OITO

1821 Words
Os três meses seguintes ao suicídio de Jean foram os mais difíceis da vida de Samira. Não existia mais raiva suficiente para sustentar o ódio que ela sentia antes. Depois de encontrar o homem pendurado no teto da própria casa, tudo o que sobrou foi culpa, choque e uma tristeza tão pesada que parecia esmagar seus pulmões toda vez que tentava respirar. Ela passava os dias funcionando no automático, cuidando das crianças porque precisava cuidar, levantando da cama porque os filhos dependiam dela, mas por dentro parecia vazia. Como se alguma coisa tivesse morrido junto com Jean naquela sala. Marcos assumiu a frente de toda a situação logo nos primeiros dias. Sabia que, se a morte fosse oficialmente registrada como suicídio, Samira perderia tudo. O seguro não pagaria, ela teria problemas para receber qualquer benefício e ainda ficaria marcada pelo resto da vida como a mulher cujo marido se matou por causa dela. Então ele acionou Deco, que resolveu a situação do jeito que homens como ele sempre resolviam as coisas. Alexis e um desafeto foram enviados até a casa onde Jean morreu. Inventaram uma versão de discussão, alteraram a cena e o desafeto assumiu a bronca pelo assassinato, quitando uma dívida antiga que tinha com a facção dentro da cadeia. Todo mundo sabia a verdade. A favela inteira sabia que Jean tinha tirado a própria vida. Mas ninguém comentava abertamente, porque certas coisas simplesmente não se discutiam quando Deco mandava. E, graças àquela armação, Samira conseguiu receber o seguro, garantir a pensão dos filhos e não ficar completamente desamparada financeiramente. Mesmo assim, aquilo não trouxe alívio nenhum. Porque toda vez que pensava na situação, vinha junto a sensação sufocante de que Jean tinha morrido enquanto ela ainda tentava puni-lo. A casa onde tudo aconteceu virou insuportável para ela. Só de imaginar o corpo dele pendurado ali já sentia vontade de vomitar. Então colocou o imóvel à venda assim que conseguiu organizar a documentação e voltou definitivamente para a casa da mãe, indo morar na pequena edícula dos fundos. O lugar tinha apenas dois cômodos apertados, com paredes mofadas e cheiro de coisa fechada, mas seus irmãos se juntaram para ajudar. Eles mesmos limparam tudo, rasparam as paredes, pintaram, trocaram algumas telhas e improvisaram o melhor espaço possível para Samira e as crianças. Mesmo com o esforço da família, nada parecia suficiente para tirar aquele peso de cima dela. A família de Jean a culpava abertamente pela morte dele. Não importava o quanto Jean tivesse errado antes, para eles, o filho só tinha chegado naquele ponto porque Samira se recusou a perdoá-lo. Diziam que, se ela tivesse voltado para casa, se tivesse dado mais uma chance, ele estaria vivo. Algumas pessoas tinham coragem de falar isso olhando diretamente nos olhos dela. Outras cochichavam quando ela passava. E o pior de tudo era que Samira também pensava aquilo. Ela chorou durante três meses praticamente sem parar. Chorava no banho, chorava lavando roupa, chorava vendo os filhos dormindo e imaginando o trauma que carregariam pro resto da vida. Às vezes acordava no meio da madrugada ouvindo na própria cabeça o barulho do corpo de Jean balançando lentamente preso pela corrente do cachorro. Em outros momentos, lembrava do beijo de despedida que ele deu nela horas antes de morrer e sentia o desespero tomar conta. Porque agora entendia. Entendia cada palavra, cada silêncio, cada olhar cansado que não conseguiu interpretar naquele dia. Rodrigo tentava ajudá-la como podia. Era um dos poucos que ainda fazia questão de arrancá-la da cama, obrigá-la a comer ou simplesmente sentar ao lado dela em silêncio quando as crises vinham. Ele percebia que Samira estava afundando numa depressão perigosa, daquelas que engolem a pessoa devagar até ela parar de se importar consigo mesma. Então insistia para que ela saísse, respirasse, lembrasse que ainda existia vida fora daquela dor. Naquele fim de semana, Rodrigo apareceu decidido. Disse que ia levá-la para um rolê. Samira recusou na mesma hora. Não queria sair, não queria ver ninguém, não queria fingir que estava bem. Só que também começou a perceber o quanto sua tristeza estava destruindo todo mundo ao redor. A mãe andava preocupada, os irmãos tentavam poupá-la o tempo inteiro e até as crianças já olhavam para ela com medo. Então resolveu aceitar. Nem que fosse apenas para fingir uma reação e dar um pouco de paz para quem estava tentando ajudá-la. O que ela não imaginava era que aquele falso rolê terminaria num motel com Alexis. Quando percebeu onde estavam, imediatamente disse que não ia dar, que não ia rolar. Parte dela ainda se sentia errada só de pensar em tocar outro homem três meses depois de ficar viúva. Outra parte ainda carregava culpa suficiente para acreditar que não tinha direito de sentir prazer nunca mais. Só que Alexis sabia exatamente como entrar na cabeça dela. — Na moral, Sereia. Cê gosta mesmo é de sofrer! O Zé Ruela comeu a torradinha magricela na tua casa, cê foi lá e torrou ela. E não teve nenhum problema de dar pra mim na mesma noite. Não achou que foi vacilo, não se arrependeu. Aí o mané fez cü doce, cê segurou o rojão. Depois que o palhaço se colocou na coleira, abrindo mão de tudo isso, cê vai botar esse rabão no cofre? Samira tentou responder, mas Alexis não deixou nem ela organizar os próprios pensamentos. Ele a puxou pela cintura de forma firme e tomou sua boca num beijo intenso, daqueles que confundiam raiva, desejo e provocação. Quando rasgou sua blusa sem pedir licença, expondo quase completamente seus s***s presos apenas pelo sutiã, Samira deveria ter ficado furiosa. Aquilo ultrapassava limites. Não era não. Ele estava claramente impondo a própria vontade. Só que, para sua vergonha, o corpo reagiu completamente diferente da cabeça. Sentiu um arrepio quente descer pela espinha quando Alexis apertou sua cintura e suas costas com firmeza. O jeito bruto dele, a forma como tomava controle sem hesitar, despertava alguma coisa nela que jamais tinha explorado antes. Enquanto ele beijava seu colo lentamente, Samira percebeu que estava excitada. Muito. E aquilo a deixou ainda mais confusa, porque uma parte dela sabia que deveria empurrá-lo, enquanto a outra só queria continuar sentindo. Alexis não desceu até seus s***s. Ela ainda usava protetores por causa do leite, e talvez até ele tivesse percebido que aquilo quebraria completamente o clima. Em vez disso, continuou distribuindo beijos pelo seu pescoço enquanto desabotoava sua calça jeans devagar, como se já soubesse que ela não o impediria mais. Quando percebeu, estava apenas de calcinha e sutiã sobre a cama, observando Alexis tirar a própria roupa sem qualquer vergonha. O corpo dele era grande, forte, marcado. E quando ela viu a ereção dele, sentiu as pernas abrirem quase instintivamente. — Você quer ele, né? Tô vendo que você quer, mas não agora. Mama! Samira desviou o rosto imediatamente. Aquilo parecia absurdo. Nunca tinha feito nada parecido. Sempre achou nojento, vulgar, coisa de mulher que homem não respeitava. Mas Alexis parecia se divertir justamente com sua resistência. Ele puxou a p*****a que prendia seus cabelos encaracolados, deixando os fios caírem sobre seus ombros e colo quase desnudo. Depois segurou sua nuca, beijou sua boca de forma lenta e provocante antes de falar com aquela voz rouca e sedutora: — Você não percebeu, Sereia, que hoje você não se manda? Só vai fazer o que eu mandar, e tô mandando você chupar essa porrä! Samira sorriu de nervoso. Quem ele pensava que era para mandar nela daquele jeito? Na cabeça dela, ainda existia a ideia infantil de que morderia quando ele tentasse encostar nela. Só que Alexis aproximou lentamente o corpo do m****o dos lábios dela, roçando devagar sua boca enquanto a encarava. E então ela percebeu algo ridículo: ele era limpo, cheiroso, cuidadoso consigo mesmo. A imagem nojenta que criou na cabeça simplesmente não combinava com a realidade. Quando ele deixou a pele quente encostada em seus lábios por alguns segundos, alguma coisa mudou dentro dela. A vontade de provocar desapareceu, substituída por uma curiosidade intensa, quase faminta. Foi a própria Samira quem aproximou a boca primeiro. Alexis deixou que ela experimentasse no próprio ritmo, sorrindo satisfeito quando percebeu que a resistência dela estava acabando. E foi ali, ajoelhada naquela cama de motel, fazendo coisas que jamais imaginou fazer, que Samira percebeu o verdadeiro problema do seu casamento. Ela tinha sido a mulher para casar. A certinha. A mãe perfeita dos filhos dele. A dona de casa respeitável. Jean a tratava como alguém que precisava ser protegida, preservada, respeitada. Mas nunca como a mulher do desejo mais sujo, mais intenso, mais proibido. Esse lado ele guardava para outras. Para mulheres como Cíntia. Naquela noite, Samira sentiu como se estivesse quebrando anos de repressão dentro de si. Pela primeira vez, se permitiu experimentar sem culpa, sem vergonha e sem tentar parecer perfeita o tempo inteiro. Alexis a levou para um lugar emocional que ela nem sabia que existia dentro dela. Transaram a noite inteira entre risadas, provocações e uma intensidade que ela nunca tinha vivido antes. E pela primeira vez na vida, Samira teve orgasmos múltiplos, daqueles que deixam o corpo mole e a mente completamente vazia. O mais surpreendente, porém, veio na manhã seguinte. Enquanto ela ainda tentava entender tudo o que tinha acontecido, Alexis começou a falar sobre assumir ela, colocar no nome dele, cuidar dela e das crianças. Aquilo quase fez Samira rir, porque era exatamente o tipo de conversa que ela menos queria naquele momento da vida. Então interrompeu antes que ele criasse expectativas demais. — Na boa FD, eu tive uma noite incrível. Foi muito proveitoso e agradável. Mas é só isso entre nós. Somos de mundos diferentes, situações diferentes. Eu não posso chegar com alguém como você na minha casa e apresentar pros meus filhos, três meses depois de ficar viúva! Eu não quero parecer arrogante, mas essa é a nossa situação! Eu estou tentando me encontrar, e não estou procurando nenhum tipo de relacionamento. Segura essa emoção, porque se de repente rolar de novo entre nós, posso até aceitar. Mas se você entender que é só isso! Não tem essa de, se me ver com outro cara, me estoura, eu no seu nome, mulher de bandido. Alexis ficou olhando para ela por alguns segundos antes de sorrir daquele jeito preguiçoso e debochado que sempre fazia. — Aí, Sereia. Sempre fui parado na sua, desde o tempo da chatice da escola. Nunca pensei que a gente pudesse se trombar assim. Se é o que você quer, na moral, qualquer paixão me diverte! E foi assim que Samira começou uma relação escondida com o gerente da boca. Sem promessas, sem cobranças e sem obrigação nenhuma. Pela primeira vez em meses, ela voltou a sentir alguma coisa além de tristeza. Estava se divertindo horrores. Só que a paz na vida dela nunca durava muito. Porque menos de quinze dias depois, sua próxima tragédia chegou.
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