DEZ

1859 Words
Enquanto Samira estava com Jeffrey na emergência do hospital municipal, há mais de duas horas aguardando atendimento, pensava que era a primeira vez em quatro meses que odiava Jean de verdade. Não aquela raiva confusa da traição, nem a revolta da humilhação, nem o ressentimento que vinha e voltava quando lembrava da “torradinha” na sua cama. Era um ódio diferente. Cru. Amargo. Porque naquele momento, sentada numa cadeira de plástico quebrada, segurando o filho ardendo em febre nos braços, a covardia e o egoísmo de Jean tinham finalmente explodido sobre sua vida como uma bomba. Até então, Samira ainda romantizava parte da dor dele. Ainda conseguia pensar no suicídio como um ato de desespero, de culpa, de amor doentio. Mas ali, naquela emergência lotada, ela enxergou outra coisa: Jean tinha abandonado ela. Simples assim. Foi embora e deixou nas costas dela duas crianças pequenas, uma vida inteira desorganizada e problemas que ela nem sabia como resolver. Pela primeira vez desde a morte dele, Samira não sentiu culpa. Sentiu abandono. Ela nunca precisou pensar em plano de saúde, consulta médica ou hospital público. Jean pagava tudo. O plano da empresa cobria ela e as crianças nos melhores hospitais da cidade. Seus partos foram em quartos particulares, com enfermeiras entrando de hora em hora perguntando se ela precisava de alguma coisa. Os filhos tomavam vacina em clínica privada, faziam acompanhamento pediátrico em consultórios chiques e nem eram registrados no SUS. Samira sequer sabia como funcionava uma UPA. Não porque fosse esnobe, mas porque aquela sempre foi a realidade dela. Só que Jean morreu. E quando morreu, levou junto toda a estrutura que sustentava aquela vida. Mesmo com Deco e os outros tendo conseguido resolver a questão da pensão e do seguro, havia coisas imediatas que Samira simplesmente não conseguiu organizar. No meio do funeral, da papelada, das crianças chorando e da própria culpa, ela sequer lembrou que o plano de saúde seria cancelado. Então, quando Jeffrey começou a arder em febre no meio da madrugada, gemendo estranho e queimando nos braços dela, a única opção foi correr para o hospital municipal. Agora estavam ali. Ela e Rodrigo. Seu irmão andando de um lado para o outro no corredor lotado enquanto Jeffrey chorava fraco no colo dela, completamente molinho por causa da febre alta. Já fazia mais de duas horas que aguardavam atendimento, cercados por gente tossindo, criança vomitando, velho gemendo de dor e funcionários exaustos fingindo que davam conta daquele caos. Jean não pensou nisso? Foi a pergunta que martelou na cabeça dela o tempo inteiro. Ele não pensou que o ato egoísta dele podia deixar ela sem nada? Sem dinheiro, sem apoio, sem profissão, sem experiência nenhuma de vida? Samira nunca trabalhou. Casou logo depois do ensino médio, engravidou cedo, viveu para cuidar da casa e dos filhos. Nem conta ela sabia pagar sozinha. Jean resolvia tudo. E agora ela estava ali, perdida, com duas crianças pequenas dependendo dela enquanto tentava aprender a sobreviver no susto. Covarde filho da putä. A revolta foi crescendo dentro dela enquanto Jeffrey queimava em seus braços. E se não fosse uma assistente social passar pelo corredor naquele momento, Samira tinha certeza de que o filho teria morrido sem atendimento. A mulher viu o estado do bebê, a temperatura absurda, o jeito como ele já m*l reagia ao colo da mãe e começou a discutir com a recepcionista na mesma hora. Exigiu prioridade, ameaçou chamar a coordenação, disse que aquilo era desumano. Só então alguém resolveu olhar para Jeffrey. Samira nunca esqueceria aquela sensação de invisibilidade. De perceber que, se ninguém gritasse por você, simplesmente te deixavam ali até sabe-se lá quando. Quando finalmente foram chamados, o médico m*l levantou os olhos do computador. Pegou Jeffrey no colo por menos de dois minutos, olhou a garganta, o ouvido, apertou a barriguinha e auscultou o pulmão enquanto o menino gemia baixinho de febre. — Provavelmente uma virose associada ao nascimento dos dentes. Ele deve estar sofrendo dobrado por causa da febre e do incômodo da dentição. Foi só isso. Nem olhou direito para o rosto do bebê. Samira tinha certeza de que, se perguntassem a cor dos olhos de Jeffrey para aquele homem, ele não saberia responder. O médico parecia cansado, automático, sem paciência alguma. Jeffrey estava com quase quarenta graus de febre, molinho, estranho, e ainda assim nenhum exame foi pedido. Nenhum. Aplicaram medicação para baixar a febre, colocaram o bebê no soro por causa da desidratação e deixaram os dois numa salinha abafada aguardando observação. Durante uma hora inteira, Samira ficou sentada segurando a mãozinha quente do filho enquanto olhava o soro pingando lentamente. O desespero foi diminuindo um pouco quando a febre começou a ceder, e Jeffrey abriu os olhinhos choramingando baixinho. Então receberam alta. A recomendação foi medicar de seis em seis horas até a virose passar. Só isso. Rodrigo e Samira saíram do hospital ainda exaustos, entrando no Fusca branco que tinha sido do pai deles. O carro velho fazia barulho em cada curva, mas naquela madrugada parecia o único lugar minimamente seguro do mundo. Jeffrey dormia no colo dela, suadinho depois da medicação, enquanto Samira observava as ruas vazias tentando acreditar que tudo ficaria bem. Quando chegaram em casa, ainda não eram sete horas da manhã, mas sua mãe já estava no quintal de camisola, esperando os dois com expressão aflita. Jeanzinho também estava acordado e correu imediatamente para agarrar as pernas da mãe assim que a viu entrar pelo portão. Samira segurava Jeffrey no colo enquanto explicava como tinha sido a consulta. Jeanzinho abraçado nas suas pernas e Rodrigo largado no sofá velho do quintal, com cara de quem não dormia fazia dias. — Mas não fizeram nenhum exame? Pra descartar pneumonia, meningite, nada? — a mãe perguntou imediatamente. Samira suspirou cansada. — Não fez nenhum exame, mãe. Um verdadeiro descaso! Pneumonia descartou auscultando o pulmão. Disse que tá limpo, sem chiado. Meningite não costuma dar febre assim, mas mesmo assim eu acho que deveriam ter feito pelo menos um exame de sangue pra confirmar essa tal virose. Ela falava, mas no fundo continuava inquieta. Tinha alguma coisa errada dentro dela. Uma sensação r**m que não passava. Quando sua mãe se aproximou para pegar Jeffrey do colo dela, Adrielle entrou pelo portão. Rodrigo e Samira trocaram um olhar imediato. Confusão. Os dois pensaram exatamente a mesma coisa. Adrielle viu todo mundo no quintal e percebeu que não teria como simplesmente pular o muro e fingir que estava dormindo no quarto. Então entrou normalmente, já começando a se defender antes mesmo que alguém perguntasse qualquer coisa. O problema era que estava estampado na cara dela que tinha bebido. Samira sentiu a irritação subir na mesma hora. Não ser mais virgem e sair escondida já era grave o suficiente para uma menina de treze anos. Ela já vinha pensando em conversar seriamente com a irmã sobre aquilo assim que Jeffrey melhorasse. Mas bebida também? Porrä, Adrielle era praticamente uma criança ainda. E pior: andava com os meninos da quebrada. Samira conhecia aquele caminho. Começava com cerveja escondida, depois vinha cigarro, depois maconha, depois sabe-se lá mais o quê. Quando sua mãe começou a discutir com Adrielle, Samira precisou admitir, mesmo contrariada, que ela tinha razão em muita coisa. A mãe era insuportável? Era. Controladora? Muito. Mas também tinha feito de tudo para criar os filhos longe da influência da favela. Sempre dizia que, vivendo tão perto daquele ambiente, se não mantivesse os filhos na rédea curta, perderia todos. E talvez estivesse certa. Porque bastava olhar ao redor para ver quantos adolescentes tinham começado exatamente assim. — Você acha bonito voltar bêbada pra casa com treze anos nas costas? — a mãe gritou. — Eu não tô bêbada! — Adrielle rebateu imediatamente. — Tá fedendo a álcool, menina! — Todo mundo bebeu! — E você é todo mundo agora?! A discussão escalou rápido. Adrielle respondeu atravessado. A mãe perdeu o controle. E desceu a mão na cara dela. Rodrigo levantou num salto do sofá, assustado com o tapa seco ecoando pelo quintal. Samira até pensou em intervir, mas naquele instante percebeu outra coisa. Jeffrey estava estranho em seus braços. Muito estranho. Ela balançava o bebê automaticamente enquanto a discussão acontecia, mas então percebeu que não era ela quem estava mexendo os braços. Jeffrey estava tremendo. No primeiro segundo, Samira não entendeu. Depois o corpinho dele começou a sacudir de verdade. Tudo aconteceu muito rápido. Ela acha que gritou. Rodrigo, que estava mais perto, chegou primeiro. Adrielle parou imediatamente a discussão e ficou olhando para o sobrinho com os olhos arregalados de horror. A mãe de Samira levou a mão à boca e gritou a palavra que fez o sangue dela congelar: — Convulsão! O mundo virou caos. — Vamos voltar pro hospital! — Rodrigo gritou imediatamente. Adrielle saiu correndo na frente para abrir o portão. Rodrigo correu para o Fusca enquanto Samira entrou em pânico vendo o filho se debater nos próprios braços. Ela se jogou no banco da frente segurando Jeffrey contra o peito, completamente desesperada. — Vira ele de lado! — a mãe dela gritou do quintal. Jeanzinho chorava aos berros sem entender nada. Rodrigo arrancou com o carro cantando pneu. Ligou os piscas e saiu dirigindo feito louco pelas ruas ainda vazias da manhã. Só muito depois Samira descobriria que aquilo era um sinal improvisado de emergência para os outros carros abrirem passagem. No banco de trás, Adrielle falava alguma coisa sem parar, mas Samira não conseguia entender. Tudo parecia distante. Abafado. O único som que ela ouvia de verdade era o corpinho do filho tremendo contra ela. Quando Rodrigo entrou dando cavalo de p*u na rua do hospital, talvez seis minutos depois de saírem de casa, Jeffrey finalmente parou de convulsionar. E foi aí que o verdadeiro terror começou. Porque ele ficou mole. Mole demais. Samira olhou o rostinho dele e sentiu o corpinho tombar estranho em seus braços. Os olhos reviraram lentamente e o peso dele mudou completamente. Seu coração disparou ainda mais. Ela chamou pelo nome dele. Nada. Chamou de novo. Nada. Por um segundo inteiro, o mundo de Samira parou. Ela ficou olhando o rosto do filho sem conseguir pensar, respirar ou entender o que estava acontecendo. Foi como se sua mente simplesmente tivesse desligado diante daquela possibilidade. Então percebeu Rodrigo chacoalhando ela. Alguém abriu sua porta. Havia uma maca ao lado do carro e duas enfermeiras esperando. Rodrigo gritava desesperado para ela entregar o bebê. — Como ele está, mãezinha? O rapaz disse que estava convulsionando... — uma das enfermeiras perguntou calmamente. Samira desceu do carro ainda agarrada ao filho. Viu os braços da enfermeira estendidos esperando Jeffrey. E naquele instante, uma única coisa passou pela cabeça dela: Era assim que deveriam ter tratado ele quando chegaram ali horas atrás. Era esse atendimento que ela esperava desde o começo. Seis horas antes, ela implorava por atenção naquele mesmo hospital enquanto o filho queimava de febre no colo. Agora havia enfermeiras, maca e urgência. Agora. Com as mãos tremendo, Samira finalmente colocou Jeffrey nos braços da enfermeira. Olhou para o rosto imóvel do filho. E disse apenas uma palavra: — Morto. Então desmaiou.
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