Depois de alguns dias, Samira já não se orgulhava de ter feito aquilo. A adrenalina que tinha sentido na hora foi embora rápido demais, deixando só um gosto amargo na boca e um peso no peito que ela carregava até quando tentava dormir. Nos primeiros dias, ainda conseguiu sustentar a própria raiva como justificativa. Repetia mentalmente que tinha sido humilhada, traída dentro da própria casa, na própria cama, enquanto ela estava longe trabalhando e se matando para manter tudo de pé. Mas conforme os dias passaram e a fumaça da revolta baixou, começou a enxergar o tamanho do caos que tinha causado.
Cíntia acordou e não disse nada por alguns dias, mas depois confirmou que se lembrava de ter se banhado com álcool e depois acendeu o isqueiro.
Aquilo foi suficiente para tirar Samira completamente da linha de suspeitos. A polícia não insistiu mais, e a fofoca da favela mudou de direção rápido, como sempre acontecia. Ainda assim, ela sabia que ninguém acreditava totalmente naquela história. O povo só escolhia fingir que acreditava porque era mais fácil.
Foi quando Pâmela apareceu na casa da mãe dela.
Entrou sem cerimônia, como alguém acostumada àquele ambiente desde sempre, mas trazia uma expressão tensa no rosto.
— Todo mundo descobriu sobre o caso porque Deco mandou corroborar o álibi da Sereia. Que se pegasse qualquer coisa pra ela, a situação ia ficar feia!
Samira fechou a cara na mesma hora.
Odiava aquele Deco.
Homem seboso. Casado. Velho demais pra ficar secando qualquer mulher que passasse na frente dele. E pior: fazia isso sem o menor pudor. Samira sentia os olhos dele passeando pelo corpo dela sempre que se encontravam. Principalmente por ela ter rabö de arraia, como o povo dizia sem vergonha nenhuma. Ele a comia com os olhos, descaradamente.
Aquilo dava nojo.
Mas também não podia negar a verdade: Deco tinha salvado ela de ser presa por um crime horrível.
E Samira sabia exatamente o que aquilo significava.
Estava devendo um favor pro dono da quebrada.
Que merda.
Aquilo a incomodava mais do que gostaria de admitir. Porque favor naquela favela nunca era favor. Era dívida. E dívida sempre voltava para cobrar.
Ela tentou não pensar nisso.
Tentou focar nas crianças, na rotina improvisada na casa da mãe, na própria cabeça bagunçada. Mas Jean não deixava.
Enfim, Jean a procurou.
Queria reatar.
Apareceu no fim da tarde, parado no portão como se ainda tivesse direito de estar ali. Samira saiu já preparada para mandar ele embora, mas bastou olhar para aquela cara cansada dele para sentir o coração vacilar um pouco. O ódio ainda existia. Só que a saudade vinha crescendo junto.
Mesmo assim, ela sustentou a postura.
— Você acha mesmo que eu vou voltar pra você? Porque você fez aquilo, Jean? Levou uma mulher pra dentro da minha casa! Na minha cama!
Ele respirou fundo antes de responder.
— Na qual você botou fogo. Na cama, na casa e na mulher. Estamos quites.
Os olhos dela faiscaram.
— Não, não estamos quites. Vamos ficar quando eu botar fogo em você, seu filho da p**a.
— Sâmi…
— Sâmi o c*****o! Eu sou Sereia, pode perguntar pra todo mundo da favela quem eu sou.
Jean ficou quieto depois disso.
E aquilo irritava mais ainda. Porque ela queria brigar. Queria que ele gritasse também, que falasse alguma merda para justificar o ódio dela. Mas Jean parecia cansado demais para lutar.
Passou mais uns vinte dias de Jean perseguindo Sâmi e ela já estava morrendo de saudades.
Não ia negar porque não era b***a.
Ele aparecia todos os dias na casa da mãe dela para ver as crianças. Às vezes levava alguma coisa, outras vezes só sentava no quintal e ficava olhando os filhos brincarem como se aquilo fosse o suficiente para manter ele respirando.
Samira fingia indiferença.
Só fingia.
Porque bastava ouvir o barulho da moto dele parando na rua para o coração acelerar igual i****a.
Pâmela percebeu antes mesmo dela admitir para si mesma.
Mais uma vez, tentou salvar a situação.
— Eu sei que ele errou, Sâmi. Mas ele te ama e está arrependido. A safada foi a Cíntia, e você já colocou um fim nela.
Samira ergueu os olhos lentamente.
— Ela morreu?
— Não. Uma pena. Ela está totalmente desfigurada, fui com minha mãe visitar ela. Você sabe que minha mãe vai dia sim, dia não ver ela né? Todo mundo lá em casa criticava, falando que você ia ficar triste da mãe tá com esse cuidado todo com ela. Mas quando ela acordou de fato e pôde ter uma conversa com a mãe, que todo mundo entendeu.
Samira deu uma risada seca.
— Entendeu o carinho da mãe com a amante do seu irmão? Legal!
— Não, Sâmi. A mãe queria saber porque, como aconteceu. Ela já tinha ouvido a versão do Jean, mas queria saber se batia com a da Cíntia, e ela ia lá todo dia pra ter certeza que ninguém da nossa família iria, e fizesse ela mudar a versão.
Samira cruzou os braços.
— E qual é a versão?
Pâmela suspirou antes de responder.
— Ela falou que começou a seduzir ele. Ficou desempregada, marido deu um pé, você sabe como é. Jean ganha bem, ela queria ter a certeza de que ele ia bancar ela. Começou a ir na sua casa dizer que ia limpar pra quando você voltasse, essas coisas. Depois que aconteceu, ameaçou te contar se ele mandasse ela embora antes de você voltar. Jean sabia que estaria fudido, com ela chantageando ele depois, mas foi cedendo.
Samira sentiu o sangue ferver outra vez.
— Até que eu fui lá e botei fogo no r**o dela. Não gosta de ficar com o r**o ardendo de dar o piriquito pro marido dos outros? Então que arda bastante.
Pâmela encarou ela por alguns segundos.
— Ninguém nunca acreditou que você fosse capaz disso.
Samira deu de ombros.
— Não se vanglorie, Pâmela. Eu ia colocar fogo nele também. Só não pegou porque ele foi esperto e fugiu antes de incendiar tudo.
— A gente sabe disso, Sâmi. Ninguém está com raiva de você. Ele quem errou. Mas dá uma chance pra sua família…
Família.
Aquilo mexia com ela.
Porque apesar de toda a raiva, Jean ainda era o pai dos filhos dela. Ainda era o homem que dividiu anos da vida ao lado dela. O homem que segurou sua mão quando Adrielle nasceu chorando sem respirar direito. O homem que passou noites acordado quando os meninos ficaram doentes. O homem que conhecia cada detalhe dela.
E talvez fosse justamente por isso que a traição tinha doído tanto.
Naquela noite, quando Jean foi ver as crianças, Samira resolveu conversar com ele.
Sentaram no quintal da mãe dela enquanto os filhos brincavam mais afastados. O silêncio entre os dois parecia pesado demais.
Então ela falou.
Disse que voltaria com ele se vendesse a casa incendiada que ele levou aquela vadiä e comprasse outra perto da casa das mães dos dois.
Jean endureceu na hora.
Foi ele quem ficou irredutível.
Disse que Samira estava usando o erro dele pra fazer suas vontades e que já tinha começado a reforma da casa. Bateu o pé dizendo que não iria sair de lá.
Aquilo virou outra guerra.
Porque Samira se recusava a voltar para aquele lugar. Só de imaginar aquela cama, aquelas paredes, aquela mulher andando pela casa dela enquanto ela estava fora, sentia vontade de vomitar.
Mas Jean também não cedia.
E os dois continuaram presos naquele orgulho miserável.
Se passaram mais uns quinze dias nessa loucura.
Quinze dias de aproximações, discussões, olhares longos e silêncios dolorosos.