Horas depois…
A ruiva acordou desnorteada e, ainda com a caixa em mãos, decidiu que iria tentar entender a história dos pais. Ela releu a carta mais duas vezes e, sem sucesso na investigação, mandou uma mensagem para Gustavo.
_“Gus, boa noite, quando tiver um tempo, pode me ajudar com algo, please? É importante”
Não demorou muito até que a resposta viesse:
_“Boa noite, Mari, terminei de estudar, agora tenho um tempo livre, pode dizer.”
_ “É que eu queria saber sobre Isaac e Rebeca, minha mãe citou Gênesis 24, isso te diz algo?”
_“ Ah,claro, diz bastante, mas você quer a versão completa ou resumida?”
_ “Eu quero a completa, mas vai te atrapalhar? Se for, melhor a resumida.”
_ “Não se preocupe, só acho que não conseguiremos fazer esse estudo em apenas um dia, é bastante coisa. Posso te ligar?
_ “Claro. E, eu também não me importo em quanto tempo vai levar, estou bastante curiosa.”
Após a última mensagem, Marianna aguardou alguns minutos até ouvir seu celular tocar, o visor acendeu e identificou o nome: Gustavo.
_ Alô, foi aqui que pediram um estudo da vida de Isaque e Rebeca?
_ Sim, senhor, pode me ajudar? _ Apesar da pergunta ser real, Mariana soltou uma risada ao escutar a voz de seu melhor amigo.
_ Claro que sim, tem uma caneta e um caderno? Caso queira anotar.
_ okay, só um minuto. Pronto, peguei.
_ Vamos fazer uma oração primeiro?
_ Tá bom, mas eu ainda não sou boa nisso.
_ É só dizer para Deus o que vamos fazer e o motivo, peça sabedoria para que possamos entender o estudo.
_ Combinado.
Em seu pensamento, Marianna fez a oração com certa estranheza:
_ “Então, é, Deus, a gente vai fazer um estudo sobre a vida de Isaque e Rebeca, eles foram importantes para minha mãe e meu pai, quero descobrir o motivo e também vai ser uma boa experiência conhecer um pouco de como foi a vida dos meus pais. Ah, eu peço também, se não for pedir muito, sabedoria para entender. Amém.”
_ Terminei, Gus! _ A voz dela saiu mais animada do que de costume.
_ Então, vamos começar! Ah, só para você fixar: alguns costumes da época vão te causar estranheza, ok? Antes de falarmos de Isaque, precisamos entender o que o levou a se casar com Rebeca: a sua obediência a Deus e a seu pai, Abraão. Eles viveram por volta de 1800 A.C. Abraão (que antes tinha seu nome de Abrão) temeu a Deus e obedeceu quando Ele disse que deveria ir a um lugar que o pai de Isaque nem sabia onde ficava. Sara (que antes era Sarai) era uma mulher estéril e, naquela época, não poder dar filhos ao esposo significava um tipo de desonra.
_Que loucura! Como se isso pudesse ser controlado. _ Marianna interagiu de forma espontânea e Gustavo sorriu.
_ Exatamente, mas aquela era a mentalidade da época sabe?
_ Claro, claro, desculpe.
_ Não, está tudo bem, gostei da sua interação, pode ficar à vontade.
Respirando fundo para recuperar o fôlego, Gustavo voltou a falar:
_ Bom, Sara não podia ter filhos, mas Deus fez uma promessa a Abraão de que ele seria pai de muitas nações. Parece loucura, mas Abraão acreditou! Mesmo com a promessa, Sara convenceu seu marido de que ele deveria se deitar com a sua serva. Sim naquela época, havia servos e servas, mas esse costume eu te explico depois. Depois que a criança nasceu, Deus falou novamente com Abraão afirmando que Ismael (o filho dele com a serva) seria abençoado, mas não era o filho da promessa.
“Isaque, o filho da promessa, nasceu quando Sara tinha 99 anos e Abraão, 100. Ele cresceu ouvindo os ensinamentos do pai e guardou eles para praticar. Quando Abraão já estava ficando velho, ele pediu para o servo dele ir até a terra de Abraão (lembra que ele havia saído do meio da parentela?) para buscar uma mulher que fosse de acordo com os costumes deles para se casar com Isaque."
_ É onde Rebeca entra na história, né?
_ Isso mesmo, o estudo sobre a vida deles é bem longo. Eu peguei a análise do livro “Através da Fé” e cada capítulo descreve as atitudes deles, muito bom mesmo! Voltando à história, o servo obedeceu e saiu para a terra de Harã para encontrar a futura esposa de Isaque.
Quando a ligação ficou muda, Mari resmungou, tamanho era sua curiosidade em continuar a história.
_ Desculpe, era minha mãe, ela está me chamando para jantar.
_ Tudo bem. _ O tom de voz de Mariana denunciou sua frustração.
_ Mas, depois do jantar podemos continuar. _ Gustavo sugeriu, animado.
O brilho voltou ao olhar de Marianna com a possibilidade de avançar na investigação sobre a vida dos pais.
_ Certo. _ Ela respondeu, feliz.
Os dois desligaram e, enquanto Mariana decidiu assistir a um programa de TV, Gustavo desceu para se unir a sua família. Os quatro oraram e jantaram enquanto conversavam de forma descontraída. Em um determinado momento, Leandra perguntou com quem gostava estava conversando e o rapaz, sem hesitação, respondeu que era com Mariana.
Os pais do aspirante a nadador se entreolharam de forma preocupada, enquanto Angel tinha um sorriso genuíno no rosto. Ela sabia bem o que essa aproximação significaria num futuro não tão distante.
_ Pai, mãe, não se preocupem, não estou fazendo nada de errado. Mari e eu estamos estudando a história de Isaque e Rebeca. _ Gustavo interveio quando percebeu a expressão facial dos pais.
_ Sabemos que você não está fazendo nada de errado, só estamos preocupados porque a Mariana, apesar de ser uma menina decente, não possui os mesmos princípios que te ensinamos. _ Lorenzo disse.
_ E também estamos preocupados que a aproximação de vocês possa resultar em uma desilusão futura ou em um relacionamento em jogo desigual. _ Leandra continuou quando o marido terminou de falar.
_ Me desculpem, mas não podemos pensar, nem por um momento, na possibilidade de conversão dela?
O rapaz já estava com esse questionamento na mente desde a primeira visita de Marianna à sua igreja.
_ Podemos sim, desde que a conversão dela seja baseada em Cristo. Mas, até lá, tome cuidado, meu filho.
_ Certo.
Com essa resposta e o balançar de sua cabeça em um aceno positivo, Gustavo deixou o assunto no ar.
Sabendo que o clima estava um tanto quanto constrangedor para o seu irmão, Angel decidiu falar sobre o projeto interdisciplinar da faculdade que ela e as amigas estavam fazendo. O assunto rendeu boas risadas, pois da forma animada como a filha mais velha dos Smith narrou as entrevistas contagiou o ambiente.
Quando o momento em família terminou, Gustavo ainda tinha dúvida se deveria ou não continuar o estudo junto com sua amiga. Ele subiu as escadas, depois de escovar os dentes, se despediu dos pais e da irmã e foi para o seu quarto.
_ “Quando terminar, pode me chamar, estarei esperando.”
A mensagem era de Marianna e foi suficiente para sanar a dúvida que o rapaz tinha. Seus pais não proibiram de falar com ela, certo? Certo!
_ “Voltei, onde estávamos?”
Não demorou muito e a resposta veio:
_ “Você disse que o servo de Abraão foi para Harã em busca da esposa de Isaque. O que vem depois?”
_ “Certo. O servo de Abraão chega em Harã e, lá, ele fez uma oração bem simples. Ele pediu para que a moça que fosse a certa tivesse algumas características específicas.”
_ “Ai, eu estou curiosa para saber quais são as características!”
_ “Uma das características é que quando ele fosse pedir água, ela se mostrasse uma pessoa disposta e proativa, ou seja ela iria se oferecer para dar água aos cabelos também.”
_ “Espera, isso faz muito sentido. Proatividade, minha mãe costuma citar essa expressão quando fala do meu pai.”
_ “Não entendi, até agora você não me disse o motivo desse interesse por Gênesis 24.”
_ “Podemos continuar o estudo? prometo que quando tudo assim que concluirmos.”
_ “Certo. Vamos continuar.”
_ “okay, você disse que ela era proativa, o que mais?"
_ “Rebeca despertou a admiração do servo de Abraão por ser uma pessoa decidida, assim que perguntaram sobre a proposta de casamento com Isaque ela disse ‘sim’, não porque talvez estivesse desesperada, mas porque sabia o que queria.”
_ “Não acredito, isso faz muito sentido. Tem mais características?”
_ “Tem. Ela se preservou. Rebeca, apesar de ser decidida, sabia também que o primeiro passo deveria vir de Isaque e foi o que aconteceu. Quando o servo de Abraão disse que o homem que estava ali era Isaque, Rebeca cobriu o seu rosto.”
_ “Espera, eu sei que era um costume daquela época, mas o que significava isso de cobrir o rosto?”
_ “Segundo a lei judaica, a mulher judia deveria cobrir seu corpo e cabelo como forma de recato e respeito. Considerando isso, Rebeca demonstrou - com essa atitude - que ainda não era esposa de Isaque, portanto ele não poderia conhecê-la antes.”
_ “Nossa, muito interessante! Você fez um estudo mesmo sobre o assunto.”
_ “Sim, eu gosto de estar informado sobre os costumes da época bíblica.”
_ “Que legal. E depois disso?”
_ “Tem uma característica a mais, a última que encerra o estudo.”
_ “Qual?”
_ “Rebeca não teve medo de ser amada.”
Marianna respirou fundo ao ler a última mensagem pela notificação. Era como se fosse um soco no seu estômago. Conhecia a mãe como ninguém e sabia de sua ousadia e amar, mas, principalmente, em se deixar ser amada. Ao contrário de Irma, a filha não possuía a mesma confiança no amor. A notificação de uma nova mensagem despertou Marianna.
_ “Desculpe, eu não quis fazer parecer como se fosse sobre nós.”
_ “Tudo bem, eu entendi o que quis dizer, só estava pensativa.”
_ “Quer falar sobre o motivo de ter se interessado por Gênesis 24?”
_ “Sim. Eu encontrei uma caixa com alguns pertences do meu pai. Também encontrei uma carta da minha mãe endereçada a ele, falando sobre eles serem Isaque e Rebeca. Minha mãe geralmente não fala do meu pai, então quis investigar por conta própria."
_ “Entendi. Realmente, você tem todo o direito de saber mais sobre seu pai, mas não pensa em perguntar à sua mãe? Fazer uma última tentativa antes de investigar? Talvez ela fique chateada, caso descubra o que você está fazendo sem que ela saiba.”
_ “Você tem razão, eu deveria perguntar mesmo. Obrigada pela ajuda, de verdade.”
_ “De nada. Agora, eu preciso ir.”
_ “Até amanhã”.
Os dois se despediram, mas, na mente de Gustavo surgiu uma certeza de que ele precisava se afastar o mais rápido possível ou o seu coração começaria a comandar suas ações.