E as histórias das viagens que o avô fazia mundo afora, apenas com uma mochila nas costas ou uma pequena mala, com poucas roupas:
— Meu avô quando era mais novo, e até a alguns anos atrás, viajava muito e era mochileiro. Ele sempre ia com minha avó e com os amigos para vários lugares. Uma vez ele me contou que foi pra África, e passou vários meses em um templo espiritual. E isso tudo com uma mochila nas costas. Foi incrível! A decoração do sítio é cheia de coisas que ele trás dessas viagens. Ele trouxe um tambor africano dessa viagem, que fica na sala. O tambor é esculpido num tronco de árvore. Diferente desses instrumentos que se compram nas lojas.
Os meninos ouviam atentos e se perguntavam: "como alguém consegue passar tantos dias fora de casa com tão poucas roupas? Ele deve fazer alguma mágica".
Na hora da saída, a grande maioria dos alunos invejava Jack pelo fato do pai ou a mãe dele vir buscá-lo na escola, pois a grande maioria ou quase todos, quem buscava era alguma babá ou algum segurança. Dava para ver o olhar carente daquelas pobres crianças ricas, cujos pais não podiam oferecer nada a não ser dinheiro.
Não posso deixar de frisar que a popularidade de Jack irritava alguns, principalmente Conrado, pois ele não era mais o centro das atenções. E apesar de ser menor do que Conrado, Jack não tinha medo dele, o que deixava Conrado ainda mais furioso, pois pela primeira vez, um aluno da Escola Corinto não olhava para ele com o ar apreensivo, desde que tinha sido matriculado nela há cinco anos. Então Conrado fez o que qualquer valentão sabe fazer de melhor: começou a pegar no pé de Jack.
Primeiro começou com apelidos:
— Olha o pedreiro! Vai trabalhar em que construção depois daqui? Ou você trabalha de feirante nos fins-de-semana? Há! Há! Há! Há! Feirante!
Depois começou a se esbarrar nele, quase o derrubando:
— Sai da frente! Você está invadindo meu espaço, seu pedreiro!
Jack passou mais de um mês cabisbaixo por causa desses apelidos e do modo que Conrado o tratava, pois tinha medo que se ele (ou algum outro aluno arrogante igual a ele) descobrisse que o pai dele era motorista, podiam falar coisas piores. Mas nesse tempo, em que esteve recolhido dentro de si mesmo, Jack ficou pensando em uma forma de fazer com que Conrado parasse de pegar no pé dele.
Foi aí que um dia, na hora do recreio, quando Conrado passou esbarrando nele, chamando-o de "pedreiro", ele abriu a boca e disse bem alto:
— Sai fora... Pare de me amolar... Estrupício! Melhor ser um pedreiro, a ser uma mula igual você!
Nessa hora, aconteceu o maior efeito dominó da história da escola Corinto de Efiréia: todos riam e apontavam para Conrado, repetindo o apelido que ele tinha acabado de receber.
— Estrupício! Há! Há! Há! Há! Estrupício!
Pela primeira vez em cinco anos, os alunos da escola zombavam dele, deixando-o sem ação. Isso fez com que ele tomasse a atitude que todo valentão toma nessas horas: partiu pra cima de Jack, empurrando-o e caindo em cima dele. Nesse instante, o colégio parou de rir e apenas ficaram olhando imóveis, Conrado esmurrando Jack, que por tentar se defender estava em desvantagem.
— Quem é o estrupício agora hein, seu pedreiro?
— É você mesmo, seu estrupício!
Mas o que ele também não esperava, era algo que Jack nunca contou na escola: o avô dele tinha ensinado Jack a se defender em brigas. Foi aí que teve a reviravolta. Jack prendeu os pés na barriga de Conrado, e o empurrou para trás, fazendo Conrado cair longe. Com a farda da escola suja, a boca sangrando e alguns arranhões, Jack se levanta olhando pra Conrado e fala:
— Pode vir neném da mamãe! Não vou correr como os outros não, só porque você é maior do que eles!
— Você acha que eu tenho medo de um pedreiro igual a você? Você vai estar sempre abaixo de mim!
— Eu devia ter derrubado uma menina. Ela com certeza falaria menos.
Quando Jack terminou de dizer isso, todos riram de Conrado mais uma vez. Isso deixou o valentão ainda mais enfurecido. Ele então se levantou e partiu pra cima com mais raiva. Jack desviou do primeiro soco, e deu um soco na barriga de Conrado, que sentiu a força dele e percebeu que ele não era fraco como os outros. Era como se Jack fosse bem maior do que ele, apesar de Conrado o estar olhando de cima para baixo. E foi então que Conrado partiu pra cima com tudo: esmurrou Jack várias vezes, tentando acertar seu rosto, mas sem sucesso, pois Jack desviava e revidava os socos de Conrado.
Foi quando num descuido, Jack se deixou acertar por um soco de Conrado no nariz. A força que Conrado usou nesse soco, fez Jack cair no chão estatelado. Toda a escola ficou em silêncio, achando que Jack tinha apagado. Até o próprio Conrado achou isso, e ficou peitando os outros dizendo:
— Quem é que vai ser o próximo a me encarar, hein? Quem vai ser o próximo a se achar mais forte do que eu? Falem seus moles! Seus otários! Quem manda aqui nessa merda de escola sou eu!
De repente, para espanto de todos, Jack se levantou. Por alguns segundos, sua sombra parecia ter ficado maior, como se o garoto tivesse aumentado de tamanho por dentro. Ele olhou para a camisa e viu umas gotas de sangue. Passou a mão no rosto e sentiu o nariz inchado, dolorido e sangrando. Ele então cheira o sangue e sente o cheiro da pele de Conrado nele. Seu olhar se volta para Conrado, mas também havia mudado. Era um olhar calculista e instintivo, desses que animais predadores possuem. Jack deu uma gargalhada amedrontadora, como se tivesse sido libertado de alguma prisão. Ele olha para Conrado e fala:
— Eu me acho mais forte do que você, riquinho — disse Jack, olhando fixamente para Conrado, com um estranho sorriso nos lábios — e não vou precisar usar, nem a força de um braço meu, pra lhe dar uma surra.
— Pois eu vou colocar você em seu lugar, que é embaixo dos meus pés, seu pedreiro!
Dizem que o ser humano com raiva pode aumentar a sua força em até quatro vezes, por causa da adrenalina que o cérebro libera no sangue. Só que nesse momento, Jack não estava com raiva: ele estava possesso. Mas mesmo com essa raiva inteira dentro de si, ele cerrou os olhos, fechou os punhos como se quisesse tirar o ar das palmas de suas mãos, e com uma frieza interior, sem expressar raiva ou ódio, Jack partiu pra cima de Conrado como se tivesse extinguido a palavra medo, do seu vocabulário.
Só que ele olhava para Conrado como se não fosse um ser humano normal. O desmaio repentino e a raiva por ver seu nariz sangrando fizeram com que o olhar dele se tornasse um olhar animalesco, como se ele estivesse cego e só enxergasse o valentão à sua frente. Nesse momento, muitos alunos perceberam que não era Jack quem estava ali: tinha algo de diferente nele.
Então ele esmurrou, chutou e bateu até Conrado cair no chão sem forças e sem resistência. O garoto não queria deformar lhe o rosto e nem mesmo fazer algo pior com ele. Jack ria ironicamente, gargalhava e batia nele com prazer, como se cada golpe dado liberasse endorfinas em seu sangue e desse mais vigor ao garoto. Era como se a briga em que estava o alimentasse. Conrado apanhou tanto, mas tanto, que mesmo fraco, sentindo dores no corpo todo, com os olhos cheios de lágrimas, sem forças e com seu orgulho totalmente destruído, chegou aos pés de Jack se arrastando e disse:
— Leonel... Não me bata mais... Por favor!
A fúria de Jack era tanta, que o garoto rosnava como um cão. Mas mesmo assim ele olhava cega e friamente para o valentão prostrado a seus pés. Ele olhava o valentão chorando como um bebê, pedindo pra ele parar de bater. Seu lado emocional dizia dentro dele pra ele parar com aquele show de violência gratuita, pois Conrado já tinha sido humilhado o suficiente. Mas parecia que dentro de Jack havia aparecido alguém totalmente diferente do que era ele. Jack levanta Conrado pela gola da camisa, como se estivesse pegando um caderno no chão, e de sua boca veio uma única frase perante essa situação de piedade:
— Você começou isso tudo riquinho, e agora quer que eu pare? — Perguntou Jack, sorrindo ironicamente, por estar vendo um valentão tão fraco na frente dele — Me obrigue! — E deu um último soco no meio da testa de Conrado, fazendo o cérebro do valentão tocar o crânio, e o mesmo apagar de vez.