ENTREGANDO REFLEXÕES
“Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão outra escolha senão acreditar com você”.
Cynthia Kersey
Se eu dissesse que hoje, para Samuel, o despertar ressoava como um decreto de exílio da paz noturna, um peso espectral o prendendo ao leito, tornando a mais simples das ações – libertar-se do calor familiar dos lençóis – um esforço hercúleo, mesmo sob o sol aracajuano que já bordava o céu com a promessa de um dia vibrante e vivo... Se eu confessasse que a mera antecipação das engrenagens do cotidiano, antes um ciclo automático – o banho matinal sob o chuveiro voluntarioso em seu calor excessivo, a escolha quase cega da camisa amarrotada repousando sobre a cadeira, o acender da tela fria do computador, a silenciosa lista de pendências e os deveres profissionais no cartório – se apresentava como uma muralha intransponível... E se eu revelasse que este não era um domingo qualquer, que a própria seiva vital de Samuel parecia esvaída, a ponto de a culpa pela inércia paralisante não encontrar eco em sua alma, que o ato de levantar-se da cama era uma lenta e dolorosa ascensão, como se cada fibra muscular protestasse contra o movimento, e que a vontade, essa força motriz da existência, havia simplesmente se volatilizado... Como a alma reagiria a esta confissão de um dia deslocado de sua órbita?
A cortina tênue do quarto de Samuel, naquele recanto modesto do Bairro Santo Antônio, oferecia apenas uma resistência simbólica à invasão da luz dominical. Os raios obstinados dançavam sobre a desordem peculiar de um espírito solitário: livros amontoados na mesa de cabeceira como testemunhas silenciosas de noites insones, a veste da noite anterior abandonada sobre a poltrona como uma sombra da vigília, os fones de ouvido emaranhados em um nó que espelhava a confusão interna. O silêncio da manhã era pontuado apenas pelo canto longínquo de um g**o, uma lembrança da ruralidade incrustada no tecido urbano, e pelo murmúrio preguiçoso da geladeira na cozinha, um órgão vital pulsando na quietude do lar.
A noite pregressa havia sido um turbilhão social, dividida entre dois polos distintos de celebração. Primeiro, a efervescência do aniversário de um colega de cartório, um mergulho em conversas sobre prazos implacáveis e a tirania do ar-condicionado defeituoso, onde a cerveja gelada escorria como um bálsamo efêmero. Depois, a solenidade formal e um tanto alienígena do casamento da prole do antigo empregador materno. Um favor familiar inesperado o arremessara para um palco de vestidos longos e sorrisos ensaiados, onde o uísque caro parecia sumir dos copos com a mesma velocidade com que as convenções se desfaziam. O saldo da maratona festiva era um corpo pesado, a cabeça pulsando em um ritmo lancinante e uma difusa sensação de irrealidade. "Ah, se a carne pudesse se regenerar como a do Wolverine agora...", murmurou para o vazio, um sorriso tênue e seco curvando seus lábios, uma piada íntima com a admiração juvenil pelo mutante resiliente.
Por volta da décima hora da manhã, o aroma forte e agre do café invadiu o santuário do sono. Era o antídoto autoimposto, a poção alquímica para "recompor os nervos", como ele filosofava consigo mesmo, observando as volutas densas de fumaça ascenderem da caneca trincada. Após os goles quentes e amargos, a inquietação começou a borbulhar em suas veias. A necessidade primordial de movimento, de romper a rigidez imposta ao corpo, o impulsionou para o exterior. A peregrinação pelas ruas familiares do Santo Antônio era quase um rito de passagem para a sanidade. Ele carregava consigo a sedimentação da história do bairro, a memória da chegada de sua mãe, a matriarca pioneira a fincar raízes ali, antes mesmo de ele e seus irmãos virem à luz.
Samuel não se adornava com a ostentação. Ele se percebia como um exemplar da mediania, apesar da herança flamenga do avô lhe legar a estatura e a estrutura atlética esculpida pelo ferro da academia. Seus olhos claros, usualmente perscrutadores, agora estavam velados pela névoa do sono interrompido. Os cabelos castanhos curtos emolduravam um rosto de tez clara, marcado por um tênue bronzeado, testemunha dos dias ensolarados de Aracaju. O detalhe singular, quase imperceptível, eram os pequenos brincos de pedra marrom na orelha esquerda, frequentemente confundidos com sutis marcas na pele. As poucas horas de repouso após a jornada noturna ainda o aprisionavam em um limbo entre a exaustão física e a agitação mental, uma dissonância incômoda com o próprio corpo, cortesia das doses generosas de álcool partilhadas nas celebrações.
O paladar ainda conservava o travo acre de cigarros alheios, uma sequela dos beijos furtivos trocados na primeira festa, em particular com Laís. A morena de pele alva, com seus olhos grandes e castanhos, cabelos ondulados na altura dos ombros e a promessa de curvas generosas, era sua companheira intermitente no palco underground do rock local. O fato de ela estar comprometida com um carioca, com visitas esporádicas a Aracaju, tecia uma dinâmica peculiar em seus encontros. Nas ausências do noivo, Laís gravitava entre Samuel e outros, da mesma forma que ele não se aprisionava quando ela estava distante.
A mente de Samuel, mesmo toldada pela ressaca, mantinha sua inclinação para a contemplação. Ele era um observador arguto dos pequenos dramas e epifanias que teciam a tapeçaria do cotidiano. E foi precisamente naquele domingo, com o céu matinal hesitante entre o azul e o cinza, enquanto vagava pela movimentada Avenida Simeão Sobral, que a cena insólita se desenrolou. Uma jovem de cabelos ruivos, longos a ponto de roçar os ombros a cada passo, exalando a frescura dos dezoito anos, capturou sua atenção. Seus olhos castanho-avermelhados pareciam abrigar uma chama interior, um contraste vívido com a pele alva e o sorriso aberto que revelava dentes perfeitos. O corpo esguio, a "falsa magra" como seu intelecto a catalogou instantaneamente, emanava uma energia juvenil e despreocupada.
Aquele olhar direto, a espontaneidade do sorriso da desconhecida, atingiram Samuel como um raio em céu sereno. Algo em seu interior, adormecido sob o peso da ressaca e da preguiça dominical, pareceu despertar abruptamente, uma descarga hormonal repentina. Mesmo após o "oi" casual que ela lançou ao vento, enquanto se distanciava, ajeitando uma mala de rodinhas, Samuel acelerou o passo. A mente divagou, e ele começou a filosofar em voz alta, como se contemplasse uma aparição singular no vazio:
"Ah... Doce e imprudente jovem, de longos cabelos cor de fogo e um olhar que mais parecia ter sido forjado nos domínios do pecado e da mais profunda perdição infernal... Cruzaste meu caminho sob o céu cinzento de um domingo qualquer, aqui, no lado mais silencioso do bairro onde me arrasto entre as sombras a fim de nunca ser visto. E sem ao menos saber quem sou, ofertaste-me um sorriso — leve, luminoso, quase c***l em sua beleza. Agradeço a você, desconhecida, por acender, mesmo que por instantes, a brasa tímida da esperança. Foi apenas um olhar, um sopro de vida, mas bastou para que, por um segundo, eu acreditasse na promessa de uma felicidade que talvez nunca venha."
Naquela manhã, ele saiu cedo de casa, com a leve intenção de espairecer a cabeça. Visitou alguns colegas antigos, daqueles com quem partilhava não apenas memórias e cigarros, mas também silêncios pesados e olhares cúmplices. Em meio a cafés m*l coados e conversas que dançavam entre o banal e o profundo, trocaram ideias soltas sobre política, amores vencidos e as pequenas tragédias do cotidiano. Depois disso, com o corpo aquecido pela companhia e pela ressaca ainda recente, retornou para casa pouco antes do meio-dia, guiado pelo aroma conhecido e reconfortante do almoço sendo preparado.
À tarde, enquanto a luz do sol já começava a perder força, a mãe de Samuel o chamou com aquele tom de quem não aceita um não. Pediu-lhe um favor: entregar uma encomenda num bairro vizinho ao Santo Antônio — o São José, que, além da proximidade geográfica, partilhava também o nome de um santo. Samuel sabia bem o caminho. Crescera ouvindo histórias daquela região, de suas ruas. avenidas e personagens quase míticos.
A encomenda era uma travessa de comida, preparada com o mesmo zelo que a mãe de Samuel dedicara por anos à casa de um antigo patrão — um dos sócios fundadores de uma fábrica de ferramentas no interior, homem exigente, mas de hábitos previsíveis. Mesmo aposentada, ela continuava enviando pratos a ele, como se a rotina culinária fosse a ponte entre o passado de serviço e o presente de respeito mútuo. Havia ali uma espécie de lealdade que Samuel, com sua alma em conflito e o espírito cansado, não conseguia compreender totalmente — mas respeitava.
Na tentativa de se redimir por ter chegado em casa mais uma vez com o hálito impregnado de uísque barato e os olhos avermelhados pela bebida, ele não argumentou. Apenas calçou os tênis velhos, vestiu a camisa menos amassada que encontrou e, com os óculos escuros a esconder o estrago da noite anterior, saiu em direção ao ponto de ônibus com a travessa bem embalada nas mãos trêmulas.
Ao atravessar a movimentada área do mercado Augusto Franco, foi tomado por uma rajada de vento frio vinda do Rio Sergipe — um vento úmido e fétido que lhe cortou a pele como lâmina, fazendo-o encolher os ombros e franzir o rosto. A sensação gelada fez cada poro do seu corpo se arrepiar. O mercado, ainda sujo e desorganizado após um show de música brega ocorrido na noite anterior, exalava um cheiro agridoce de lixo, mofo e gordura requentada. Havia caixas de papelão molhadas, garrafas plásticas pisoteadas, restos de comida apodrecendo sob as barracas desmontadas.