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987 Words
NARRAÇÃO POR LOUISE Meus pés tocam rápido o asfalto enquanto corro. Os raios de sol que perfuram as nuvens aquecem meu rosto e me fazem transpirar. O fone em meus ouvidos toca Brasa. A letra da música não ajuda nada a afastar os pensamentos. Silêncio no ambiente A brasa fresca queima quente Vadia, louca, depravada Te quero na cama, na rua No carro, na escada Lambe, esfria, bate, esquenta Eu quero, agora aguenta Solto um riso sem humor pelo nariz e acelero mais. O suor molha minha nuca, e eu não sei se meu coração bate rápido pelo exercício ou pelas lembranças dos dedos de Don dentro de mim. É exatamente isso que ele deve pensar que sou: uma v***a, louca, depravada. Só isso explica meu surto de ficar ali, escondida, siriricando enquanto o observava quase gozar na boca de outra mulher. Decerto estou amaldiçoada, fadada a me lembrar disso a cada segundo da minha vida. Voltei a correr há algumas semanas, desde o fatídico dia da boate, para ser exata, porque o exercício sempre ajudou a limpar minha mente de Íris, dos meus pais, da culpa constante. Cada passo, cada árvore ao redor, cada novo fôlego me direcionavam à liberdade, um desejo de dissipar os pensamentos tumultuados que insistiam em me acompanhar. Achei que também funcionaria em relação ao Don. Bom, não funcionou. Camile tem percebido como fico esquisita toda a vez que o assunto Tártaro surge entre nós, e eu dou sempre um jeito de desconversar. Basta ela mencionar o nome dele para que as lembranças me devorem. O que aconteceu naquele quarto no Oásis foi obsceno. Não tive coragem de contar à minha melhor amiga o que eu fiz, o que significa que foi muito, muito errado. Bem na real, eu deveria sentir repulsa, afastá-lo em vez de me sentir excitada. Como eu pude implorar para gozar nos dedos de um cara que me ameaçou com uma arma? Que esmurra as pessoas com tanta violência? E que, sem dúvidas, já tirou a vida de algumas? Estou lidando com a p***a de um criminoso, assassino e sabe-se lá mais o que. O que dizer à Camile? Que estou completamente obcecada por um desgraçado desses e que só não fodi com ele naquela noite porque ele não quis? Cara, que humilhação! Don não quis nem me beijar. Eu praticamente implorei. Puxei sua boca para a minha, mas ele se negou. Isso mexe com minha cabeça e um pouquinho com meu ego também. Fico louca buscando uma justificativa. Primeiro, achei que fosse nojo, mas Don Santoro não me parece um cara que tem nojo de mulher, principalmente depois de enfiar os dedos bem no fundo da minha b****a e chupá-los como se meu gosto lembrasse sua comida favorita. Segundo, que não se sentisse tão atraído por mim para ir além. O problema é que senti sua ereção explodindo na cueca enquanto ele se lambuzava dentro de mim. Eu vi o fogo nos olhos dele, o desejo na sua forma mais primitiva, o t***o doentio. Pelo jeito como me cheirava, me apertava, me possuía era óbvio que ele queria me comer. Don Santoro me fez dele sem sequer tocar meus lábios, sem se enterrar por inteiro dentro de mim. Parecia um animal me marcando como se eu fosse seu território. Como se eu fosse dele. Passo as mãos no r**o do meu cabelo e abano o rosto. Pare de pensar nele. Afasto os pensamentos e tento focar na vitrine da confeitaria que entro. É aniversário da minha mãe, pensei em comprar um bolinho, já que não há festas desde que Íris morreu. Na verdade, ela costuma faltar ao trabalho, se trancar no quarto e dormir até o dia seguinte para que a data passe o mais rápido possível. No entanto, hoje ela foi trabalhar, o que considero um grande avanço. Então decido fazer alguma coisa, mesmo que mínima, que mostre que estou feliz por ela. Que me lembro da data e que me importo. Além disso, hoje à noite, terei minha primeira reunião de mentoria com Diana. Sair de casa e deixá-la sozinha, sem fazer nada especial, pesaria minha consciência. Sei que nossa relação não pode ficar pior, até acho que ela se sentiria aliviada ficando livre de mim, mas ainda não estou pronta para desistir de nós duas. Sinto que, se eu me esforçar, talvez recupere pelo menos um pouco do que foi perdido. Compro um bolinho de creme, com caramelo e frutas que parece convidativo. O atendente me entrega em uma caixa, cuidadosamente amarrada com um laço vermelho. Volto para o apartamento, tomo um banho e me visto. Quero ficar pronta para a hora da mentoria. Se eu me atrasar, Diana vai me tirar do grupo sem pensar duas vezes. Quando está perto do horário da minha mãe chegar, por volta das seis, corro para a sala de jantar. Para minha surpresa, a mesa está posta, há petiscos e taças de vinhos para pelo menos seis pessoas. Olho ao redor. Não vejo ninguém. Minutos depois, meu pai surge pela entrada da cozinha. Ele arruma a gravata e penteia os cabelos loiros com os dedos. Está perfumado e arrumado, e sorri quando me vê. — Sua mãe está subindo. — Fez um jantar de aniversário pra ela? Ele assente, orgulhoso. Eu o encaro, surpresa. A porta da sala de jantar é aberta, e ela entra. Ergo o bolinho no ar e digo: — Feliz aniversário! Ela fecha a porta lentamente e encara o bolo em minhas mãos. Seus olhos vagam até mim, depois até meu pai e então de volta ao bolo. Seus lábios se curvam no que parece um sorriso. Meu coração se enche de esperança. A maravilha do gesto quase faz com que minha alma seja arrebatada. Há quanto tempo eu desejo esse momento? O momento em que ela sorriria outra vez para mim, se sentaria à mesa comigo e nós conversaríamos como duas adultas?
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