Sabe aquele momento em que você acorda, olha tudo ao redor e se sente "por fora" da sua própria realidade? Tim não estava acreditando que seu amigo Sam, mesmo sofrendo bullying de pessoas que ele considerava tão inúteis e, o pior de tudo: pessoas ficavam tentando diminuir ele para poder se destacar, o fazendo se afastar do mundo, mesmo que por um instante... Tinha escrito uma história sobre justamente um deles. E o pior: sobre o cara que mais implicava com ele no CEAS. E ele escreve algo como se Yan estivesse "de bem com a vida". O jovem sente como se a presença do amigo na escola, não fosse algo tão "indispensável", assim. E assim é como ele se sentiu ontem e está se sentindo nesse momento.
Um ódio mortal e desesperador está tomando conta dele nesse momento. A boca dele começa a despertar um gosto amargo. O corpo de Tim se treme inteiro de ódio. Ele espera que esse gosto amargo passe e esse ódio saia de seu coração. Pois ele não aceita que seu amigo, que foi um dos que mais sofreu nas mãos de Yan, dedique horas de seu tempo, para falar de quem pode ser um dos que provocou sua morte. Tim começa a raciocinar e percebe que não sabe se o modo como ele passou a observar o mundo ao redor, desde que começou a ler esse caderno é a escolha de uma realidade na qual ele deseja estar inserido, ou seja somente porque após a morte de Sam, o mundo parece ter amanhecido com uma difícil compreensão de si mesmo.
Tim está confuso e precisa de respostas. Então quem é que poderia lhe ajudar nesse momento de escuridão? Ele não tinha amizade com os professores do CEAS, não tinha muitas amizades em geral dentro do colégio. Os caras que ele bebia na praça da catedral eram umas portas: só falavam de sexo, drogas e rock’n’roll. Esses eram assuntos que ele também gostava de conversar, mas naquele momento o que ele mais estava querendo eram respostas. Padre? Pastor? Pai de Santo? Médium? Fodam-se todos! O que ele queria era alguém que tivesse uma explicação lógica e direta para a p***a disso tudo. Ele tomou um banho, colocou o caderno de Sam numa mochila e foi pra rua, pra espairecer as ideias.
Enquanto caminhava pela movimentada Avenida Carlos Burlamarqui, cujas calçadas de pedra polida brilhavam sob a luz do sol do final da tarde, Tim sentiu um impulso irresistível ao passar pelo clube de xadrez, cuja fachada imponente e elegante o convidava com uma aura de mistério e competição intelectual. Era como se a própria essência do jogo estivesse impregnada no ar ao redor.
Ao chegar na porta do clube, Tim foi recebido pelo burburinho animado dos jogadores concentrados em suas partidas, o som característico dos movimentos das peças sobre os tabuleiros ecoando suavemente pelas paredes adornadas com fotos de lendas do xadrez. No centro desse cenário, destacava-se Francisco Pitanga, conhecido entre os enxadristas e músicos da cena alternativa da capital sergipana como "Chico Doido", uma figura carismática e respeitada no circuito.
Francisco, com sua postura confiante e expressão serena, era não apenas o presidente do clube, mas também uma verdadeira lenda viva do xadrez na capital e além. Sua reputação ultrapassava as fronteiras estaduais, sendo reconhecido como um dos principais representantes de Sergipe no mundo do enxadrismo. Seus conhecimentos estratégicos eram tão afiados quanto as peças do jogo que manipulava com maestria.
Enquanto observava Chico liderar uma discussão sobre uma a******a clássica, Tim não pôde deixar de sentir-se maravilhado pela atmosfera de aprendizado e camaradagem que permeava o ambiente. Era como se cada partida jogada ali fosse um capítulo em uma história épica de rivalidades e superações, e Chico era o mestre de cerimônias dessa saga, orientando e inspirando os jogadores com sua sabedoria acumulada ao longo dos anos.
Para Tim, aquele encontro casual com Chico Doido e os entusiastas do xadrez não era apenas uma simples visita ao clube, mas sim uma imersão em um universo de estratégia, inteligência e paixão pelo jogo que transcendia as barreiras do tempo e do espaço. Tim passa pela janela do clube e acena:
— E aí, Chico! Beleza?
Chico Doido, como conhecia Tim de vista, acenou para ele de volta. Tim se aproximou da janela e Chico se levantou da mesa em que estava sentado e veio falar com ele:
— E aí cara... Beleza! — Chico sorri para Tim — Você... Já resolveu fazer parte do clube, cara?
— Não, não... Eu só estou de bobeira pela rua pra pensar um pouco na vida.
— Pensar na vida faz bem, cara. Mas sua aparência não é boa. O que tá acontecendo, cara?
— Estava a fim de trocar umas ideias sobre coisas transcendentais, outras realidades, coisas assim.
— Cara... Você tá falando do Góis, cara! Vai na casa dele e troca uma ideia, porque ele é o cara dos assuntos transcendentais, mitologia, ufologia... Essas coisas. Tá ligado não é, cara?
— E onde é que fica a casa dele?
— Você atravessa Avenida Pedro Calazans, segue reto e é na quinta casa depois da esquina, cara. Não tem erro, cara. Fala que fui eu quem te mandou lá, que ele te recebe bem, cara.
— Poxa, Chico... Valeu aí!
Tim se despede de Chico Doido e vai procurar a casa de Góis. Ele caminha até a Avenida Pedro Calazans, desvia dos carros, atravessa o cruzamento e segue direto pela Avenida Carlos Burlamarqui. Após passar da esquina, ele conta cinco casas e fica de frente a uma casa pequena, porém aconchegante, de azulejos brancos. A aparência da casa é rústica, mas a decoração indicava que a pessoa que morava lá era uma pessoa idosa. Tim chama por Góis, bate palmas e uma voz grita lá do fundo:
— Já vai!
Tim espera alguns segundos e uma senhora aparentando ter mais de setenta anos aparece. Ela olha para Tim, sorri e antes de perguntar qualquer coisa, o jovem fala:
— Boa tarde senhora. O Góis tá aí?
A velhinha levanta os óculos, olha para Tim e sorri animada:
— Você é o primeiro jovem que vejo esse ano, que vem aqui procurar meu filho. Ele foi pra aula de tênis, e pela hora já deve estar voltando. Quer esperar?
— Quero sim, senhora. — Tim sorriu e, pela primeira vez na vida, não foi m*l-educado ou grosseiro com alguém na rua — Preciso muito conversar com ele.
Tim adentrou a casa de Góis com um misto de curiosidade e ansiedade. A atmosfera era peculiar, com uma aura de misticismo e intelectualidade pairando no ar. Ao cruzar o umbral, ele se viu imerso em um cenário que mesclava elementos singulares e intrigantes. Sua visão foi imediatamente capturada pela figura imponente de uma cadeira de ferro estrategicamente posicionada logo na entrada, como se convidasse os visitantes a uma pausa para contemplação.
Sem hesitar, Tim acomodou-se na cadeira, sentindo o frio do metal contra sua pele, enquanto observava os arredores com interesse aguçado. A mãe de Góes passou por ele, cortando o ar com um murmúrio cortês de "com licença", antes de desaparecer para o interior da residência, provavelmente para tratar de algum assunto urgente.
Seus olhos vagaram pela área próxima à entrada, onde uma seleção eclética de livros estava disposta em uma estante rústica. Tim sentiu uma pontada de excitação ao perceber a diversidade de temas ali presentes. Entre os volumes, destacavam-se obras sobre espiritualidade, teorias da conspiração e ufologia, formando um conjunto tão intrigante quanto instigante. Era como se cada livro fosse um convite para explorar os recantos mais obscuros e fascinantes do conhecimento humano.
Sem resistir à tentação, Tim estendeu a mão em direção a um dos livros sobre teorias da conspiração, sentindo a textura áspera da capa sob seus dedos. Ao abrir as páginas amareladas, mergulhou em um mundo de intrigas e segredos ocultos. m*l havia iniciado a leitura do primeiro capítulo quando seus sentidos foram bruscamente despertados pela chegada de um novo personagem.
Um homem magro e grisalho materializou-se diante dele, emanando uma aura de mistério e sabedoria acumulada ao longo dos anos. Seus cabelos prateados contrastavam com a expressão serena e penetrante de seus olhos, enquanto segurava uma raquete com habilidade desconcertante. Vestindo tênis surrados e munhequeiras brancas, ele exalava uma mistura única de sofisticação e despojamento. Os óculos sobre seu nariz conferiam-lhe um ar intelectual, como se estivesse sempre pronto para decifrar os enigmas do universo.
A chegada desse enigmático homem interrompeu momentaneamente a imersão de Tim no mundo das conspirações, despertando nele uma curiosidade renovada e uma sensação de expectativa palpável. A partir desse momento, o jovem sabia que estava prestes a embarcar em uma jornada repleta de descobertas e desafios, onde os limites entre realidade e fantasia se tornariam cada vez mais tênues. Ele entra e olha para Tim com uma expressão séria.
— Boa tarde. Quem é você?
— Você é o Góis? Estou precisando conversar com alguém sobre assuntos transcendentais e Chico Doido disse que você é o mais indicado.
Após ouvir que Tim foi mandado até ele por Chico Doido, o homem ajeita o óculos no rosto, sorri e o convida para entrar.
— Não é sempre que a gente encontra um jovem que gosta desse tipo de assunto. Vamos até a fossa lá nos fundos, que a gente conversa melhor.
Tim fica um pouco desconfortável com o modo como Góis fala. Fazer ele ir até uma fossa nos fundos da casa? O jovem estranha tudo aquilo mas vai entrando. A decoração da casa realmente é algo incrível, pois muito do que se via eram souvenires de viagens, o que indicava que Góis era um homem abastado, ou pelo menos sua mãe é. Isso porque tudo nele indicava que o mesmo era o típico solteirão que nunca quis casar, mas que não abria mão de ser um bon-vivant, pois o mesmo tinha uma pequena adega na sala, cujos vinhos decoravam o cômodo, deixando tudo ainda mais rústico e chique ao mesmo tempo.
— Foi Chico quem mandou esse garoto aqui, mãe.
— Jura? E o que um jovem como você veio fazer aqui em minha casa?
Tim olhou pra mãe de Góis e sorriu:
— Vim buscar respostas pra algumas perguntas.