SOBREVEIO À TARDE E DEPOIS A MANHÃ: O PRIMEIRO DIA.

1388 Words
“Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. Deus chamou a luz ‘dia’ e as trevas ‘noite’.” Gên. 01, 05. No ano de 1980, mais precisamente em janeiro, Aracaju vivia um daqueles dias nublados de verão que são típicos da região. O calor era insuportável, um vento morno e denso quase imperceptível aos olhos, e o céu, sempre coberto por nuvens densas, deixava os aracajuanos em dúvida se choveria ou não. Muitas pessoas saíam de casa com guarda-chuvas, enquanto outras, ao sentir o menor odor de terra molhada, vestiam blusões de frio, invejando o clima de outros lugares e esquecendo que, em Sergipe, o verão, quando chove, é quente e úmido, não necessitando de roupas grossas como no sudeste ou sul do país. O dia transcorria tranquilo para os diversos trabalhadores da cidade, incluindo os dos hospitais, que não registravam nenhuma ocorrência extraordinária. De repente, às 10 horas da manhã, uma jovem de vinte e dois anos, filha de um tenente da aeronáutica que se encantara com Aracaju durante um passeio, deu entrada na maternidade Santa Isabel. Valéria Abnara Kouji, a parturiente, chegou aos berros, devido às intensas contrações. Casada com um soldado da força aérea brasileira, Valéria sentia que seu parto seria difícil, pois o bebê parecia determinado a nascer, mas sua bacia, devido à sua descendência japonesa e pequeno porte físico (apenas 1,52m de altura), ainda não estava completamente dilatada. No entanto, por ter um plano particular de saúde, ser filha de militares e já estar em trabalho de parto, Valéria foi atendida imediatamente, mesmo à frente de outras mulheres que aguardavam para dar à luz. Dentro da sala de parto, a obstetra avaliou a dilatação e o colo de Valéria, confirmando que o parto seria complicado. A espera parecia interminável, com mais de três horas de dores e contrações, sugerindo que a criança estava decidida a nascer a qualquer custo. A obstetra, sem perder mais tempo, realizou uma episiotomia. Após o corte, algumas contrações e muito esforço, às 14h14, uma linda menina nasceu, pesando cerca de três quilos. Ao invés de chorar, a pequenina sorriu, um sorriso que encantou todos os presentes. Annabel, uma enfermeira ruiva de olhos castanho-avermelhados, recém-contratada, limpou e colocou a bebê nos braços da mãe antes de levá-la para a enfermaria. A obstetra perguntou qual seria o nome da menina, e Valéria, ao ver o sorriso da filha, respondeu: — Ela se chamará Luz Abnara Kouji, pois seu sorriso iluminou todos os que a ouviram e presenciaram o seu nascimento. Enquanto isso, a tarde em Aracaju se iluminava, transformando-se em um belo entardecer. O pôr do sol desenhava imagens imaginárias entre as nuvens, uma beleza que poucos têm a chance de observar. A natureza, com suas linhas ocultas, parecia nos perguntar como seria bom se pudéssemos entender que somos proprietários de algo que nos foi dado de graça, algo que devemos cuidar, pois foi tirado dos anjos e nos foi ofertado. Infelizmente, ninguém é capaz de manter-se inalterado, e poderíamos chamar esse dia de paraíso. No entanto, antes do último raio de sol desaparecer no horizonte, uma enorme sombra entre as nuvens anunciava um temporal. Os repórteres nos jornais alertavam as pessoas para se protegerem. E foi o que aconteceu: apesar dos meteorologistas terem previsto apenas pancadas de chuva, uma frente fria com chuva torrencial, seguida de relâmpagos e trovões, caiu sobre a capital das araras e cajueiros. Ninguém se arriscava a sair de casa, e as pessoas que estavam nas ruas queriam voltar para suas casas o mais rápido possível, pois a chuva era tão forte que já estava inundando o centro da capital e alguns bairros da cidade. Mesmo assim, a maternidade Santa Isabel recebeu outra paciente. Janice Timeres de Santo Silva, uma mulher de trinta e um anos, filha de criação de um professor universitário do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe, deu entrada na maternidade. Janice possuía um plano particular de saúde e havia sido iludida por um soldado do 28º BC, que, ao saber que ela estava grávida de cinco meses, espalhou para sua família que talvez a criança não fosse dele e desapareceu, esperando que Janice abortasse. Ela, no entanto, não abortou, para o ódio do soldado sem caráter de trinta e cinco anos. Janice entrou na maternidade com subidas e quedas repentinas de pressão arterial e dores intensas no ventre, como se a criança estivesse com raiva de estar nascendo. Cada contração fazia Janice perder parte dos sentidos e desmaiar por curtos períodos, devido à intensidade das dores. Para a raiva da família de Janice, o soldado reapareceu na maternidade, acompanhado de uma "amiga" de Janice, no maior cinismo, para assistir ao nascimento do filho ou filha. Quando soube que Janice e a criança estavam entre a vida e a morte, ele não conseguiu esconder o sorriso em seu rosto, sendo expulso da maternidade pelos parentes de Janice, mas retornando logo em seguida, para a raiva dos presentes. A obstetra de plantão durante o temporal era Drª Sxabara Fostemi, uma ruiva de pele branca e olhos castanho-avermelhados, recém-chegada da Noruega. Após examinar Janice, a obstetra saiu calmamente da sala de pré-parto e, ao chegar à recepção, olhou para todos os presentes, como se estivesse procurando algo que só ela pudesse ver. Seus olhos encontraram os do soldado, e ela se aproximou para trocar algumas palavras. Após um gesto de confirmação com a cabeça, a Drª Sxabara chamou os parentes de Janice e, com sinceridade, explicou que Janice não resistiria ao parto, pois estava perdendo muito sangue e o parto precisava ser realizado imediatamente, pois, se não fosse feito, o risco de mãe e filho morrerem juntos seria grande. A tensão na maternidade Santa Isabel era palpável, e o temporal lá fora parecia refletir a tempestade emocional dentro do prédio. A Drª Sxabara, com sua experiência e calma, preparou-se para realizar o parto de Janice. Os parentes de Janice, com o coração apertado, aguardavam ansiosamente, enquanto o soldado, com uma expressão indecifrável, observava de longe. Dentro da sala de parto, a Drª Sxabara trabalhou incansavelmente, usando toda a sua habilidade e conhecimento para garantir a segurança de Janice e do bebê. As horas passaram como uma eternidade, e a chuva lá fora continuava a cair, inundando as ruas e criando um cenário de caos. No entanto, dentro da maternidade, a concentração era total, e cada movimento da equipe médica era calculado e preciso. Finalmente, após um esforço intenso e uma luta desesperada, a Drª Sxabara conseguiu realizar o parto. Um bebê saudável veio ao mundo, mas Janice, exausta e debilitada, m*l conseguia manter os olhos abertos. A equipe médica agiu rapidamente, prestando os primeiros socorros a Janice e ao bebê, enquanto o soldado, agora com uma expressão de preocupação, observava de perto. A notícia do nascimento se espalhou rapidamente entre os parentes de Janice, que, apesar da tristeza e da tensão, celebraram a chegada do novo m****o da família. O bebê, um menino, foi colocado nos braços de Janice, que, com um sorriso fraco, agradeceu a todos pela ajuda e pelo apoio. Enquanto isso, Luz Abnara Kouji, a bebê que sorriu ao nascer, estava na enfermaria, sendo cuidada com carinho pela enfermeira Annabel. A pequena Luz, com seu sorriso encantador, parecia trazer uma luz especial para todos ao seu redor, e os funcionários da maternidade não podiam deixar de admirar sua beleza e pureza. A noite caiu sobre Aracaju, e o temporal começou a diminuir, deixando para trás um céu estrelado e um ar mais fresco. Dentro da maternidade, a vida continuava, com os novos nascimentos trazendo esperança e alegria para as famílias. Valéria e Luz, assim como Janice e seu filho, eram agora parte dessa nova jornada, e a maternidade Santa Isabel, com sua equipe dedicada e compassiva, estava pronta para apoiá-las em cada passo do caminho. A cidade de Aracaju, com suas ruas ainda molhadas e seus céus agora claros, testemunhou um dia de contrastes: a tempestade e a calma, a dor e a alegria, a vida e a morte. Mas, acima de tudo, foi um dia de esperança, onde a resiliência humana brilhou intensamente, e a maternidade Santa Isabel se consolidou como um farol de luz e acolhimento para todas as famílias que ali buscavam refúgio e conforto.
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