CAPÍTULO OITO- UMA CARTA

1003 Words
Atualmente _ … Mas, a Anna tem me ajudado bastante, não é, Anna? Anna? Anna, você está muito aérea hoje!_ Gustavo comentou de forma descontraída. A estudante de direito voltou a si um pouco desnorteada. Desde que viu o carro de Otávio naquele mesmo dia, a mente de Anna ficou turbulenta. Ela tentou sorrir, mas o que conseguiu foi uma careta engraçada, que arrancou uma expressão confusa de Angel. _ Oh, me perdoem, estou com alguns processos em mente! _ Anna deixou a fala no ar. Leandra, Lorenzo, Angel, Gustavo e Ana foram a um restaurante próximo à igreja para fazerem a refeição juntos. Gustavo falava do quão empolgado estava por trabalhar em processos judiciais, principalmente pela insegurança de não ser, de fato, um advogado. _ O almoço foi maravilhoso, pessoal, muito obrigada! _ Anna agradeceu, indo embora. Depois que a família Smith deixou a estudante de direito mais nova em seu apartamento, eles foram para casa juntos. No momento que estão voltando para casa, Gustavo começou a pensar em Marianna e no que ela estaria fazendo. Enquanto isso… Marianna passou o dia inquieta em casa. Depois da refeição, a mãe e ela combinaram de assistir a um filme juntas, mas o telefone de Irma tocou, era uma emergência que a mulher precisava atender no hospital. A mãe de Marianna se desculpou e prometeu que as duas teriam mais tempo para passar juntos quando a mesma conseguisse as tão esperadas férias. Marianna foi para o seu quarto e tentou se concentrar na matéria da faculdade, mas não obteve sucesso. Aproveitando que seu padrasto havia saído, Marianna foi até o quarto da mãe com cuidado para ver se encontrava algo que incriminasse e Caleb. A jovem adulta começou a procurar nos lugares mais prováveis (armário do banheiro que tinha na suíte, guarda-roupa disposto no canto esquerdo do quarto e até embaixo da cama). Ao olhar neste último, Marianna avistou uma caixa de sapatos média em um canto e, curiosa que era, não se contentou em apenas observar, logo, puxou a caixa para si. Dentro da caixa havia alguns papeis, fotos e acessórios. Antes que a estudante de ti conseguisse ignorar os papeis, a assinatura da mãe saltou os seus olhos. Era a carta de Irma endereçada a um nome elegível. O nome do destinatário parecia rasurado, como se o envelope tivesse sido violado. Marianna olhou para a porta, decidindo o que ia fazer. Concluiu que a melhor coisa a se fazer seria levar a caixa para seu quarto. A garota se levantou e caminhou até o cômodo que decorou do seu jeito. Abrir a carta era a parte fácil do processo, difícil mesmo foi segurar as lágrimas ao perceber que a carta era destinada ao seu pai. O homem de quem a mãe tão pouco falava tinha uma caixa guardada com seus pertences: boné favorito, camisa que mais usava e… _ Um distintivo? _ Marianna perguntou em voz alta. Embaixo do acessório, havia um uniforme de policial e, quando Marianna levantou a roupa, avistou um buraco próximo ao vão em que se encaixaria o pescoço. A ruiva voltou-se para a carta outra vez. As letras estavam manchadas, mas eram legíveis, o que permitiu ler cada palavra e entender toda a dor e aversão que a mãe sentia. As primeiras palavras já a emocionaram: “ Olá, eu… para dizer a verdade, nem sei como começar essa carta, também não sei o motivo de escrevê-la, já que você nunca lerá. Acho que, no fundo, eu sei que preciso desabafar ou não aguentarei tudo que está me corroendo. Faz três anos que você se foi, Marianna já tem seus 9 anos e ontem me perguntou novamente sobre você. Tive que explicar que você não vai mais voltar, foi um choque para a nossa pequena, ela pensava que você estava em uma viagem de trabalho muito longa. Ela chorou no quarto até dormir. Eu fico me perguntando: o que fiz de tão errado para Deus me castigar? O que a Mari fez? Não é possível que a sua morte esteja nos planos da tão boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Isso que mais me incomoda: íamos aos cultos todos os domingos, você participava das orações, era mais frequente que eu, gostava de falar com Deus, orava, lia a Bíblia e qual o resultado disso? Um tiro no peito disparado por um bandido que nunca foi detido. Arquivaram o caso, não tiveram a mínima consideração pelos seus dez anos de serviço na polícia. Simplesmente arquivaram. E quanto ao pessoal da igreja? Tudo que eu vi foi ‘eu entendo sua dor, querida, mas agora ele está em um lugar melhor’. Essa é a forma que encontraram para justificar a morte? Seja como for, eu não aceito. Você era o meu Isaque, eu era sua Rebeca. Gênesis 24, lembra? Fomos feitos um para o outro, uma conexão de olhares, tudo. E agora me sinto como Noemi, amargurada e sem marido. Depois de um tempo, eu parei de tentar entender os propósitos, apenas desacreditei de tudo o que era dito, passei a não achar motivos para ir aos cultos e parei de vez. Sei que você ficaria decepcionado, mas não posso criar minha filha em torno de uma expectativa de que tudo que acontece é para um bem quando, na verdade, o pai dela, que era tão crente nas palavras de Jesus, foi assassinado por um homem c***l e sem escrúpulos. Eu não consegui. Não consegui ser a mulher que você tanto orava e não consegui ser a mãe que a Mari tanto precisa. Eu não consegui ser a sua Rebeca, a Rebeca que a bíblia descreve de forma tão bonita. Me perdoe, eu não pude ser quem você precisou. Espero um dia te encontrar e te abraçar novamente. Te amo além da morte, Att, Sua (quase) Rebeca.” Marianna chorou desde a primeira palavra até a última. A cada frase parecia que uma facada era fincada em seu corpo. Ela se deitou na cama e adormeceu abraçada àquela carta.
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