CAPÍTULO SETE- A HISTÓRIA DE ANNA

2869 Words
_ Acho que ela não gostou de mim. _ Anna comentou por alto com Angel, que a olhou com um sorriso. _ O problema não é você, a Mari é bem fechada, mas é uma ótima pessoa! _ Sei disso pelo tanto que ouvi a respeito dela pela boca de Gus. _ Você e Gus se aproximaram bastante em apenas uma semana…_ A melhor amiga de Marianna espremeu os olhos. _Sim, ele tem me ajudado, mas é só isso. _ Anna rebateu na mesma hora. _ Eu sei, estava só te testando. _ Angel sorriu pela primeira vez de forma ampla desde que conheceu Anna. _ Sinto que você também não gosta de mim. _ Você e minha mãe passam horas juntas, ela vive falando de você. _ Verdade? Eu gosto muito da sua mãe, ela me acolheu melhor do que a minha família. _ Eu sinto muito pelo mau jeito, vou te deixar rouba-la só um pouquinho, hein! As duas riram até a jovem adulta Anna olhar para um carro e empalidecer. Angel, percebendo a reação da recém amiga, tocou-lhe no ombro e a trouxe de volta à realidade. _ Está tudo bem? _ A irmã de Gustavo perguntou, preocupada. _ Si-sim …está tudo bem. _ a jovem respondeu recuperando fôlego. _ Que tal se formos para um restaurante? _ a mãe de Angel apareceu de repente pegando ambas de surpresa. _ Eu topo! Só vou pegar minha bolsa. _ Angel respondeu e caminhou para o lado de dentro do local. _ Era ele? _ A pergunta foi direta, mas clara o suficiente para Ana entender. _ Sim. Será que me reconheceu? _ A recém advogada perguntou, com as mãos tremendo e suando. _ Acredito que não, ou teria ficado surpresa, já que imagina que está morta. _ Já sei quem pode me ajudar com isso. Discando o número que já sabia de cor e salteado, Anna esperou pacientemente que a tal pessoa atendesse. _ Alô? _ A voz do outro lado da ligação parecia confusa. _ Henry, preciso de respostas. _ Diga priminha! _ Otávio suspeita que estou viva? Ou alguém da minha família? _ as perguntas saíram atropeladas da boca de Anna, a mulher estava aflita. _ O que? Não! Ele continua passando a imagem de luto infinito, mas sai toda noite com uma mulher diferente. Seus pais… bom, eu sei que são meus tios, mas… _ Henry oscilou na hora de responder. _ Diga, primo, nós dois sabemos que eles só agem pelas aparências e status social. _ Bom, eles fizeram diversas entrevistas expressando o amor deles por você, se é que posso chamar isso de amor. E hoje inauguraram uma creche com seu nome. Mas, vivem normalmente, nem mencionam seu nome fora do alcance das câmeras. Ah, claro, apenas para dizer que você sofreu consequência de sua traição. _ E pensar que eu tenho o sangue deles. _ Uma lágrima escorreu pelos olhos de Anna. Leandra Smith, mãe de Angel e chefe de Anna, não escutou o que o primo disse, apenas o que saiu dos lábios de Anna e isso bastou para entender a dor de falar dos pais. Leandra se aproximou da filha de consideração e pôs a mão no ombro de Anna, expressando seu apoio. Anna se virou e olhou nos olhos da única mulher que considerava a sua mãe. Com os olhos marejados, a advogada mais nova fez um pedido silencioso e recebeu um abraço apertado. _ Obrigada, não só pelo abraço, mas pelo acolhimento. _ A advogada Rodrigues agradeceu, secando as lágrimas. _ Você é minha filha agora, ou se esqueceu? Gestos como esse são o mínimo que eu devo fazer por você. _ A senhora Smith acariciou o rosto da jovem e sorriu de forma aberta. Angel, que estava voltando já com a bolsa em mãos, escutou a última fala da mãe e torceu os lábios sentindo um monstrinho chamado “ciúmes” acordar. _ Ainda não entendo como acreditou em mim, mesmo antes de eu apresentar provas. Quando ouviu o que Anna havia dito, Angel sentiu-se uma intrusa, pois estava invadindo a privacidade da recém amiga, não era correto e a garota sabia disso. Por esse motivo, a mesma se afastou delas tomando o máximo cuidado possível. _ É claro e eu acreditei em você, vi verdade em seus olhos. Por que não acreditar? O máximo que poderia acontecer era eu estar errada. _ Hoje, eu sei o que é realmente ser livre. E pensar que tive que fingir a minha morte para ter liberdade longe da minha própria família. Na sala, as duas sentaram-se no sofá e Anna se acalmou enquanto tentava a todo custo tirar as lembranças ruins da mente, um passado em forma de pesadelo que começou desde que Otávio Hulse atravessou seu caminho. 2 anos antes _ Otávio e eu estamos noivos! A comemoração foi geral, mas por motivos diferentes: Anna por ter pensado em encontrar a felicidade, os pais pela ascensão social que embarcariam e Otávio por finalmente ter encontrado a vítima, ou melhor, a esposa, perfeita. Infelizmente, Anna só se deu conta do que estava acontecendo quando a primeira agressão ocorreu. _ Eu te falei que não sou i****a, eu vi aquele abraço. _ Otávio disse, em um ataque de fúria, enquanto Anna estava no chão e limpava a boca, após cuspir o sangue. _ Que-que abraço? _ A noiva gaguejou, com a mão no rosto, horrorizada. _ O abraço que você deu naquele Henry, acha que não reparei, em? _ Ele disse, aos gritos, enquanto puxava os cabelos dela. _ Henry é meu primo, crescemos juntos como ir-irmãos. _ A última palavra saiu entrecortada devido a dor que a garota sentiu. _ Mas, vocês não são irmãos. Não te quero perto dele, me ouviu? Ou ele vai desaparecer. _ Otávio se aproximou do ouvido de Anna e sussurrou de forma assustadora. *** O toque de Leandra fez Anna retornar para o seu presente. Secou o rosto, mais uma vez banhado por lágrimas, e sentiu-se grata, mesmo estando com medo de um novo ataque. _ Melhor? _ A advogada mais experiente perguntou. _ Melhor. _ Anna respirou fundo e se recompôs. _ Então é melhor mudarmos de assunto. _ Quem já decidiu para onde iremos? _ Angel disse, de uma longa distância para dar tempo às duas. *** _ Eu quero ir à casa dos meus pais… _ A fala de Anna fez com que Otávio largasse o garfo sobre a mesa. _ Sozinha? Vai fazer o que lá sem mim? _ Os olhos do noivo a intimidaram por um momento. _ Claro que não, mas você não gosta de visitar minha família e você trabalha bastante então… me desculpe, é que eu não sabia como começar o assunto. Podemos ir? _ Por que o interesse repentino? _ Otávio Hulse respirou, irritado. _ É que já faz 4 meses que não os visito e amanhã é o aniversário do meu pai. _ Tudo bem, vamos visitá-los, mas será uma visita rápida, ficaremos apenas uma hora. _ Obrigada. _ o olhar amedrontado, porém tomado de uma esperança, de Anna Andrade desviou-se para o chão. Os dois se levantaram assim que terminaram a refeição. A jovem de dezoito anos suspirou aliviada quando Otávio declarou que estava cansado. Apesar de ele nunca dizer aquelas palavras, Anna não estranhou e disse que iria se deitar em um instante, disfarçando o sorriso de felicidade, iria fugir no dia seguinte. Não demorou muito a se juntar a seu noivo no quarto e pegou no sono com facilidade. No dia seguinte… Otávio acordou primeiro que a noiva e deu-lhe um beijo rápido na testa. Anna fingiu se espreguiçar e forçou um sorriso para o homem. _ Eu vou precisar trabalhar, mais tarde nos encontraremos. _ Ele disse, acariciando o rosto da futura esposa. _ Tudo bem, vou te esperar. Ela sorriu mais uma vez, quase era possível ver a felicidade de se livrar do abusador, mas ela conseguiu reprimir. A jovem adulta se levantou e fez menção de acompanhá-lo até a porta da casa, mas ele selou seus lábios aos da menina e se despediu ali mesmo. Anna Andrade esperou até ouvir o barulho da porta e contou até cinco para ter certeza de que o noivo já estava longe o suficiente. Ela pegou o celular e colocou no bolso, antes de qualquer coisa. Após isso, ela bateu palma três vezes bem baixinho junto a um gritinho aliviado. A porta do quarto estava aberta, mas isso já não era importante para a jovem Anna. Ela se levantou e agachou-se para olhar debaixo da cama, mas ver o espaço vazio a deixou confusa. De repente, os olhos dela se arregalaram ao sentir seu cabelo ser puxado para trás. O pânico começou a tomar conta de Anna quando percebeu o que estava acontecendo: havia sido descoberta e sabia que Otávio não teria dó dela. O único pensamento de Anna naquele momento era apertar o botão de emergência que havia baixado, no momento que sofresse a próxima agressão. Nisso, o celular começou a gravação: _ Quando sua mãe me ligou falando do aniversário do seu pai e afirmando que eu não precisaria me preocupar com Henry, pois ele estaria viajando com uma possível namorada, eu estranhei… A essa altura, a jovem Andrade já estava aos prantos e lutava para se soltar das grandes e malvadas mãos do empresário Hulse. Ele não parecia se importar com os arranhões dela em suas mãos. _ Mas, ver a sua mala embaixo da cama, quando claramente disse que só ficaríamos durante uma hora, me fez perceber tudo. _ Não é o que você está pensando, Henry e eu não somos amantes. _ Eu sei que não são. _ Otávio virou- se de frente para a noiva e sorriu: _ mas não é isso que a sua família vai pensar depois de ver as fotos que mandei editar. _ Seu... _ Cala a boca! O noivo deu-lhe um tapa e cuspiu na face da jovem. Ele, então, arrastou até um quarto que ele simulava ser do filho que supostamente queria ter e a jogou contra a cama de solteiro que havia ali. Depois, o homem pegou o cinto de couro que Anna tanto temia. Com o sorriso mais sínico de toda a sua vida, Otávio passou a mão, como se estivesse afiando cinto, e começou o seu momento de tortura: _ Qual é a regra número um de “Como ser uma boa esposa?” _ Ser fiel. _ Ela disse, torcendo para ter acertado, já que ele sempre mudava a regra apenas para maltratá-la. _ Errou. De. Novo. _ Ele balançou a cabeça como um "não” de resposta. _ A regra número um é “jamais abandone seu noivo e o ame acima de qualquer coisa”. Péssima memória, docinho, vamos ver se aprende com o castigo. Mais uma vez, como em tantas outras, Anna Andrade foi agredida e torturada por seu noivo, que era um homem acima de qualquer suspeita e que todos admiravam. A partir das agressões com cinto e Anna tentando a todo custo sair daquela situação, Otávio ficou mais furioso e a golpeou de forma que o couro do cinto fez em Anna uma ferida que alcançou desde a altura do ombro até a cintura. Sangue começou a jorrar das costas da jovem e ela urrou, sentindo-se derrotada. Percebendo que havia atingido o auge da dor em sua noiva, o homem caminhou a passos largos e jogou gasolina pelo quarto, a vasilha que até então Anna não havia notado. _ O que… o que é isso, Otávio? Anna perguntou, mesmo já sabendo a resposta, enquanto planejava uma forma de sobreviver aos ataques do noivo. _ Antigamente, as pessoas costumavam colocar fogo em mulheres que praticavam bruxaria, traição ou heresias. Adivinhe em qual dessas categorias você se encaixa, querida! _ Hulse disse tudo com a maior naturalidade, enquanto acendeu o fósforo em suas mãos. _ Por-por favor, eu im-plo-ro… _ Anna tentou se mover, mas a dor era excruciante. Seu coração acelerou quando viu o fogo se alastrar. Otávio sorriu e, olhando bem nos olhos da noiva, disse: _ Adeus, meu amor! Enquanto no quarto de hóspedes o fogo se alastrava, Otávio foi ao quarto de casal, pegou seus pertences mais valiosos e saiu da casa pelas portas dos fundos tranquilamente, onde a câmera de segurança não o havia captado voltando à sua casa. Como um ótimo ator, ele voltaria horas mais tarde com muitos álibis e faria uma cena digna de um filme dramático, simulando o choque pelo suicídio da noiva, agora em cinzas. O que ele não sabia era que Anna estava com o celular no bolso. Assim que o alcançou, apertou o número de emergência, era o de Henry, que estava há três ruas da casa da prima. Acompanhado do melhor amigo, Henry arrancou com o carro em direção à casa de Anna. Enquanto isso, a jovem tentava a todo custo se levantar para escapar do fogo, que já estava próximo à cama de solteiro. A porta já havia sido tomada pelas chamas, mas ainda havia a janela lateral que, por algum motivo, não estava emperrada. Ensanguentada, tossindo muito por conta da fumaça e sentindo dor, Anna lutou por sua vida com a força que lhe restou. Se esgueirando até a janela, viu o carro do primo e acenou, antes de perder totalmente a consciência e cair no chão. Henry e seu melhor amigo saíram do carro às pressas e, depois de muita luta para abrir a janela, conseguiram entrar. Henry tentou chamar a prima algumas vezes, mas o amigo o lembrou que eles ainda corriam perigo. Os dois rapazes colocaram uma ideia em prática: Henry pulou a janela e guardou o seu amigo levantaram o corpo de Anna, entregando-o ao primo. Depois disso, o homem pulou a janela também e ajudou Henry a levar o corpo de Anna para longe do incêndio. A essa altura, o fogo já havia se alastrado por toda a casa, mas dois conseguiram colocar Anna no banco de trás do veículo. Depois que estava longe o suficiente, Henry parou o carro fora da estrada, no local onde as muitas árvores os escondiam, e começou a fazer massagem cardiorrespiratória em Anna Andrade. Minutos de agonia, o corpo imóvel de Anna quase fez o rapaz desistir, mas, ele repetiu para si mesmo: “eu só aposto todas as minhas fichas no que sei que realmente vale a pena” enquanto praticava o que aprendeu durante o treinamento. Os suspiros de alívio foram duplos quando Anna começou a tossir, mas, mesmo assim, consideraram levá-la ao hospital. Na mesma hora, a jovem adulta apertou a mão de Henry. Sem entender o que a prima queria dizer, Henry apenas a olhou com uma expressão confusa. De repente, os três ouviram o som de carros em alta velocidade. Como estavam em um local mais afastado da estrada e os raios solares haviam diminuído, os três não foram notados pelo pequeno grupo de carros que se aproximava em direção a casa em chamas. _ É o Otávio! _ Henry concluiu ao ver a silhueta ao longe. O coração de Anna acelerou ao ouvir o nome do noivo. O melhor amigo de Henry percebeu a reação da jovem e cutucou o rapaz. _ Vai ficar tudo bem, prima, ele vai pagar pelo que fez! Três dias foram necessários para que Anna pudesse se recompor. Como ela não queria ser encontrada pela polícia ou por Otávio, preferiu ser cuidada em uma casa no interior, onde não havia muitas habitações e as que tinha eram distantes uma das outras. O melhor amigo de Henry disse que precisaria voltar ao trabalho e se despediu no primeiro dia em que chegaram. _ É, Aninha, você e eu agora somos foragidos. Henry disse, ao ler a notícia em que foi colocado como principal suspeito de atear fogo na casa de Otávio Hulse. _ Você está foragido, eu estou morta, esqueceu? Anna ironizou ao ver a fotografia de seu anel de noivado próximo às cinzas, que a polícia concluiu pertencer a ela. _ “A polícia ainda está à procura do amante da vítima …” Amante? Fala sério, até eu faço uma edição melhor que essa! _ Não importa, primo, o que a mídia quer é isso: discórdia. _ Otávio se fazendo de noivo ofendido dizendo que acredita que você foi manipulada, como ninguém percebe que a manipulação é da parte dele? _ Demorei meses para perceber, não me admira que não notem. _ Desculpa, isso está te fazendo m*l. _ Tudo bem, me sinto mais viva do que nunca…, mas, mudando de assunto: e o seu amigo? _ Ele precisou voltar ao trabalho, nos ajudou com o pôde, mas, com as investigações, ele precisava voltar. _ Como assim? _ Nada, eu falei demais. Ele só pediu pra não comentarmos que ele nos ajudou. _ Queria agradecê-lo. _ Você vai ter oportunidade. _ Se você diz. _ Anna o olhou sem entender, mas concordou. _ Agora precisamos sair do país e a forma mais segura será mudando nossas identidades e saindo pela fronteira. _ Você está certo! Bem-vindo, Henry Morel. _ Bem-vinda, Anna Rodrigues.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD