Enquanto isso, morar na casa da mãe estava enlouquecendo Samira de um jeito que ela nunca imaginou ser possível. Nos primeiros dias, ainda tentou convencer a si mesma de que seria suportável. Era temporário, repetia mentalmente sempre que sentia vontade de explodir. Só precisava resolver a situação com Jean, colocar a cabeça no lugar e decidir o que faria da própria vida dali pra frente. Mas conforme os dias foram virando semanas, a convivência começou a corroer sua paciência, sua sanidade e até partes dela que acreditava serem fortes demais para se abalar.
Foi naquele período que Samira realmente entendeu Adrielle. Não de um jeito superficial, como antes, quando apenas sentia pena da irmã. Ela finalmente compreendeu, com a maturidade amarga de quem passa pela mesma situação, por que Adrielle tinha afundado tanto depois da morte do pai. A vida inteira, Samira acreditou que a irmã fosse emocional demais, fraca demais, dependente demais da presença dele. Sempre achou que Adrielle usava o luto como desculpa para justificar a própria incapacidade de reagir à vida. Só que agora, vivendo naquela casa sem o pai, tudo fazia sentido de um jeito quase c***l.
O pai delas era o equilíbrio daquela família. Sempre tinha sido. Era ele quem conseguia interromper as discussões antes que virassem guerras intermináveis, quem distraía a mãe quando ela começava a implicar com qualquer coisa, quem protegia as filhas do veneno diário dela sem que elas sequer percebessem o que estava fazendo. Ele absorvia o peso daquela casa inteira sozinho. Depois que morreu, parecia que alguém tinha arrancado a última estrutura que mantinha tudo de pé, porque a mãe delas mostrou uma versão muito pior do que Samira lembrava.
Ela reclamava de tudo. Absolutamente tudo. Da bagunça das crianças, do cachorro correndo no quintal, do jeito que Samira cozinhava, da quantidade de roupa no varal, da toalha molhada no banheiro, do barulho da televisão, do horário que Adrielle acordava. Qualquer resposta atravessada virava discussão. Qualquer silêncio virava afronta. Qualquer coisa era motivo para gritar, humilhar ou fazer algum comentário ácido capaz de estragar o dia inteiro de alguém. Samira, que sempre teve língua afiada e pavio curto, precisou aprender a engolir muita coisa para não transformar aquela casa num inferno ainda maior.
E foi justamente convivendo com aquilo diariamente que ela percebeu o quanto Adrielle devia ter se sentido sozinha todos aqueles anos. A irmã não tinha sido fraca. Tinha sido esmagada aos poucos. Porque conviver constantemente com alguém que transformava tudo em crítica e culpa fazia qualquer pessoa se perder de si mesma. Samira começou a olhar Adrielle com outros olhos. Pela primeira vez, sentiu culpa pelas vezes em que julgou a irmã sem entender o que realmente acontecia dentro daquela casa.
Aquilo só aumentou ainda mais sua insistência em morar perto dali quando resolvesse a situação com Jean. Adrielle precisava ter um lugar onde pudesse respirar sem se sentir sufocada o tempo inteiro. Precisava de alguém que servisse como apoio antes que acabasse se destruindo de vez. Samira começou a perceber que, se deixasse a irmã sozinha naquela casa por muito mais tempo, a mãe acabaria acabando com o pouco que ainda restava dela emocionalmente.
Foi nesse cenário de desgaste constante que aconteceu a história da corrente do Pipoca. O cachorro estava solto no quintal fazia dias, cavando buracos, espalhando lixo, derrubando vasos e enlouquecendo a mãe dela. A mulher reclamava tanto do animal que Samira já sentia raiva só de ouvir o latido dele. Naquela manhã, depois de escutar quase quarenta minutos seguidos de reclamações porque Pipoca tinha rasgado um saco de lixo e espalhado tudo pelo quintal, ela perdeu a paciência, pegou o celular e ligou para Jean.
A voz dele soou cansada do outro lado da linha, mas ainda suavizou quando percebeu que era ela. Samira tentou manter a conversa objetiva. Disse apenas que precisava da corrente do cachorro porque o animal estava impossível na casa da mãe dela. Só que a resposta dele fez um desconforto estranho surgir imediatamente dentro dela. Jean não disse que levaria a corrente. Disse que iria buscar a corrente do cachorro. A forma como falou ficou martelando na cabeça de Samira por algum motivo que ela não conseguiu entender naquele instante.
Mesmo tentando ignorar aquela sensação r**m, o incômodo continuou crescendo dentro dela o resto do dia inteiro. Quando Jean apareceu no fim da tarde, Samira percebeu imediatamente que havia alguma coisa diferente nele. Não era tristeza, nem raiva, nem insistência como nos outros dias. Era uma calma estranha, silenciosa demais, quase como alguém que finalmente tinha desistido de lutar. Aquilo a deixou desconfortável, mas ela preferiu não pensar muito no assunto.
Depois que ele pegou a corrente, Samira o acompanhou até o portão. Foi ali que Jean segurou seu rosto e a beijou. E ela sentiu na mesma hora que havia algo errado naquele beijo. Não era desesperado como os outros, não tinha insistência, não tinha urgência. Era lento. Profundo. Cuidadoso demais. Como se ele estivesse tentando memorizar cada detalhe dela antes de partir. Os dedos dele acariciavam seu rosto devagar, enquanto a beijava com uma tristeza tão grande que Samira sentiu o peito apertar mesmo sem entender completamente o motivo.
Quando se afastou, Jean pediu mais uma vez que, ao invés de levar a corrente, ela levasse a família dele de volta. A voz saiu baixa, cansada, quase quebrada. Samira desviou o olhar e pediu para ele parar de insistir naquele assunto. Então Jean respirou fundo, como alguém tentando aceitar uma sentença dolorosa, e disse que aquela era a última vez que pediria para ela voltar para casa. Depois perguntou se aquela era sua resposta final.
Samira já estava cansada daquela insistência. Na cabeça dela, Jean estava apenas tentando pressioná-la emocionalmente para conseguir o que queria. Por isso respondeu com frieza que não voltaria para aquela casa. Ainda magoada, ainda ferida demais para esquecer tudo o que aconteceu. Jean ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar se ela tinha certeza, porque depois daquilo não teria volta. Samira revirou os olhos na mesma hora. Achou exagero. Drama. Chantagem emocional barata. Nem passou pela cabeça dela que aquelas palavras pudessem significar algo pior.
Jean apenas assentiu devagar, montou na moto e saiu sem olhar para trás. Samira ainda ficou parada no portão observando ele desaparecer na curva da rua, sentindo um aperto estranho no peito que não conseguia explicar. Só depois entrou novamente na casa da mãe, tentando ignorar aquela sensação r**m crescendo dentro dela.
Foi cerca de quinze minutos depois que a lembrança atingiu ela como um soco. Cíntia tinha saído do hospital naquele dia. O estômago de Samira afundou imediatamente. Porque, se Jean tinha dito que aquela era sua última chance, então talvez estivesse decidido a levar aquela mulher de volta para dentro da casa deles. A simples ideia fez o sangue dela subir na mesma hora. O ciúme, a raiva e a humilhação voltaram com tanta força que ela começou a tremer.
Sem conseguir pensar direito, começou a pedir desesperadamente para alguém levá-la até lá. Precisava ver com os próprios olhos. Precisava ter certeza do que estava acontecendo. Acabou que Marcos, seu cunhado mais velho, aceitou levá-la de carro. Durante o caminho inteiro, Samira ficou em silêncio, apertando as próprias mãos com tanta força que as unhas marcavam sua pele. Uma parte dela ainda acreditava que Jean jamais teria coragem de fazer aquilo. Mas a outra lembrava que ela também nunca imaginou que ele seria capaz de levar outra mulher para a cama deles.
Quando chegaram na casa, tudo pareceu estranho imediatamente. Estava silenciosa demais. Escura demais. Não havia som de televisão, nem luz acesa, nem movimento algum vindo do quintal. A sensação r**m dentro de Samira aumentou ainda mais. Então ela viu um vulto se mexendo perto da porta de vidro. Como o vidro era escamado, a imagem ficava distorcida, mas a impressão que dava era clara demais: parecia alguém transando em pé.
Na mesma hora, o mundo ficou vermelho diante dos olhos dela. Marcos segurou seu braço imediatamente, tentando impedir que ela invadisse a casa naquele estado, mas Samira se soltou com violência. A raiva falou mais alto. Ela abriu a porta bruscamente, já soltando um grito furioso que ecoou pela sala inteira. Marcos entrou atrás dela preparado para segurar a cunhada, impedir alguma agressão, qualquer escândalo que estivesse prestes a acontecer.
Só que o silêncio dela veio antes.
Um silêncio pesado, horrível, completamente diferente da explosão que ele esperava. Quando Marcos olhou para Samira, viu ela paralisada. Os olhos arregalados, lágrimas escorrendo sem que ela sequer percebesse, a boca aberta sem conseguir emitir som nenhum. Foi só então que ele virou lentamente o rosto e viu Jean pendurado no teto, enforcado com a corrente do cachorro. O corpo ainda balançava devagar, os olhos abertos e o rosto arroxeado numa imagem tão grotesca que parecia irreal.
Samira caiu de joelhos no chão sem conseguir respirar. O mundo inteiro desapareceu ao redor dela naquele instante. Não existia mais som, nem pensamento, nem raiva. Só aquela imagem horrível parada diante dos seus olhos. E então Marcos reagiu. Mas, tomado pelo choque, pela dor e pela revolta, ao invés de tentar ampará-la, ele avançou e deu um chute violento nela, gritando desesperadamente que a culpa daquilo tudo era inteira dela.