ONZE

1805 Words
A autópsia de Jeffrey constatou aquilo que Samira jamais conseguiria aceitar de verdade: a causa da morte tinha sido meningite. O médico explicou, com aquela calma fria de quem já repetiu a mesma tragédia centenas de vezes, que existiam três tipos mais comuns daquela doença maldita. A meningite A matava em poucas horas, às vezes em menos de um dia. A meningite B deixava sequelas graves, comprometimentos mentais, dificuldades permanentes. E a meningite C costumava exigir internações longas, mas a maioria das crianças sobrevivia sem sequelas. Samira ouviu tudo sentada, olhando para frente sem realmente enxergar o homem falando. Porque, no fim, nada daquilo importava. Jeffrey tinha pegado justamente a pior delas. Ela saiu para a aula de tiro naquela tarde e o filho estava bem. Rindo. Mamando. Saudável. Quando voltou, ele já tinha contraído aquela doença infernal e começado a morrer nos braços dela sem que ninguém percebesse a gravidade. Samira sequer quis saber onde ou como ele pegou meningite. Não queria investigar brinquedo, roupa, hospital, vizinho, nada. Porque nenhuma resposta traria seu bebê de volta. O que destruía Samira por dentro era outra coisa. Ela acreditava que tinha socorrido o filho. Pegou Jeffrey no colo, correu para o hospital, enfrentou fila, humilhação, descaso e médicos preguiçosos acreditando que estava fazendo tudo certo. E no fim, aquela palavra maldita — “virose” — tinha servido mais uma vez para encobrir negligência. Virose pra cá. Virose pra lá. Tudo era virose naquele inferno de hospital. Ninguém pediu exame, ninguém investigou, ninguém olhou de verdade para seu bebê de seis meses queimando em febre. E Jeffrey morreu. Na noite do dia em que enterrou o filho, Samira simplesmente surtou. Não existia outra palavra. Enquanto sua mãe achava que ela estava no quarto chorando ou dormindo dopada de calmante, Samira abriu o guarda-roupa e começou a se arrumar. Passou maquiagem pesada, colocou uma saia curta, salto alto, perfume e ajeitou os cabelos longos diante do espelho com uma calma quase assustadora. Seus movimentos eram lentos, organizados, como alguém se preparando para uma ocasião importante. Quando dona Edna viu a filha atravessar o quintal daquele jeito, ficou horrorizada. — Onde você vai com uma saia curta dessas e essa cara toda pintada, um dia depois que seu filho morreu? Samira terminou de passar o batom antes de responder. — Vou trepar, mamãe! Eu sou uma mulher, tenho necessidades e nada do que eu fizer ou deixar de fazer vai trazer meu filho de volta. Nem Jean. Nem Chiquinho. Nem mesmo meu pai. A mãe dela arregalou os olhos, completamente chocada. — Não vai sair de casa não, ainda mais pra fazer safadeza. Você perdeu o juízo, Samira? Foi aí que ela riu. Mas não era uma risada normal. Era uma coisa quebrada, amarga, quase desesperada. — Dois anos, mamãe! Dois anos foi o tempo que levei pra perder quatro homens na minha vida. Só tem mais dois que eu amo demais. Vou começar a procurar o próximo que vai morrer no lugar deles! A frase fez dona Edna gelar. Porque naquele instante ficou claro que a filha não estava bem. Samira parecia funcionando na base da adrenalina e do choque, como alguém que já tinha sofrido tanto em tão pouco tempo que simplesmente rompeu por dentro. E antes que a mãe pudesse impedir, ela saiu. Foi andando até o ponto de ônibus da avenida próxima de casa, equilibrando-se no salto alto enquanto a maquiagem escondia o rosto inchado de tanto chorar. Sentou no banco de concreto vazio e ligou para Alexis. Cinco minutos depois, ele apareceu. Lindo. Cheiroso. Camisa escura colada no corpo, corrente brilhando no pescoço e aquele jeito seguro que fazia parecer que o mundo inteiro obedecia suas vontades. Assim que viu Samira parada ali sozinha naquela madrugada, a expressão dele mudou completamente. Não fez perguntas. Só abriu a porta do carro para ela entrar. Levou-a para um motel muito melhor do que ela imaginava que alguém da quebrada frequentaria. A suíte tinha iluminação baixa, hidromassagem enorme, cama redonda e cheiro de limpeza cara. Samira olhou em volta surpresa. — Nossa, você conhece lugares bacanas? Alexis deu uma risada nasal. — Que isso, Sereia? É esse preconceito das patricinhas que faz o povo pensar que todo favelado é ignorante. Ela ergueu uma sobrancelha. — E não é? Ele a encarou por alguns segundos antes de sorrir de lado. — Vou deixar isso passar porque você tá triste e carente. Vem, vamos deitar ali na cama pra eu te colocar no colo e deixar você chorar pelo seu garoto. Mas Samira não queria colo. Não queria compreensão. Não queria falar sobre Jeffrey. Porque, se começasse a pensar de verdade no que tinha acontecido, sentia que enlouqueceria. — Se fosse pra chorar no colo de alguém inocentemente, eu teria ficado em casa com meus irmãos! Alexis arrastava um caminhão por Samira. Fazia tudo para vê-la sorrir, mesmo que fosse por cinco minutos. Então apenas aceitou. Sua palavra parecia lei para ele. Samira aproximou-se e já foi puxando o zíper da calça dele com urgência, como se estivesse tentando arrancar alguma coisa de dentro do próprio peito através daquilo. Alexis ainda tentou segurá-la pela cintura, desacelerar aquele desespero disfarçado de desejo, mas ela não deixou. Queria sentir qualquer coisa que não fosse luto. Queria transformar a dor em outra sensação. Então o beijou com fome, agressividade e desespero, enquanto Alexis a segurava firme pela cintura. Em poucos segundos já estavam embolados na cama ainda parcialmente vestidos, sapatos no chão e roupas tortas pelo quarto. Alexis tentava acompanhá-la, mas estava claro que Samira não procurava apenas sexo. Ela parecia tentando fugir de si mesma. Depois do primeiro orgasmo, porém, o vazio continuou ali. O aperto no peito continuava. A imagem de Jeffrey no colo da enfermeira continuava. Então ela precisou de mais. Mais intensidade. Mais força. Mais sensação. Alexis percebeu rápido que havia algo errado. Muito errado. Toda vez que ela fechava os olhos, parecia lutar contra alguma memória. Toda vez que o prazer vinha, durava segundos antes da tristeza voltar esmagando tudo outra vez. Mesmo assim, ele continuou ali. Sem rir. Sem brincar. Sem transformar aquilo numa conquista masculina qualquer. Quando Samira o empurrou de volta na cama e se encaixou sobre ele de uma vez, cavalgando rápido demais, Alexis segurou sua cintura com força, observando aquele olhar perdido dela. Não era t***o puro. Era quase desespero físico. Ela gozou. Mas não bastou. Virou-se novamente, buscando mais intensidade, mais impacto, mais qualquer coisa que pudesse anestesiar o coração por alguns minutos. Alexis acompanhava seus movimentos, mas claramente estava preocupado com o estado emocional dela. Até que Samira resolveu ultrapassar mais um limite. Quando tentou conduzir a situação sem preparo nenhum, Alexis imediatamente segurou sua cintura. — Assim não! Desse jeito você vai machucar você e ele! Ela soltou uma risada amarga. — Tá negando um cü, FD? Ele suspirou. — Alexis, Sereia. Pra você eu sou Alexis. E logo se vê que você nunca fez isso antes. Assim, a seco, vai entrar rasgando nós dois. Mas Samira já estava naquele estado perigoso em que a dor física parecia melhor do que pensar. — Então faz do jeito que tem que fazer, mas faz! Alexis ficou visivelmente contrariado. Não porque não quisesse. Mas porque finalmente percebeu que ela estava tentando se punir. Mesmo assim, respirou fundo e resolveu conduzir tudo com cuidado. Deitou Samira devagar na cama e começou a beijá-la enquanto preparava seu corpo pacientemente, usando toques lentos, tentando fazê-la relaxar. Em qualquer outra noite, Samira provavelmente teria gostado daquela atenção toda, do jeito cuidadoso como ele tratava cada reação dela. Mas naquela noite ela estava acelerada demais por dentro. Cheia de adrenalina, culpa e luto. Então, quando Alexis finalmente parou para deixá-la se acostumar, Samira simplesmente o puxou para si de uma vez. A dor veio imediatamente. Forte. Crua. Intensa. As lágrimas desceram dos seus olhos na mesma hora. E foi ali, sentindo aquela dor absurda atravessar seu corpo, que Samira percebeu o que realmente procurava. Queria uma dor maior que a do coração. Porque talvez assim conseguisse respirar. Alexis percebeu na hora. Ficou imóvel dentro dela, segurando seu rosto enquanto ela tremia. — Porque está fazendo isso, Samira? Ela colocou a mão sobre o próprio peito. — Porque eu quero ver se a dor aí alivia a daqui. Alexis engoliu seco. E naquele instante entendeu que aquela mulher estava quebrada de um jeito que ele talvez nunca conseguisse consertar. Sem dizer mais nada, ficou ali com ela. Quieto. Fazendo carinho, esperando seu corpo relaxar no próprio tempo. Aos poucos, Samira foi se acostumando, deixando a tensão diminuir, até começar a se mover sozinha novamente. E quando finalmente gozou, o orgasmo veio tão intenso que ela desabou logo depois. Não em prazer. Em tristeza. Assim que a adrenalina passou, começou a chorar de verdade. Um choro feio. Dolorido. Daqueles que saem do fundo da alma. Alexis a pegou no colo e levou para a ducha sem dizer nada. Lavou seu corpo com cuidado, limpando maquiagem borrada, lágrimas e suor como se ela fosse algo precioso demais para ser tratado com brutalidade. Depois encheu a hidro e a colocou sentada na frente dele dentro da água quente. E ficou ali. Abraçado nela em silêncio. Sem tentar dar conselho. Sem dizer que tudo ficaria bem. Porque às vezes não existe nada certo para falar. Só presença. Quando Samira finalmente conseguiu se acalmar um pouco, começou a falar com a voz rouca: — Toda a família do Jean estava lá... os oito irmãos. — Eu sei. Eu estava lá também... Ela virou o rosto surpresa. — Como assim? Não vi ninguém da parte debaixo da avenida lá... Alexis acariciou lentamente o braço dela. — Deco deu ordem pra ninguém invadir seu momento, Sereia. Mas eu fui... — E porque você foi se tinha ordens pra não ir? Ele a apertou um pouco mais contra o peito. — Porque eu não podia deixar você sozinha naquele momento, Sereia. Samira fechou os olhos. — Eu não estava sozinha. Eu tava com meus irmãos, com minha mãe e com a família do pai dele. Alexis soltou uma risada sem humor. — Família essa que te culpou por ele se colocar na coleira. Ela se afastou um pouco para encará-lo. — Como você tem tanto acesso às minhas coisas, Alexis? Tá me vigiando? Ele sustentou seu olhar sem hesitar. — Não, Samira. Eu tô te cuidando. Aquilo mexeu com ela mais do que deveria. — E por quê? Pra quê? Alexis ficou alguns segundos em silêncio antes de responder. — Porque eu te amo, Sereia. Sempre te amei. Mesmo quando você não tinha esse traseiro de fazer inveja, eu já te amava. Por isso o que você fala sobre favelado é tão feio. Eu estudei com você, caramba. Do lado de cima da avenida.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD