Capítulo 1: O Gosto de Domingo e Promessas de Infância
Onde o passado e o presente se fundem na simplicidade de um café da manhã.
O sol de domingo tinha uma maneira muito específica de invadir o apartamento. Não era uma luz agressiva, daquelas que despertam a cidade com o peso das obrigações, mas um feixe dourado e preguiçoso que filtrava pelas frestas da cortina de linho cru, desenhando linhas luminosas sobre o lençol bagunçado.
Maya esticou os braços, sentindo o tecido fresco sob os dedos, antes que os seus sentidos fossem completamente despertados pelo ambiente. Primeiro, veio o aroma forte, encorpado e inconfundível de café fresco passando na caneca de cerâmica. Logo em seguida, como uma trilha sonora perfeitamente sintonizada com a manhã, o dedilhar suave de um violão e a voz de Caetano Veloso ecoaram baixo, vindos da cozinha integrada.
Ela sorriu contra o travesseiro. Aquele era o gosto do domingo.
Ao se levantar, os pés descalços encontraram o taco de madeira morno pelo sol. Maya caminhou a passos lentos pelo corredor curto do pequeno apartamento. O espaço era um reflexo exato dos dois: uma mistura caótica, mas harmoniosa, de móveis de palha garimpados em feiras de antiguidade, uma profusão de jiboias e suculentas que Maya tentava — com um otimismo quase heroico — manter vivas, e paredes adornadas com molduras desalinhadas que guardavam bilhetes de cinema, ingressos de shows esquecidos e fotografias analógicas.
Quando dobrou a quina que dava para a cozinha, a cena que encontrou a fez parar e cruzar os braços, apoiando-se no batente da porta.
Caio estava de costas para ela, concentrado diante do fogão. Ele vestia uma bermuda de moletom cinza e aquela camiseta azul-escura desbotada, com um furo perfeitamente circular no ombro direito.
— Eu já disse que essa camiseta deveria ter virado pano de chão em 2022, Caio — Maya disse, a voz ainda levemente rouca pelo sono, mas carregada de uma diversão implícita.
Caio deu um leve salto, claramente pego de surpresa, e virou-se com uma espátula de silicone em punho. Um rastro de farinha decorava a bochecha esquerda e o topo do seu nariz.
— Primeiro: bom dia, meu amor — ele respondeu, abrindo um sorriso largo que fazia os olhos se espremerem nos cantos. — Segundo: essa camiseta tem valor histórico e sentimental. Ela estava comigo quando eu mudei para a casa ao lado da sua, quando eu quebrei o braço caindo do pé de amora e, mais importante, ela me dá sorte na cozinha. O que me leva ao terceiro ponto... veja e aprenda.
Com um floreio dramático digno de um chef de televisão, Caio balançou a frigideira para frente e para trás, tentando fazer a panqueca que estava no centro dar uma cambalhota perfeita no ar.
O plano, contudo, falhou miseravelmente. A massa, ainda um pouco úmida no topo, subiu em um arco desajeitado, bateu na borda do exaustor e caiu de volta na panela como um disco amassado e irreconhecível.
Maya soltou uma gargalhada alta, cobrindo a boca com as mãos, enquanto Caio olhava para o desastre com uma expressão de pura indignação culinária.
— Sorte na cozinha, é? — ela provocou, aproximando-se.
— O exaustor claramente se moveu alguns centímetros para baixo durante a noite. É uma questão de física, física pura — ele justificou-se, largando a espátula e envolvendo a cintura de Maya com os braços assim que ela chegou perto o suficiente.
— Sei. Física — ela murmurou, envolvendo o pescoço dele e deixando um beijo terno na bochecha enfarinhada, ignorando o pó branco. — Bom dia.
— Bom dia. Apesar do atentado contra a culinária moderna, o café está perfeito. Eu garanto.
Duas Vidas em uma Caneca
Enquanto Caio tentava salvar o que restara das panquecas — que, apesar do formato geométrico questionável, tinham um gosto honesto de baunilha e açúcar —, Maya serviu duas canecas pesadas de cerâmica artesanal.
Eles se acomodaram na mesa de madeira de demolição perto da janela, o único lugar do apartamento onde o sol batia por completo àquela hora da manhã. Sentados ali, com as pernas entrelaçadas por baixo da mesa, o tempo parecia desacelerar. Era uma i********e construída não em meses, mas em décadas.
"Sabe o que eu estava pensando enquanto o café passava?", Caio perguntou, soprando a fumaça da sua caneca. "Do dia em que o caminhão de mudança do meu pai travou a rua inteira. Você estava na calçada, com duas chiquinhas no cabelo e um pirulito de cereja na boca, me olhando como se eu fosse um alienígena."
"Você parecia um alienígena", Maya rebateu, rindo. "Estava usando um boné virado para trás maior que a sua cabeça e carregando uma caixa cheia de gibis rasgados. Mas eu lembro de ter pensado: 'Pelo menos ele tem cara de quem sabe andar de bicicleta'."
Eles sabiam tudo um do outro. Maya conhecia a cicatriz exata no joelho esquerdo de Caio de quando ele tentou descer a ladeira da rua deles em um carrinho de rolimã sem freios. Caio sabia que, quando Maya ficava genuinamente nervosa, ela roía a ponta do dedão esquerdo e começava a falar duas vezes mais rápido.
Eles haviam compartilhado os verões quentes da infância com mangueira de jardim, os silêncios desconfortáveis da pré-adolescência e, finalmente, aquela noite chuvosa de outono, aos dezesseis anos, sob a cobertura do ponto de ônibus deserto. O primeiro beijo deles tinha sido desajeitado, com gosto de chiclete de hortelã e o som de trovões ao fundo, seguido por cinco minutos de um silêncio apavorado de quem temia ter estragado a melhor amizade do mundo.
Mas não estragaram. O amor deles não havia sido uma explosão repentina ou um drama de cinema; fora uma transição natural, como as estações do ano se fundindo umas nas outras. O melhor amigo tinha se tornado, sem esforço, o amor de sua vida.
O Caderno dos Sonhos
Depois que os pratos foram limpos e apenas o fundo das canecas de café restava, Caio esticou o braço até o aparador e puxou um caderno de capa de couro desgastada, cujas bordas das folhas já estavam levemente amareladas.
Na capa, escrito com a caligrafia redonda de Maya anos atrás, lia-se: O Caderno dos Sonhos.
Aquele caderno era o santuário deles. Nele, registravam não apenas os desejos abstratos, mas as metas pragmáticas, os cálculos de planilha e os prazos que estipulavam para a vida que estavam construindo, tijolo por tijolo.
Caio abriu o caderno na página marcada com um marcador de páginas de tecido. Ele pegou uma caneta esferográfica azul e apoiou os cotovelos na mesa, os olhos brilhando com uma seriedade bonita.