pro meu futuro na área!
— Ah, pelo amor de Deus, Louise. Pare de agir como se precisasse disso. Sua vida foi mastigada e cuspida, não precisa da Diana para garantir um futuro.
O jeito como fala dela, com desdém, me incomoda. O jeito como fala de mim também me incomoda.
— Independentemente do que você pensa, é a minha vida. A escolha é minha. Já tenho vinte anos, pai. Não pode mais ditar o que eu faço.
— Eu te sustento. Isso é mais que suficiente pra ditar o que você faz.
— Desculpa, mas nem morta vou trocar uma oportunidade dessas por um jantar com o Calebe e companhia.
— Você ainda não entendeu? Eu estou te dando uma ordem. — Ele caminha e para perto da porta, as mãos em punhos fechados. — Seja lá qual for seu problema com o Calebe, nossa sociedade com a família dele é mais importante. A relação de vocês contribui para isso. Sabia que o Calebe disse ao pai dele que vai te pedir em casamento? Isso faz com que nós já sejamos da família.
— Como é que é? — Minha voz é carregada de indignação. — Pai, nós terminamos há um bom tempo. Não existe essa de casamento. Calebe é um perturbado que não aceita a realidade.
— Vocês são jovens, vão se entender. A vida não é só flores, Louise, muitas coisas precisam ser relevadas. Você não vê sua mãe? Uma mulher de verdade preza pela família acima de tudo. Em meia hora ela estará pronta para o jantar, apesar do que acabou de acontecer.