1 semana depois
_ Vocês acreditam que a minha mãe ainda não acredita em mim e me fez prometer que eu nunca mais mentiria para ela?!_ Marianna digitou as mensagens no grupo que tinha com as amigas.
_ Deixa isso para lá, Mari, logo as coisas se acertam. Sua mãe conhece seu caráter, sabe quem você é. _ A fala apaziguadora surgiu de Angel.
_ isso mesmo, Angel tem razão, tenta não ficar m*l por causa disso, Mari.
_ Verdade, meninas, vocês duas estão certas.
Ao olhar para a foto de perfil do grupo, ela viu a terceira melhor amiga e decidiu perguntar:
_ É… vocês têm falado com a Natália?
_ Não a vejo há uns três dias. _ Angel respondeu.
_ Ela não precisava ter saído do grupo, eu fiquei brava, é claro, e ainda me dói aceitar que ela contou um segredo meu a uma garota que me odeia, mas eu conheço a Nati há anos, sei que ela não queria me prejudicar.
_ Está falando sério Mari? _ Angel colocou um emoji com os olhinhos brilhando.
_ Sim, é sério. Se ela quiser voltar ao grupo, não vejo problemas, ela já se desculpou comigo, um verdadeiro milagre.
_ Estamos falando da mesma Natália? Natália Abapi? _ Bia parecia perdida na conversa.
_ É, ela anda diferente, mas acho que isso é bom. _ Marianna respondeu de forma positiva.
_ Vou falar com ela, assim que a vir…_ Mariana concluiu.
_ Agora mudando de assunto, será que sua mãe deixaria você vir ao culto mais tarde?
_ Não sei, vou ver com ela aqui, mas tomara que sim …
Marianna se levantou do sofá e foi até a cozinha, onde a mãe estava.
_ Mãe, as meninas estão perguntando se posso ir ao culto com elas, meu celular está carregado e prometo que dessa vez vou avisar ao Caleb também.
_ Eu tenho uma proposta, deixo você ir com duas condições: vou com você e…você terá que se dar bem com Caleb a partir de agora.
_ Se em algum momento, alguma pessoa te provasse que ele não é quem a senhora pensa, o que diria?
_ Querida, eu sei que o Caleb não é perfeito, mas ele é um cidadão de bem.
Marianna estava prestes a abrir a boca para contar tudo à sua mãe, mas olhou para cima e viu, acima do armário da cozinha, uma luz vermelha piscando bem fraquinha, quase imperceptível, mas que não passou despercebida pela filha de Irma Alves.
Agora, ela entendia como seu padrasto sabia de sua confissão a Alan, seu falecido namorado. Não arriscaria contar tudo à sua mãe também.
_ Tudo bem, eu vou me esforçar.
_ Muito obrigada, filha, eu só quero minha família unida.
Marianna e a mãe se abraçaram, com a filha Alves segurando a vontade de chorar, se sentia culpada com a possibilidade de estragar a felicidade da mãe, mas já não aguentava mais toda a pressão que sentia. A garota respirou fundo bem devagar antes de encarar a mãe novamente e forçou um sorriso.
_ Acho melhor nos arrumarmos ou chegaremos atrasadas. _ Irma disse e as duas se apressaram.
Quando as duas desceram do ônibus, Marianna percebeu a mãe andando cada vez mais devagar. Achou se tratar de uma dor que ela vinha reclamando há uns dias, mas quando a mãe negou com a cabeça, a garota entendeu que a razão era outra.
_ Foi uma péssima ideia ter vindo. _ Irma disse assim que viu uma senhora vindo em sua direção.
_ Irma, minha filha, quantos anos!
A senhora, com um sorriso caloroso, perguntou se poderia abraçá-la e, assim que Irma permitiu, a moça a puxou para um abraço tão bom que fez a mãe de Mariana amolecer por um momento.
_ Essa é a pequena Mari? _ A moça olhou para Marianna com os olhos brilhando.
_ Sim, é ela! _ Irma respondeu, rígida. Mariana olhou para a mãe confusa.
_ Posso te dar um abraço, pequena?
_ Pode sim. _ Marianna sentiu uma estranha familiaridade com a moça.
_ Venha, querida, você já é da casa!
_ Seja bem-vinda, Mari.
Gustavo foi ao encontro delas assim que as avistou. O rapaz finalmente abriu a boca e encontrou as palavras.
_ Obrigada, Gus! _ Marianna não tirou o sorriso do rosto um minuto sequer.
Gustavo cumprimentou Irma com igual respeito e as convidou a se sentarem perto dele e dos pais, mas Irma dispensou a sugestão, afirmando que ficaria nas cadeiras mais ao fundo.
_ Eu só vim te trazer, mas vai ser muito desgastante vir te buscar. _ Irma se aproximou da porta.
_ Fica, mãe, vai ser melhor.
_ Depois dessa reunião, vamos embora.
Marianna sorriu e concordou com a mãe, dando um abraço empolgado nela, o que era uma demonstração rara, já que Mari costumava ser menos emotiva.
_ O que achou do culto, mãe? _ Mari perguntou, quando as duas estavam saindo do local.
_ Foi estranho, nunca mais vi a um desses sermões.
_ “Estranho” não é bem a palavra que define sua expressão, mas tudo bem.
_ Aí! _ duas figuras femininas se esbarraram ao mesmo tempo.
_ Desculpe. _ Mari foi a primeira a se desculpar.
_ Nada, que isso. _ uma jovem de cabelos pretos respondeu.
_ Oi, amiga. Vejo que já conheceu a jovem que está ajudando o Gustavo no trabalho no escritório da minha mãe. Essa é a Anna Rodrigues. Anna, essa é a Marianna Alves, minha melhor amiga e melhor amiga do Gus, ela é um gênio da tecnologia, Anna está para se formar na faculdade de direito.
Marianna sorriu para a nova amiga de Gustavo e a cumprimentou com educação. Gustavo logo se aproximou das quatro e demonstrou empolgação ao falar da primeira semana de trabalho.
_ Ontem eu acabei não te contando, comecei a trabalhar no escritório da minha mãe como auxiliar.
_ Sério, Gus? Que legal, fico muito feliz por você. _ Mariana quase deu um grito curto e fino, como era costume de Angel, quando ficava animada com algo, mas não fez.
_ Obrigado. A Ana tem me ensinado muito sobre jurisdição, se não tivesse tão focado numa vaga para nadar profissionalmente, talvez até cedesse para o direito.
_ Pior que ele leva jeito, em uma semana já me ajudou em três processos atrasados.
_ É mesmo? Muito bom saber. _ Marianna respondeu em um tom de voz levemente desinteressado e recebeu uma cotovelada discreta de sua mãe.
_ Mari, minha filha, vamos, temos que voltar para casa.
_ Tudo bem, eu tenho que ir. Tchau Gus, tchau Angel, tchau Anna.
_ Eu posso acompanhar vocês até o ponto de ônibus? _ Gustavo fez a pergunta com o tom de voz incerto.
_ Claro, pode sim. _ o sorriso voltou aos lábios de Mariana e Irma segurou um grande sorriso.
_ Então, vamos. Só vou falar com meus pais.
Anna se despediu de Marianna e de sua mãe e pediu licença, indo em direção ao banheiro. Angel crispou os olhos para Mariana e a amiga franziu a sobrancelha.
_ Conversamos depois. _ A irmã de Gustavo sorriu de lado ao dizer.
_ Agora sim, podemos ir. _ Gustavo voltou segundos depois com um sorriso no rosto.
Os três se puseram a caminhar, as mãos de Marianna levemente suadas, enquanto as de Gustavo ficaram trêmulas de tempos em tempos. O casal de amigos iniciou uma conversa paralela e incluiu Irma, que comentava vez ou outra.
_ Então, o ônibus de vocês está vindo. Fiquei feliz em te ver aqui hoje. _ Gustavo esboçou algo semelhante a um sorriso.
Os dois se despediram de uma forma um tanto desajeitada e Gustavo ajudou Irma a subir as escadas do ônibus, já que, com a caminhada e detalhes que ela resolveu não contar, sua perna havia começado a doer.
_ Eu percebi. _ A mãe de Marianna disse simplesmente.
_ Percebeu o que, mãe? _ a garota falou com os olhos apertados e ar de inocência.
_ Não faça a desentendida, Mariana Alves. Eu vi a forma como vocês se olharam, as expressões, ou nervosismo. Quer me contar algo? _ Irma desafiou a filha com apenas um olhar.
_ Não sei de nada. _ Marianna olhou nervosa para a mãe, e sem se conter, decidiu desabafar:_ tudo bem, tudo bem. Eu sei que tenho agido de forma estranha ultimamente. Mas, não sei o que está acontecendo. _ A filha única de Irma deixou os ombros relaxados com um suspiro.
_ Impressão minha ou estava com ciúmes da amiga do Gustavo e da Angel? _ a mãe foi direta.
_ Eu não. Ela parecia legal, bonita e o Gus parecia gostar de trabalhar com ela, estava tão empolgado…_ ao mesmo tempo que sorriu, Mary estalou os dedos em um tique nervoso.
_ Se eu não te conhecesse, diria que está tentando convencer a si mesma. _ A senhora Alves lançou um olhar significativo para sua filha.
_ Então, me diga, mãe: do que estou tentando me convencer? _ Marianna olhou para a mãe esperando uma resposta.
_ Está tentando se convencer de que não sente nada além da amizade por esse rapaz.
_ Mãe! _ O rosto de Marianna ficou vermelho na mesma hora. Ela olhou para os lados e pôs a mão no rosto.
_ Está tudo bem, meu amor. Eu conheço os Smith e sei que Gustavo é um ótimo rapaz. Esses sentimentos são normais na sua idade. Aliás, eu estava preocupada, achando que você nunca mais se apaixonaria desde que o Alan …
_ Mãe, é melhor mudarmos de assunto. _ Marianna estalou todos os dedos de uma só vez, sem olhar nos olhos da mãe.
_ Tudo bem, respeito a sua dor e quero que saiba que estarei sempre disposta a te ouvir, filha.
_ Sobre tudo? _ Os olhos de Marianna denunciavam um sentimento.
_ Sobre tudo e qualquer coisa. _ A mãe da ruiva acariciou suas bochechas e sorriu.
Marianna respirou fundo e juntou toda a coragem que tinha em seu corpo para contar à mãe tudo que a afligia.
_ Eu preciso te dizer que o Caleb…
_ Oh, falando nele, é o Caleb no ponto de ônibus. _ A mãe de Mariana apontou para o seu parceiro próximo a uma estrutura de metal.
A garota sentiu o rosto congelar em uma expressão assustada assim que viu o padrasto.
_ O que você estava dizendo, meu bem? _ Irma se virou para a filha, mas não reparou no comportamento dela.
_ Não é nada demais, mãe.
Ciente que seria arriscado contar qualquer coisa à sua mãe naquele momento, Mari se deteve. As duas desceram do ônibus e Marianna trincou o maxilar quando o padrasto balançou os cabelos dela. Virou a cabeça para os lados de forma brusca e a respiração, de repente, ficou pesada.