Linha de Fogo
Samira não “deixou aquilo pra lá”, como Alexis aconselhou. Muito pelo contrário. Quanto mais pensava na conversa que tiveram naquela noite, mais revoltada ficava. Não conseguia aceitar que tinha estudado por mais de um ano, pago mensalidades absurdas, se esforçado até o limite e, no fim, provavelmente jamais conseguiria trabalhar na área simplesmente por causa do CEP onde morava.
Aquilo parecia injusto demais.
Pela primeira vez na vida, Samira começou a se perguntar se Jean tinha razão o tempo todo. Talvez sair da favela realmente fosse a única forma de crescer. Jean sempre falava aquilo. Dizia que a quebrada engolia as pessoas, puxava todo mundo pra baixo e destruía qualquer chance de futuro. Samira odiava ouvir aquilo dele, porque parecia desprezo pelas próprias origens.
Mas agora…
Agora ela estava sentindo na pele.
Então procurou um dos instrutores do curso e foi direta. Perguntou se aquilo era verdade mesmo, se empresas realmente descartavam candidatos pelo bairro onde moravam. O homem ficou claramente sem graça, mas confirmou. Disse que existia muito preconceito na área de segurança armada e escolta. Empresas tinham medo de infiltração criminosa, vazamento de rota, ligação com roubo de carga.
Samira ficou revoltada.
Sentiu-se enganada.
— Vocês deviam avisar isso quando a pessoa faz matrícula! — disparou. — Me deixaram estudar mais de um ano, pagar mensalidade cara pra caramba, sabendo que eu talvez nunca conseguisse trabalhar!
O instrutor tentou amenizar, dizendo que não era impossível, só difícil. Comentou novamente que o ideal seria ela se mudar.
Mas só de ouvir aquilo, a memória veio violenta.
Jean pendurado na viga.
A corrente do cachorro apertada no pescoço.
O jeito como perguntou se ela tinha certeza que não queria sair da comunidade.
Não.
Aquilo estava fora de cogitação.
Principalmente por Adrielle.
Se Samira saísse dali, não teria como levar a irmã junto legalmente. Adrielle ainda tinha apenas quatorze anos e sua vida estava cada vez mais complicada. Dona Edna, naquele momento, parecia completamente mergulhada no esoterismo. Incenso, vela, carta, cristal, oração estranha… Samira tentava respeitar, porque sempre ensinou que religião era algo pessoal. Mas sua mãe estava exagerando num ponto que começava a incomodar todo mundo da casa.
Ela evitava até deixar Jeanzinho dormir lá.
Toda vez que o filho voltava da casa da avó, vinha com a roupa fedendo tanto a incenso que parecia ter sido defumado inteiro. Samira acreditava sinceramente que a mãe estava passando dos limites.
Mesmo assim, fazia questão de ensinar Jeanzinho a respeitar as diferenças.
O menino tinha quatro anos e era o xodó absoluto das duas famílias. Inteligente, falante e engraçado, passava boa parte do tempo na rua com Rodrigo e os amigos dele. Adorava subir na moto do tio, fingir que pilotava e ficar no meio das conversas dos adultos como se entendesse tudo.
Até que um dia chegou em casa mancando e repetindo:
— Vinte e nove… tinta.
Samira não entendeu nada.
Perguntou de onde ele tinha tirado aquilo, mas Jeanzinho só ria.
Dias depois, foi visitar a mãe junto com Pâmela. As duas conversavam no portão enquanto Jeanzinho brincava na calçada. Então Roberta apareceu descendo a rua.
Na mesma hora, o menino começou de novo:
— Vinte e nove, tinta!
Samira congelou.
Roberta tinha sofrido um acidente quando criança. Caiu de uma escada, lesionou a coluna e ficou torta. Seu corpo era completamente inclinado para um lado e ela precisava fazer uma espécie de arco para andar. Os moleques da rua, principalmente os amigos idiotas de Rodrigo, zoavam dizendo que ela parecia contar os passos:
“Vinte e nove… trinta… vinte e nove… trinta…”
Samira sentiu vergonha imediatamente.
Agachou na frente do filho e chamou sua atenção na hora.
— Não faz isso, filho. As diferenças têm que ser respeitadas. Você não pode rir das pessoas.
Depois olhou discretamente para Rodrigo, que já abaixava a cabeça percebendo a culpa.
Ela também precisou conversar com a mãe sobre os exageros religiosos. Explicou calmamente que respeitava sua fé, mas Adrielle e Jeanzinho moravam parte do tempo ali também, e impregnar a casa inteira de fumaça era desrespeitar os outros.
Mas, honestamente, o maior problema continuava sendo Adrielle.
A menina estava revoltada com a vida.
E descontava tudo em sexo.
Não tinha o menor apego emocional aos parceiros, trocava de ficante sem dificuldade nenhuma e parecia buscar validação masculina desesperadamente. Rodrigo e Alexis ajudavam a vigiar discretamente para Samira, principalmente dentro da quebrada, e ela se agarrava à esperança de que em algum momento a irmã encontraria alguém que realmente gostasse dela e sossegaria.
Mas enquanto isso não acontecia, Samira sabia que precisava desesperadamente de estabilidade financeira.
Porque a escola pública do bairro ficava literalmente dentro da favela.
Seu pai sempre fez questão de colocar os filhos em escola particular justamente por isso. Antes de morrer, Rodrigo implorou para ir para escola pública porque queria trabalhar. O pai deixou, acreditando que estudar e trabalhar ocuparia o tempo dele e evitaria besteira.
Mas Adrielle continuou na particular.
E depois que Samira saiu da casa da mãe, assumiu junto com Rodrigo aquela responsabilidade.
Os dois dividiam mensalidade, material, uniforme e transporte para impedir que Adrielle se afundasse ainda mais no ambiente da quebrada.
Só que os gastos estavam fugindo do controle.
Samira pagava aluguel, contas da casa, comida, gasolina, fraldas antes, agora escola, além de ainda pagar uma ajuda para Adrielle cuidar de Jeanzinho quando ela precisava resolver alguma coisa.
Mesmo com a pensão boa de Jean, estava ficando apertado.
Uma semana depois daquela conversa com o instrutor, ele ligou.
Disse que tinha surgido uma vaga no interior de São Paulo. Escala 24x48. E que, sinceramente, considerava Samira perfeita para o trabalho.
Ela nem pensou duas vezes.
Foi fazer entrevista.
Passou.
Fez exame admissional, teste psicológico, treinamento complementar e, em menos de um mês, já estava oficialmente empregada.
Rodrigo ajudou ela a comprar uma moto usada, porque a empresa ficava em Campinas. Samira sempre soube pilotar desde moleca, mas nunca tinha tirado habilitação. Então resolveu arriscar. Entrou na autoescola enquanto pilotava irregularmente para trabalhar.
Era perigoso?
Muito.
Mas ela não tinha tempo nem dinheiro para esperar.
O arranjo acabou ficando perfeito.
Samira assumia plantão às dezoito horas monitorando câmeras de segurança até meia-noite. Depois passava para a portaria armada até às seis da manhã. E então seguia para escolta de carga.
Normalmente a equipe retornava por volta das quatro da tarde, e o restante do tempo era apenas espera até encerrar o turno. Como trabalhavam em equipe, conseguiam se revezar, principalmente nas câmeras, para cochilar algumas horas.
Samira amava aquilo.
Amava o uniforme preto ajustado ao corpo, a bota, o colete, o rádio preso na cintura e principalmente o respeito automático que recebia quando chegava nos lugares. O uniforme fazia ela parecer policial federal e aquilo alimentava uma parte ferida dentro dela.
Uma parte que precisava desesperadamente se sentir forte outra vez.
Ela passou a ganhar mais do que recebia de pensão.
E Jeanzinho nunca ficava sozinho com Adrielle. Dona Edna e sua ex-sogra se revezavam sem problema algum para cuidar dele nos plantões. As cunhadas ajudavam também, e ninguém reclamava. O menino era amado demais por toda família.
A rotina ficou puxada, mas organizada.
Samira pilotava quase quarenta minutos até chegar em casa depois do serviço. Dormia algumas horas e então Adrielle levava Jeanzinho até ela. Passava o dia inteiro com o filho, levando para passear, brincando, fazendo comida que ele gostava, assistindo desenho agarrados no sofá e dormindo abraçados antes de voltar ao trabalho.
Naquela nova configuração, ela sequer percebeu que Alexis tinha começado a desaparecer da sua rotina.
Os dias passaram rápido demais.
Quando notou, fazia mais de três meses que praticamente não o via.
Samira resolveu procurá-lo.
Mas Alexis a ignorou.
Da mesma forma que ela ignorou ele tantas vezes antes.
Aquilo doeu mais do que gostaria de admitir. Pela primeira vez sentiu na pele aquele gosto amargo de rejeição. Mesmo assim, convenceu a si mesma de que talvez fosse melhor daquele jeito. Alexis era carinhoso, divertido, atencioso e absurdamente apaixonado por ela.
Mas eram de mundos diferentes.
Ela repetia aquilo para si mesma constantemente.
Estava pensando justamente nisso durante uma escolta quando, do nada, lembrou da última conversa que tiveram. E então algumas falas dele começaram a voltar detalhadamente à sua cabeça.
“Você precisa saber o itinerário pra avaliar o risco…”
Samira franziu a testa na hora.
Itinerário?
Avaliar o risco?
Desde quando Alexis falava daquele jeito?
Na quebrada ninguém dizia “itinerário”. Diziam “caminhada”. “Passar a rota pros cria”. “Tá ligado?”. Só então ela percebeu outra coisa ainda mais estranha: fazia muito tempo que Alexis não usava gíria com ela.
Seu cérebro começou a dar um nó.
Ele falou que estudou com ela.
Mas onde?
Na escola particular?
Como?
Aquilo não fazia sentido nenhum.
Samira estava tão distraída tentando montar aquele quebra-cabeça mental que quase não percebeu a moto se aproximando.
Foi instinto.
Mais sentiu do que viu o garupa sacar a arma.
— ABAIXA! — gritou imediatamente.
Mas seu parceiro não entendeu.
O primeiro disparo explodiu no vidro.
Depois veio a rajada.
Os bandidos fritaram a escolta inteira.
Seu parceiro caiu sangrando praticamente em cima dela enquanto o carro perdia controle. Samira acionou imediatamente o alerta pelo rádio e se jogou no assoalho, tentando proteger a cabeça enquanto rezava para o motorista conseguir parar antes de capotar.
O carro rodou violentamente até finalmente bater.
Então começou o pior momento da vida dela.
O silêncio.
Os únicos sons eram respiração pesada, metal estalando e passos do lado de fora.
Samira ficou completamente imóvel debaixo do corpo do parceiro morto, com os olhos abertos, rezando para ninguém conferir se ainda havia sobreviventes.
Ouviu os criminosos dominando o motorista.
Ouviu ordens.
Ouviu outro caminhão encostar.
Tudo parecia em câmera lenta.
Eles já estavam abrindo o cadeado da carga.
Samira conhecia o protocolo. Sabia exatamente quanto tempo tinham até o rastreador denunciar a parada irregular. Sabia quanto tempo a central levaria para acionar polícia, helicóptero e apoio.
Os ladrões também sabiam.
Por isso precisavam agir rápido.
Quando percebeu que os passos tinham se afastado um pouco, Samira se mexeu lentamente. Puxou a doze presa ao peito do parceiro morto. Mulheres não tinham autorização para portar aquele calibre na empresa.
Mas naquele momento ela não estava nem aí.
Ficou abaixada dentro do carro, engatilhando a arma com as mãos tremendo enquanto aguardava.
Então ouviu o helicóptero.
O coração dela disparou.
Abriu a porta rapidamente.
Mirou.
Atirou.
Engatilhou.
Mirou de novo.
Atirou outra vez.
Derrubou dois homens.
Os agentes do helicóptero começaram a disparar também, mas precisavam tomar cuidado por causa da posição do carro da escolta. Samira puxou sua arma menor quando percebeu alguém correndo na direção dela atirando.
As balas bateram violentamente na lataria.
Ela fechou a porta imediatamente e começou a rezar.
Rezava para o helicóptero derrubar aquele desgraçado antes que ele chegasse perto demais.
Os disparos foram ficando mais próximos.
Mais próximos.
Até que ouviu um corpo cair.
E então o silêncio voltou.
Samira percebeu que estava tremendo inteira.
As mãos não obedeciam.
Ela não tinha coragem de abrir a porta.
Ficou encolhida dentro do carro destruído segurando a arma até ouvir vozes da polícia se aproximando.
Quando abriram a porta e puxaram ela dali, finalmente a ficha caiu.
Só naquele instante Samira percebeu que, apesar de toda pose, treinamento e raiva acumulada, ainda era só uma mulher aterrorizada tentando sobreviver.
E começou a chorar compulsivamente.