O PRIMEIRO LIVRO A SE LER E A PRIMEIRA RESPOSTA A SE TER - parte 02

1450 Words
E para confirmar suas suspeitas, uma voz animalesca sai de cima da árvore: — Como alguém que tem coragem de tomar dinheiro de mulheres na rua, não tem coragem de atravessar um pátio? Tim, que era acostumado com o som estrondoso das guitarras distorcidas e os gritos dos vocalistas das suas bandas de rock favoritas, foi repentinamente tomado pelo pavor quando uma voz desconhecida ecoou do nada. Era uma voz que parecia sair das profundezas da própria natureza, uma mescla inquietante entre a humanidade e o rugido de uma b***a selvagem. O som reverberava em seus ouvidos, fazendo-o estremecer de maneira involuntária. A mente de Tim disparou em um frenesi de pensamentos enquanto tentava compreender a origem daquela voz assombrosa. Seria um animal desconhecido? Um lobo solitário ou talvez um urso territorial advertindo-o de sua presença naquele ambiente selvagem? Ou seria algo ainda mais sinistro, como a manifestação de um ser possuído por forças malignas, ecoando os pensamentos mais sombrios que vagavam em sua própria mente? A sensação de medo paralisante o envolveu, fazendo-o hesitar por um momento. No entanto, ele sabia que não podia se deixar dominar pelo pânico. Uma profunda sensação de autodisciplina o impeliu a manter a calma, mesmo diante do desconhecido e do inexplicável. Ele engoliu em seco, sentindo o nó de temor apertar em sua garganta, mas forçou-se a controlar suas reações impulsivas. Tim compreendeu instintivamente que qualquer sinal de fraqueza poderia desencadear consequências terríveis. Ele sabia que gritar ou tentar fugir poderia provocar uma reação violenta daquela entidade oculta entre as sombras das árvores. Assim, com uma coragem trêmula, ele se obrigou a permanecer imóvel, esperando, com o coração batendo descontroladamente, por qualquer desdobramento daquele encontro sobrenatural. — O que quer... O que quer de mim? A voz animalesca continua, só que passou de uma árvore até a outra, numa velocidade fora do comum: — Me disseram que você está querendo se meter em assuntos que não consegue dominar. Pare de querer encontrar o que procura, pois está além da sua compreensão. Tim, para e pensa: "será que ele conhece Góes ou está me seguindo também?". Cada vez mais as dúvidas tomam conta, o fazendo se questionar se ele está fazendo certo em querer entender o mistério que está por trás das histórias escritas por Sam. Foi então que o jovem toma coragem e desafia o dono daquela voz: — Não posso questionar ou falar qualquer coisa, para uma voz que eu não conheço. Seja quem você for, apareça! A voz se cala e a árvore começa a se tremer. Rapidamente algo sai de dentro dela dando um enorme salto no meio da noite e cai em pé, quase em frente a Tim. Era um adolescente igual a ele. Mas não um adolescente qualquer, pois pelas características e pelo tamanho da sombra dele, estava mais do que na cara de que aquele garoto era a pessoa que Sam tinha escrito na última estória que ele leu: Jack Leonel. O olhar dele era por demais intimidador. Parecia um olhar selvagem, de uma fera que estava pronta para atacar a qualquer movimento brusco — Agora que está me vendo, fale agora ou esqueça esse assunto para sempre! — O diabo... O que ele quer aqui neste buraco? — Tim questiona Jack — Porque aqui? Porque Aracaju? A sombra de Jack, densa e gélida, parecia adquirir vida própria ao tocar a pele de Tim, envolvendo-o em um arrepio que parecia descer até os ossos. Era como se um vento gélido soprado diretamente dos confins mais profundos do submundo percorresse seu corpo, deixando-o instantaneamente desconfortável e perturbado. Cada centímetro da pele de Tim parecia reagir àquela presença sombria, como se estivesse sendo tocado por mãos feitas de pura escuridão. Ao sentir essa sensação, Tim instintivamente se afastou, buscando se libertar da influência sombria que o envolvia. Não era apenas um frio físico, mas sim uma sensação perturbadora que se infiltrava em sua alma, ecoando os tormentos descritos nos cantos mais sombrios da literatura. Era como se estivesse experimentando em primeira mão o último círculo do inferno de Dante, onde o frio é tão intenso que parece queimar. A sensação não era de um frio que congelava, mas sim algo que penetrava, como se cada célula de seu corpo estivesse sendo envolvida por uma aura de gelo penetrante. Era como estar diante de uma geladeira ou freezer com a porta escancarada por um tempo excessivo, o tipo de frio que se infiltra e incomoda até os mais resistentes. Assim, Tim se via diante de uma presença sinistra, uma sombra que parecia emanar não apenas escuridão, mas também um frio que sugava a luz e a vida ao seu redor, deixando-o instintivamente em busca de uma fuga, buscando escapar daquela influência assombrosa que parecia se enraizar em sua própria essência. Jack percebe o afastamento de Tim e então ele fala: — Assim como os vampiros, demônios só se manifestam se forem invocados, ou convidados. No caso do d***o, ele não foi nem convidado nem invocado. — E o que ele faz aqui, então? Jack, usando de uma agilidade impressionante, realiza um salto que desafia não apenas as leis da gravidade, mas também a própria física. Seu corpo parece flutuar no ar por um instante antes de pousar com precisão felina no topo do muro, como se ele e a gravidade fossem velhos conhecidos. A naturalidade com que ele se ajoelha sobre a superfície estreita do muro transmite uma familiaridade intrínseca com tal feito, enquanto para Tim, observando atônito, isso parece uma proeza impossível. Tim, jovem e inexperiente, nunca testemunhou tal demonstração de destreza física e controle corporal. Para ele, o ato de saltar sem tomar distância e correr é inconcebível, desafiando tudo o que ele conhece sobre as capacidades humanas. A cena é tão surreal que Tim se vê dividido entre a incredulidade e o medo. No entanto, o medo que Tim experimenta não é apenas da habilidade física impressionante de Jack. Ele também está intrinsecamente ligado à presença imponente de Annabel, uma figura igualmente intimidadora. A combinação desses dois elementos, cada um com sua própria aura de mistério e ameaça, cria uma atmosfera de tensão palpável, deixando Tim sem saber qual dos dois temer mais naquele momento. Jack olha para a lua, a contempla por alguns segundos e fala: — O d***o está aqui me procurando, como está fazendo desde antes do nascimento do filho do Criador. — Você está brincando... — Tim fica sem acreditar no que o adolescente fala — Um ser que vive no inferno, sai de lá para procurar uma pessoa em Aracaju? Jack salta para perto de Tim, o segura pela roupa e o ergue com uma mão, numa facilidade monstruosa, como se o peso de Tim não fosse nada. Ele então cerra os olhos e olha nos olhos de Tim, provocando ainda mais medo no jovem: — Pelo jeito você além de burro é extremamente ignorante com relação às coisas do alto... — Jack fala bem perto de Tim — O príncipe deste mundo, quando caiu, nunca foi parar no inferno. Se fosse assim, ele se chamaria príncipe do inferno. Entendeu? — Sim... - Tim gagueja — Mas se ele sabe onde encontrar todo mundo, porque está te procurando? — Porque eu fiz um trato com o Criador e fui selado para que nem anjos, nem demônios pudessem me encontrar. — Jack fala bem devagar — Para me achar eles têm que fazer do jeito mais difícil. E o jeito mais difícil é realmente difícil. — E porque ele está fazendo esses pactos? — Porque o príncipe deste mundo, por motivos de vingança contra seu próprio pai, é viciado em mandar almas para os verdadeiros príncipes do inferno. — Se é isso tudo, porque ele realizou esse desejo de Sam de escrever tudo sobre vocês num caderno? — O jovem, começa a se sentir incomodado por estar acima do solo — Porque de todos, o pacto de Sam foi o de escrever? Jack solta Tim com um leve empurrão, cuidadosamente controlando o momento em que ele é liberado, evitando qualquer queda brusca. O gesto, porém, não desfaz a tensão no ar. Seus olhos permanecem fixos em Tim, irradiando uma aura de ameaça palpável. Cada movimento seu parece carregar um aviso silencioso, uma advertência velada sobre as consequências de qualquer ação precipitada. Tim, por sua vez, sente a tensão no ar, mas algo mudou dentro dele. O medo que antes o paralisava diante de Jack agora parece ter se dissipado. Ele mantém sua postura, encarando Jack de volta, sem recuar um único passo. É como se, de repente, uma coragem até então desconhecida tivesse tomado conta dele, impulsionando-o a enfrentar a ameaça de frente.
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