Entre a Mira e a Quebrada
Samira até se sentiu tentada a aceitar aquela atenção constante de Alexis. Em muitos momentos, principalmente depois da morte de Jeffrey, era confortável ter alguém disposto a segurá-la quando ela desmoronava. Alexis fazia isso sem esforço. Cuidava dela sem sufocar, aparecia sem que ela precisasse pedir e parecia enxergar dores que nem ela conseguia colocar em palavras. Mas havia uma coisa que Samira não conseguia ignorar: ele continuava no crime.
Na cabeça dela, aquilo anulava qualquer possibilidade de futuro.
Por mais que gostasse dele, por mais que o sexo entre os dois fosse absurdo e por mais que Alexis parecesse genuinamente apaixonado, Samira não conseguia imaginar a própria vida ao lado de um homem que escolhia continuar dentro da boca. Então deixou isso claro outra vez, numa madrugada em que estavam deitados abraçados depois de transarem.
— Você sabe que eu não vou ficar com alguém envolvido nisso, né?
Alexis ficou alguns segundos em silêncio, acariciando devagar os cabelos dela antes de responder.
— Eu não posso largar ainda por muitas questões pessoais. Mas fora isso… eu também não posso largar por você.
Aquilo fez Samira franzir a testa imediatamente.
— Que sentido tem isso?
Ele apoiou o braço atrás da cabeça e olhou para o teto.
— Eu sei que seus irmãos são muito importantes pra você. E acredita quando eu digo que entendo esse sentimento. O Rodrigo tá andando com um pessoal bem legal… pra boca. Não acho que ele esteja usando nada, conheço os Zé Droguinha da área. Mas preciso garantir que ele nem comece. E a Adrielle vive na parte debaixo com aquela amiga dela. Cada uma faz o que quer da vida, mas tua irmã gosta de dar pra Zé Droguinha, Sereia.
Samira fechou os olhos com irritação.
Porque odiava admitir, mas Alexis não estava mentindo.
— Então, já que você não entra na quebrada, precisa ter alguém lá dentro cuidando deles pra você.
A frase ficou ecoando na cabeça dela por muito tempo.
Samira odiava o fato de aquele argumento fazer sentido. Odiava ainda mais saber que Alexis provavelmente já tinha impedido muita merda de acontecer sem que ela sequer percebesse. Rodrigo realmente andava com uns meninos perigosos demais, e Adrielle parecia cada dia mais atraída pelo caos da favela. Era como se a morte do pai tivesse arrancado o medo da menina.
No fim, Samira apenas suspirou cansada.
— Você é manipulador pra c****e, sabia?
Alexis sorriu de lado.
— E você gosta.
Ela tentou não sorrir também, mas não conseguiu.
Então ele a beijou.
E fizeram amor outra vez.
No dia seguinte, Alexis a deixou no mesmo ponto de ônibus onde tinha buscado ela naquela noite terrível depois do enterro de Jeffrey. Era estranho como os dois tinham criado aquela rotina silenciosa. Alexis nunca insistia em entrar na vida dela mais do que Samira permitia. Não fazia cena, não cobrava presença e não tentava forçar espaço. Parecia entender exatamente até onde podia ir.
E assim seguiram suas vidas.
Alexis continuava sendo o sub dos irmãos Pesadelo, cada vez mais respeitado dentro da quebrada, enquanto Samira se afundava nos estudos e no curso de segurança armada. Em todas as aulas de tiro ela se destacava absurdamente. Os instrutores elogiavam sua concentração, firmeza e precisão. Diziam que Samira tinha perfil perfeito para a área, que era extremamente disciplinada e aprendia rápido.
Mas não era disciplina.
Era raiva.
Toda vez que segurava uma arma, Samira despejava ali tudo que estava entalado dentro dela. Toda culpa. Todo luto. Todo ódio. Quando mirava nos alvos, não enxergava círculos de papel. Enxergava rostos.
Jean.
Cíntia.
Chiquinho.
Chiquinho porque tinha apresentado Jean para ela anos atrás, colocando em sua vida o homem que lhe mostrou o céu e o inferno em apenas sete anos. Jean porque destruiu tudo por causa de uma traição i****a e depois teve a covardia de morrer, deixando ela sozinha no caos. E Cíntia… ah, Cíntia.
O ódio de Samira pela “Torradinha” nunca foi apenas pela traição.
Porque, para Samira, homem comprometido tinha obrigação de respeitar a mulher. A vagabunda da rua ia dar em cima mesmo, fazia parte. O caráter estava em quem aceitava ou não. Sempre pensou assim.
Quando começou a namorar Jean, ele era um menino franzino, nerd, tímido, usando óculos enormes e estudando feito maluco para sair da favela. Samira lembrava perfeitamente dele sentado na mesa da cozinha fazendo conta, falando sobre faculdade, querendo crescer na vida. Ela e os irmãos sempre tiveram boa criação, fartura dentro do possível e pais presentes, mas nunca deixaram de entender a realidade onde viviam.
E Jean odiava aquela realidade.
Depois vieram academia, roupas caras, lente de contato, perfume importado e autoestima. Jean ficou bonito. Muito bonito. E então começou a chover mulher em cima dele.
Todo mundo perguntava se Samira não tinha ciúmes.
Mas a resposta dela sempre foi a mesma:
— A função da vagabunda é dar em cima do meu homem. A função do meu homem é me respeitar.
Então o ódio pela Torradinha vinha de outro lugar.
Cíntia viu um casal fragilizado, viu Samira vulnerável depois de tudo que tinha passado e se infiltrou na vida deles usando aquilo. Se enfiou dentro da casa de Samira, da i********e dela, virou a cabeça de Jean num momento de fraqueza e ainda tentou transformar aquilo em vantagem pra si mesma.
Na cabeça de Samira, a queimadura que causou nela estava longe de ser suficiente.
Por isso imaginava o rosto da mulher nos alvos enquanto disparava sem dó.
Claro que jamais contaria isso aos instrutores. Se falasse metade do que realmente passava pela sua cabeça durante os treinos, nunca conseguiria porte de arma na vida. Iam interná-la antes.
Paralelo ao curso, Samira finalmente saiu da casa da mãe.
Conviver com dona Edna tinha ficado impossível depois da morte de Jeffrey. As duas estavam destruídas emocionalmente, e isso transformava qualquer conversa em guerra. Rodrigo acabou encontrando uma casinha simples, com três cômodos, há uns dez minutos da casa dele caminhando. Samira usou parte do dinheiro da venda da casa incendiada para mobiliar tudo e fechar o aluguel.
Muita gente achou estranho ela optar por alugar tendo dinheiro suficiente para comprar um imóvel.
Mas Samira tinha uma sensação constante de que não permaneceria ali por muito tempo.
Não sabia explicar.
Só sentia.
Então preferiu não se prender a nada definitivo.
Ninguém conseguia entender como ela parecia estar seguindo em frente depois de perder um filho. Algumas pessoas até comentavam que Samira era fria. Mas ninguém via as madrugadas em claro, os banhos silenciosos chorando ou o jeito como ela ainda parava às vezes olhando roupas pequenas de bebê guardadas numa caixa.
A diferença era que ela não podia desmoronar.
Porque Jeanzinho continuava ali.
E aquele menino pequeno, com menos de três anos, já tinha perdido o tio, o pai e o irmão em tão pouco tempo. Samira se recusava a deixar ele perder a mãe também, mesmo que emocionalmente.
— O pai foi covarde. Eu não posso ser — repetia para si mesma nos dias difíceis.
Além disso, Adrielle precisava dela.
Assim que saíram da casa da mãe, os quatro finalmente conseguiram respirar um pouco. A tensão constante desapareceu e a convivência ficou mais leve. Samira organizou a pequena casa da melhor forma possível. Nem fez sala direito. Preferiu transformar o espaço num quarto extra para os irmãos.
Ali seria o “santuário” deles.
Podiam levar amigos, ouvir música, jogar conversa fora, estudar, fazer reuniões ou simplesmente existir em paz. A única regra de Samira era clara: ninguém transava dentro daquela casa.
— Se o sujeito não pode pagar nem um motel, então não merece comer ninguém — dizia sem a menor vergonha.
Rodrigo achava aquilo um inferno.
Porque o menino era liso de dinheiro.
Mas Samira ria vendo como ele dava seus jeitos. Rodrigo começou a se envolver só com mulheres mais velhas, geralmente meninas que trabalhavam e moravam sozinhas.
— Esse demônio puxou o pai mesmo — ela comentava rindo com Adrielle.
Os meses passaram rápido.
E, mesmo sem assumir nada sério, Samira sempre reservava um dia para Alexis. A relação dos dois era boa daquele jeito. Leve dentro do possível. O sexo continuava absurdo e Alexis fazia ela se sentir desejada de um jeito que nunca tinha sentido antes.
Mas assumir um namoro já não parecia interessante nem para ele.
Samira estava praticamente formada no curso de segurança armada, enquanto Alexis era sub do Deco dentro do tráfico. Mesmo não sendo policial, todo mundo olhava para Samira como “a meganha”.
Era impossível explicar para o povo da favela que ela faria segurança privada e não sairia prendendo ninguém.
Então ficou subentendido entre os dois que era melhor não serem vistos juntos com frequência.
Depois que terminou o curso, dona Edna resolveu fazer uma recepção simples em casa para comemorar. E a presença mais surpreendente foi a da sogra de Samira, que apareceu normalmente, como se nunca tivesse se afastado dela depois da morte de Jean.
A justificativa foi simples e c***l ao mesmo tempo:
— Agora você sabe o que é perder um filho.
Samira nem respondeu.
Porque odiou perceber que entendia exatamente aquela dor.
Mas, apesar do diploma e das notas excelentes, conseguir emprego se mostrou quase impossível. Todos os colegas de turma, inclusive os mais incompetentes, arrumaram trabalho rapidamente. Menos ela.
Samira distribuía currículo, fazia entrevista, recebia elogios… e nada.
Até que um dia comentou isso com Alexis depois de transarem.
Os dois ainda estavam deitados nus na cama do motel quando ele virou o rosto para ela completamente incrédulo.
— Pera aí… você fez esse curso querendo trabalhar na área mesmo?
Ela franziu a testa.
— Claro! Pra quê eu faria então?
Alexis soltou uma risada curta.
— Então muda de cidade, gata. Porque a primeira coisa que os caras olham no teu currículo é teu endereço.
Samira se apoiou no cotovelo imediatamente.
— E daí?
— E daí que não faz sentido nenhum contratar alguém que mora do lado dos cria pra proteger carga, banco ou patrimônio.
Ela sentou na cama irritada.
— E por que não? Eu sou totalmente capaz de proteger qualquer patrimônio.
— Tenho certeza que sim, Sereia. Mas pensa comigo. Pra você fazer escolta armada, precisa saber itinerário, rota, ponto de risco… certo?
— É óbvio.
— E você morando do lado dos caras que roubam carga, qual a chance de você passar rota pros parça?
Samira abriu a boca para responder e travou.
Porque entendeu imediatamente.
— Tá… entendi.
Alexis sorriu satisfeito.
— A probabilidade de “você” fazer isso talvez seja zero. Porque eu conheço teu caráter. Mas eles não conhecem. Se fizer um mapa com você em azul e possíveis sequestradores de carga em vermelho… você tá cercada de ponto vermelho.
Samira ficou em silêncio.
Era c***l.
Mas fazia sentido.
Alexis puxou ela de volta para perto.
— Muito bem. Nem demorou pra compreender. Agora esquece isso e vem cá me dar um cheiro.
Ela riu baixinho, mas passou o resto da noite pensando naquilo.
E voltou pra casa com uma ideia martelando na cabeça.
Uma ideia que, naquele momento, ela ainda não sabia se tinha sido muito genial… ou o começo da próxima tragédia da sua vida.