“Olhou para o céu. De súbito, alguma coisa no alto se partia”. Paulo Fernando Moraes (1941).
O decreto governamental ecoou como um trovão seco no coração de Aracaju, reverberando muito além das páginas do Diário Oficial. Sob a pálida justificativa de “reformas estruturais”, um véu de silêncio e abandono desceu sobre a cidade com o fechamento abrupto de suas delegacias. Não se ouviu o barulho de máquinas, nem o canto rústico dos pedreiros. O concreto permaneceu intocado, a promessa de renovação, uma miragem c***l. E então, como se um pacto sombrio tivesse sido selado nas sombras da burocracia, a violência floresceu, voraz e implacável, sem data para terminar.
Assassinatos brutais macularam a rotina outrora pacata. Acertos de contas, frios e calculados, rasgavam o tecido social. Latrocínios ousados, à luz do sol inclemente, lembravam a fragilidade da vida. Era como se as portas do inferno tivessem sido escancaradas, vomitando demônios em forma de homens. Até mesmo os policiais que resistiram ao desmantelamento hesitavam em patrulhar as ruas após o crepúsculo, a sombra da incerteza pairando sobre seus distintivos.
No bairro de Santo Antônio, onde a história sussurrava em cada casarão colonial que ainda permanecia de pé, resistindo às obras modernas que se erguiam pelo bairro e o aroma de jasmim pairava no ar, o toque solene do sino da igreja Espírito Santo, às dezenove horas, deflagrava um ritual macabro. O som grave e melancólico, antes um chamado à fé e à comunhão, agora era um prenúncio de terror. As luzes se esvaiam das janelas como almas em fuga. Portas de madeira maciça eram trancadas com ferrolhos rangentes, a pressa ditada pelo medo ancestral da noite. Venezianas eram seladas com tábuas pregadas, transformando lares em fortalezas sitiadas pela angústia.
No fim da Rua São Francisco, erguia-se uma casa antiga e imponente, de dois andares, com a melancolia das venezianas verdes desbotadas. Ali residia o Sr. George, um homem de hábitos tranquilos, aposentado do Banco do Brasil. Sua rotina era marcada pelo cuidado meticuloso com o jardim florido e pelas conversas amenas com os vizinhos nos domingos ensolarados após a missa que o mesmo frequentava fidedignamente desde que se aposentou. Sua presença era um farol de normalidade em meio à crescente histeria.
Mas numa manhã de terça-feira, o rio Sergipe, outrora testemunha silenciosa da vida ribeirinha, devolveu à cidade um corpo mutilado. O cadáver do Sr. George foi encontrado na Orla do Bairro Industrial, a poucos quilômetros de sua casa. A cena era perturbadora, um insulto à sua placidez. O pescoço estava torcido num ângulo grotesco, a cabeça pendendo inerte. Perfurações irregulares, como as causadas por uma lâmina enferrujada, marcavam a pele pálida.
— Que Deus tenha piedade... — murmurou o delegado Emílio Souza, a voz embargada pela visão macabra. Seus olhos experientes percorreram cada detalhe da cena, a brutalidade fria daquele ato. — Isso não foi um assalto, Rômulo. Foi... uma declaração.
Seu assistente, o jovem inspetor Rômulo, um recém-chegado à dureza da vida policial, engoliu em seco, a bile amarga subindo pela garganta. A violência crua que estava presenciando naquele momento o atingia como um soco no estômago.
— O que está acontecendo com essa cidade, chefe? Não dá mais pra ignorar... A cada dia, parece que afundamos mais fundo...
Emílio franziu a testa, as rugas ao redor dos olhos se aprofundando sob o peso da responsabilidade.
— A cidade está doente, Rômulo. Uma doença silenciosa, que corrói por dentro. E eu tenho que descobrir quem está envenenando ela, antes que não reste nada.
A notícia da morte do Sr. George se espalhou como um incêndio silencioso pela comunidade de Santo Antônio. Nas janelas empoeiradas, surgiam cochichos nervosos e olhos arregalados espiando por frestas nas cortinas cerradas. O medo, antes uma sombra espreitando nos cantos escuros, agora se materializava em sussurros trêmulos.
— George era tão tranquilo... um santo homem... — comentou Dona Maria, vizinha de frente, os dedos finos deslizando nervosamente pelas contas de seu terço gasto. Seus olhos marejados refletiam a incredulidade e o terror. — Mas eu sempre desconfiei daquele garoto... O Timothy.
— O filho do Joel? Aquele que foi padre lá na Paraíba? — indagou outra vizinha, a voz carregada de uma curiosidade mórbida.
— Esse mesmo. O menino nunca fala com ninguém. Anda sempre com aqueles fones no ouvido, como se estivesse em outro mundo. Dizem que ele vaga por aí nas noites de lua cheia... E toca numa banda chamada... Marimbondos de Fogo. Um nome desses... uma coisa demoníaca dessas só podia dar em tragédia.
Timothy, aos dezessete anos, era uma figura à parte no cenário do bairro. Alto e magro, com ombros curvados como se carregasse um fardo invisível, possuía olhos fundos que pareciam absorver a luz ao invés de refleti-la. Sua voz era surpreendentemente calma, quase um sussurro constante. Passava os dias absorto em livros e cadernos, os fones de ouvido isolando-o do mundo exterior. Suas aparições eram raras, fugazes. Mas nas noites de lua cheia, quando o satélite prateado banhava a cidade com sua luz espectral, Timothy desaparecia, sempre com uma mochila surrada e um violão antigo debaixo do braço.
— Eu não sou como eles... — murmurava para o próprio reflexo no espelho embaçado de seu quarto, dedilhando acordes dissonantes no violão. A música era seu refúgio, um idioma que o mundo parecia incapaz de compreender. — Eles têm medo do que não entendem. Eles veem sombras onde há apenas silêncio.
Enquanto a polícia hesitante se esforçava para desvendar os fios da morte de George, um novo corpo foi descoberto, mergulhando a cidade ainda mais fundo no abismo do terror. Dessa vez, a vítima era Paulo Rocha, o chefe do 30º Ofício, encontrado caído em sua própria sala, próximo à churrasqueira fria. O cenário era de uma brutalidade nauseante: o corpo crivado de feridas profundas, um espeto de metal atravessado no abdômen, uma faca de cozinha cravada no queixo, a lâmina ensanguentada emergindo do olho esquerdo.
— Pelo amor de Deus... — murmurou Rômulo, cambaleando para trás ao ver a poça de sangue escuro que cobria as lajotas da sala. O horror o paralisava, a mente lutando para processar a violência indizível. — É o mesmo padrão, chefe... A mesma selvageria... O mesmo ritual macabro.
Emílio franziu a testa, o olhar fixo em uma fotografia caída no chão, ao lado do corpo inerte. Na imagem amarelada, Paulo sorria despreocupadamente, e ao fundo, uma figura familiar pairava como uma sombra: Jarbas Coelho dos Santos, também conhecido como Sr. Coelho. Um arrepio percorreu a espinha do delegado.
— Achei você, desgraçado... — sibilou entre os dentes cerrados.
Jarbas era uma mancha incurável na linhagem do Sr. George. Expulso do seio familiar décadas atrás por desvios financeiros e uma inclinação perigosa para negócios escusos, ele se tornou um fantasma que orbitava o submundo. Sua biografia era um inventário de vícios: drogas, prostíbulos decadentes e golpes que m*l garantiam o próximo maço de cigarros. Atualmente, vegetava em uma casa decrépita, oculta nos fundos de um galpão desativado na parte alta do bairro — um território onde a lei raramente se aventurava e a luz do sol parecia não querer tocar.
O delegado Emílio não usou a campainha inexistente. Sua mão pesada golpeou a chapa de ferro da porta enferrujada, fazendo o som ecoar pelo vazio do galpão como um veredito.
— Sr. Coelho? É a Polícia. Abra agora, precisamos conversar.
Houve um silêncio arrastado, interrompido apenas pelo som de algo pesado sendo arrastado no interior. Finalmente, a porta cedeu com um rangido lúgubre, revelando a figura de Jarbas. Ele parecia um homem em decomposição: rosto pálido, suor frio escorrendo pelas têmporas e olhos vermelhos que denunciavam noites em claro e paranoias químicas.
— Agora não é um bom momento, delegado... — Jarbas murmurou, tentando manter o corpo bloqueando a fresta. — Minha saúde não está boa. Volte outro dia. Eu tenho... compromissos, gente me esperando.
— Seus "compromissos" podem esperar, Jarbas. A justiça não. — Emílio deu um passo à frente, forçando o homem a recuar. — A cortesia acabou. Paulo Rocha está morto. Foi encontrado ontem com um buraco no peito, e o nome dele apareceu em lugares que me levam direto ao seu primo George. E a você.
O nome de Paulo Rocha pareceu um choque elétrico. Jarbas tremeu visivelmente, as mãos buscavam apoio no batente da porta.
— Eu não sei de nada! — a voz dele subiu um tom, beirando o desespero. — Eu não falo com o George há dez anos! Aquele maldito me chutou como se eu fosse lixo. Paulo Rocha era só um conhecido de bar... Eu nunca tive nada a ver com os esquemas deles. Saia da minha casa! O senhor não tem o direito de entrar aqui sem nada!
— Cuidado com o tom, Coelho. — Emílio disse, a voz baixa e perigosa. — O medo tem um cheiro muito específico, e você está exalando ele. O que você está escondendo nesse mausoléu?
— Nada! Saiam! — Jarbas bateu a porta na cara do delegado, o som do trinco ecoando como um ponto final momentâneo.
Mas o "nada" de Jarbas tinha um peso metálico. No dia seguinte, Emílio retornou. Não havia mais espaço para diálogos educados. Munido de um mandado judicial e acompanhado por uma equipe de busca, ele ignorou os protestos histéricos do homem. Nos fundos da casa, sob um tapete imundo, a equipe encontrou o que Jarbas tanto temia: uma porta de alçapão trancada com correntes pesadas e cadeados corroídos.
Ao forçarem a entrada, o ar que subiu do porão era úmido e fétido, carregado com o cheiro de segredos que apodreceram por tempo demais.