Capítulo 12

1073 Words
— Você quer morrer? — pergunta a menina. — Meu Deus, você é só uma adolescente — digo boquiaberto. — Hum! Você também é — rebate a garota. — Não me diga que é você a esposa do prefeito? — Por que eu continuo falando e perguntando? Só consigo contemplar a mina cabeça sendo exibida no quiosque do condomínio. — Desde os dez anos de idade. — Qual a sua idade agora? — 16, mas faço 17 em dezembro. — Eu também tenho 16, mas faço aniversário em outubro. — Você só é, basicamente, dois meses mais velho que eu, e não respondeu a minha pergunta: você quer morrer? Meu Deus, esqueci mesmo. Parece que o fato de eu estar marcado para morrer não me chocou tanto quanto essa história. Eu junto as mãos e imploro para ela não contar que estive aqui. — Por favor, por favor. — Tá, cala a boca, eu não vou contar — isso acaba me deixando mais aliviado. — Olha, eu vou embora, por favor, guarde esse segredo, senão eu estou morto com certeza. — Espera, não vai, por favor — ela pede quando eu já estou indo. Agora é a vez dela de implorar, e dou meia volta. O desespero na sua voz me emociona. — Se eu ficar, alguém pode aparecer e nosso segredo não vai valer de nada. — Ninguém vai aparecer a esta hora, garoto. Estou aqui há anos, acha que não vou ter certeza? A vida aqui é muito solitária. Esta é a parte que me toca. Eu também me sinto solitário, mesmo com os meus irmãos por perto, a todo instante, piorou agora que perdi o meu pai e nem tive a chance de me despedir. — Realmente. Cheguei aqui ontem e já senti o peso da solidão. — Você fala bem — reconhece a garota. — É que eu leio. — Eu olho para ela de esgueira e faço uma pergunta inusitada: — Você gosta do prefeito? Ela arregala os olho e as suas sobrancelha descem de uma maneira que tocam os cílios. — Ficou maluco? Ele me estupra desde os 11 anos de idade. — Essa foi forte — eu fico chocado. — Como você tem consciência de que é... — Tenho receio em falar. — Estuprada? — É que eu leio. — Ela abre a porta por completo e eu fico boquiaberto. Primeiro, observo a quantidade excepcional de livros que ela tem na sala com apenas uma cama, em seguida, admiro o seu corpo escultural, para uma adolescente, está muito desenvolvida, ela usa joias, maquiagem bem básica, e um vestido deslumbrante que parece ser de origem oriental. — Uau! Você vai ter que me emprestar um livro. — Claro, o que você quiser. — Ela coloca a mão para fora das barras de ferro do portão para nos cumprimentarmos formalmente. — Prazer, o meu nome é Lila. — Prazer, Prego... Quero dizer, meu nome é Calebe, mas eu não gosto muito, prefiro que me chamem pelo apelido. Nós apertamos as mãos, ela tem o pulso firme, me puxa para mais perto e diz: — Meu amor, este é um mundo novo, uma terra sem lei, ninguém sai por aí carregando uma certidão de nascimento. O seu nome é Prego. Oh, Deus. Como eu gostei desta menina. *** Nós ficamos muito tempo conversando até sentarmos no chão. Eu conto tudo para ela sobre a minha vida depois do Coronaluteum e ela me conta a dela. Acho que a dela foi pior. Quando a pandemia se alastrou e parou o mundo, todos os condôminos fugiram de lá, exceto o pai e a mãe dela e o Sinésio Lemos e a sua família. Decidiram ficar, pois, nenhum deles tinha para onde ir e o lugar parecia seguro, já que foi construído de uma maneira que previnisse de possíveis assaltantes. O problema começou quando um dos filhos dele amanheceu tomado pelo transtorno da transformação, pois, havia se contaminado, e mordeu a mãe, num ato de desespero, Lemos matou os dois a tiros, e o outro filho, por não ter suportado ver aquela cena, suicidou-se ao se jogar do último andar. Lemos ficou dias em depressão até que os pais de Lila foram conversar com ele. Lila ficou em casa, os esperando, mas quem acabou voltando foi apenas o Lemos a dizer que eles saíram por um motivo que ele não explicou e acabou sendo mortos por infectados. Hoje ela desconfia que eles foram assassinados... Desconfia não, tem certeza, pois, Lemos é um homem p********o e sanguinário. Depois, como estavam a sós, ele a enganou dizendo que precisavam se casar, ela aceitou porque era criança, aos 11 anos ela foi abusada sexualmente. E vem sendo abusada desde então. — Sinto muito — digo com o coração cheio de pesar. — Fique tranquilo. Já estou acostumada. Ele nunca me agrediu diretamente, já me machucou, mas nunca tirou meu sangue. E também, nunca me fez gozar. — Tadinha — o modo como eu falo faz Lila gargalhar. Eu chego em um horário que não posso mais continuar. Ela fica muito triste em saber que eu vou embora, depois me fala para eu voltar no dia seguinte no mesmo horário e nunca aparecer dia de sábado ou domingo. Infelizmente ele aparecerá esta noite, havia ido entregar aquele vestido para terem uma noite especial, somente para ele. Ela estava o experimentando o vestido quando Prego apareceu. Lemos surgirá à meia-noite, quando todos estiverem exaustos e dormindo. *** Quando volto para o meu apartamento, me sento no sofá e vou ler o livro que Lila me deu, é um romance chamado Between - Aparências e Essências da Fabiana Nascimento. É um livro excepcional, ela me escolheu o certo para eu me distrair e não pensar muito nela naquela situação. Os rapazes voltam do trabalho, e de praxe, Cristiano tranca a porta. — Ai! — reclama Lucas. — Mais um dia, mais nenhum dólar. — Toda vez que você chegar em casa vai dizer uma frase pronta? — questiona Estêvão. — Vou — responde Lucas a tirar os sapatos. Eu observo o meu povo conversar sobre o seu dia, sobre a v*****e de ir logo embora dali, de encontrarem o Laboratório, de viverem em paz como deve ser uma família. A v*****e que eu tenho é de interromper a conversação é gritar: EU CONVERSEI COM A MULHER DO PREFEITO. Eu preciso botar isso para fora. É agora ou nunca.
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