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1282 Words
Opto pelo silêncio. Lorena está certa em ficar com raiva. Sei pelo que ela passou e por que o Tártaro se tornou sua casa, assim como se tornou minha. A garota viu a família ser assassinada em um assalto. Otto se tornou tudo o que ela tinha, mas ele estava ocupado demais se transformando em um dos maiores traficantes de armas do Brasil. Lorena sofreu as consequências dessa escolha. A negligência de Otávio a deixou sozinha. Ela foi abusada, maltratada, traumatizada. Só aqui, nos dutos subterrâneos, ela encontrou seu lugar. — Me pergunto se é assim que eu quero ficar pra sempre. Condenada. — Ela balança a cabeça negativamente. — Viver nas sombras desse jeito pelo resto da sua vida não te assusta? Não ver sua família, seu irmãozinho… — Meu olhar de advertência é mais que suficiente para que ela se cale. — Desculpa. Não deveria ter tocado nesse assunto. Entendo onde ela quer chegar. Não me importaria em ouvi-la falar pelo tempo que precisasse, mas minha família é assunto proibido. Aperto a garrafa de vidro na mão e trinco o maxilar. A tensão nos músculos é a resposta do meu corpo ao me lembrar deles. Eu os mantenho longe fisicamente para afastá-los do perigo e longe da minha mente para me poupar da dor. Eu estava perdido quando coloquei os pés em São Paulo. Fugia da polícia e de homens sedentos pela minha cabeça. Com apenas uma mochila nas costas, poucas notas em dinheiro e algumas peças de roupa, me escondi entre os muros dessa selva de concreto. Passei fome e frio por dias, até ser assaltado e quase espancado até a morte. Tomei dois tiros tentando resistir. Levaram até a p***a dos meus tênis na época e me deixaram lá, estirado no chão, largado para morrer afogado na minha própria poça de sangue. Jurei que ali seria meu fim. Dias depois, no entanto, acordei numa cama enferrujada, onde hoje é meu vestiário. Suava tanto que o lençol embaixo de mim ficou ensopado. A dor alucinante percorrendo meu abdômen me fez pensar que aquele era o purgatório, o lugar em que pagaria meus pecados até finalmente ser mandado ao inferno, onde eu realmente pertencia. Então eu vi Lorena. Estava tão suada quanto eu, os cabelos escuros amarrados em um r**o de cavalo e a roupa tão encardida quanto as bandagens enfaixadas em suas mãos. Me lembro das primeiras palavras que ela me disse quando se aproximou, olhando bem fundo nos meus olhos: “Você deve ser um homem r**m. Só vi homens ruins enganarem a morte desse jeito.”. Bom, ela não fazia ideia. Lorena cuidou de mim pelas próximas semanas naquele cubículo escondido no Tártaro. Na época, eu não sabia o que rolava ali dentro. Só acordava e apagava outra vez, ouvindo gritos, urros, músicas. Um dia, quando já conseguia me mover e estava quase cem por centro recuperado, saí do cubículo e enfim encontrei o ringue de sangue. Naquela mesma noite, alguns inimigos do Otto invadiram o lugar. Lorena estava lá. Eles avançaram nela. Um deles a puxou tão forte pelo cabelo que tufos de fios se soltaram. O grito dela me cegou. Mesmo fodido, quebrei aquele desgraçado com meus punhos. Por sorte, outros homens que faziam a segurança do Tártaro se juntaram a mim e conseguimos controlar a situação. Foi quando conheci Otávio Barbieri. O mafioso com uma eloquência bizarra e uma inteligência além do normal. Nesses cinco anos, aquela foi a primeira e única vez que vi Otto consumido pela raiva, gritando por Lorena como se pudesse mastigar nossos ossos até que ela aparecesse. Quando me viu com ela, tomei um soco que quase quebrou meu nariz outra vez. Foi preciso alguns minutos para que ele entendesse o que tinha acontecido ali. Que eu não era o problema. A princípio, Otto me quis fora. Ele não me conhecia. Não sabia de onde eu vinha, nem o motivo que me fez fugir para São Paulo. Mas, quando soube que salvei sua irmã caçula, descobri que era muito grato a quem se dedicava a única pessoa com quem ele se importava. Otto se sentou comigo. Disse que eu tinha uma chance de contar a verdade sobre o que havia acontecido comigo, independentemente do quão fodido fosse. Então eu contei. Confiei nele. A única pessoa, além de Felp, que sabe a barbaridade que eu fiz. O que importou para Otto não foi meu passado recente, mas meu presente, salvando sua irmã. Ele disse que eu teria um esconderijo, proteção e um recomeço se fosse leal a ele e a Lorena. Disse que queria que eu cuidasse dela, uma criatura irritante e intrometida de espírito indomável. E eu aceitei. Foi assim que, um tempo depois, comecei a lutar. Eu sabia que Otto queria ver até onde eu podia chegar. No que eu podia me tornar. Eu precisava provar meu valor, provar que eu podia ser mais útil do que ele imaginava. Quando você é jogado em um tanque com tubarões, a melhor opção não é fugir, mas sim encará-los de frente, rasgar suas mandíbulas e mostrar que você é o maior predador. No momento em que fui empurrado para cima do ringue, sabia que poderia morrer ali. Por isso aprendi a me defender. Simpatizei com a violência. Abracei meu espírito voraz. Me tornei irascível. Sangue e suor eram meu combustível, e a gula por carnificina alimentou o monstro em mim. Eu os mordia como um lobo faminto. Arrancava pedaço como uma b***a raivosa. Minha frieza e agressividade os assustavam. Eu já tinha matado antes, mas, quando fiz de novo em cima do ringue, algo mudou completamente. Continuei tirando vidas até que não houvesse mais culpa, nem remorso, nem resquícios de quem um dia já fui. Diogo Santorini precisou morrer para que Don Santoro pudesse reinar. Fiz meu nome nas vielas escuras e condenadas de São Paulo, honrei meu título, converti o Tártaro em algo lucrativo e atraente. Mantive Lorena protegida dos abutres que a rondavam pelo desejo de suas curvas e pelo ódio por seu irmão. Ganhei a confiança absoluta de Otto, me transformei no Pitbull, o carniceiro invicto no ringue de sangue, e me tornei o assassino impiedoso que ele precisava que eu fosse. Tudo isso me ajudou a traçar um novo foco. Novos objetivos. A raiva me despertou o desejo voraz de expurgar da Terra aqueles que me destruíram. Apesar do sangue em minhas mãos, nunca fui afobado. Nos últimos anos, cada passo que dei foi planejado. Reis, Salles. Os únicos desgraçados que sobraram. Matá-los não é suficiente, porque sei onde doeria mais. A escassez. A falência. A cadeia. A destruição de suas famílias. É nisso que venho trabalhando. E é por isso também que meu fascínio pela garota que carrega um desses sobrenomes é a p***a de uma loucura. Tudo naquela filha da p**a me atrai. Desde sua língua afiada até os olhos marejados e selvagens. Já não desejo apenas fodê-la para saciar esse meu desejo louco que cresce a cada segundo. Quero essa mulher. Quero vê-la se contorcer de prazer. Quero dominá-la. Quero dar a ela algo que posso ver em seus olhos que nunca teve de nenhum homem. O quanto Louise me odiaria no final, sabendo tudo a respeito de seu pai e da ligação dele comigo? O quanto ela ficaria machucada depois que eu a destruísse com a verdade? E quanto me importo com essa garota para continuar controlando o ímpeto doentio de beijar sua boca, devorar sua b****a quente e torná-la minha de uma forma que vai marcá-la para sempre? No fim das contas, Lorena tem razão. Estamos condenados. E todos aqueles ao redor de um condenado acabam cumprindo a mesma sentença.
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