Nos jogamos no sofá exaustos.
— Hum! Que delícia — diz Lucas. — Depois de dormir num chão fio e molhado... Isso aqui é o paraíso.
— Gente, o que vocês acham de ficarmos aqui para sempre? — pergunta Adam, mas a voz dele demonstra tanto suspense que entendo que ele quer que digamos que "não".
— Por que a pergunta? — questiona Túlio. — Vai me trocar pelo capanga que parece que tem a sua idade?
Nossa! Havia pensado a mesma coisa... Sobre a idade, não sobre quem trocar o quê.
Túlio não esconde os seus ciúmes e no lugar dele ficaria também, o capanga é bonito, mas vi nós seus olhos que o seu coração pertence a outra pessoa, li romances demais.
— Túlio, não começa — adverte meu irmão mais velho.
— Vocês se tocaram demais, e rolou um clima que eu sei.
— Túlio, pelo amor de Deus... — Adam fica nervoso com o ataque de ciúmes do Túlio, espero que não percebam que estou me divertindo com aquilo.
— O amor de Deus não entra nesta conversa.
— Gente — diz Estêvão, já estava com saudade da voz dele —, não temos tempo pra isso, por favor, a última coisa que devemos fazer é brigar. — Os outros ficam em silêncio e Estêvão continua: — Olha, Adam, eu gostei do lugar, gostei da administração deles, dá para conviver de boa, mesmo assim não estou confortável, ainda mais depois que aquele capanga disse aquelas coisas, só me deu mais certeza de que não devemos ficar, não para sempre. Há anos que sobrevivemos ao novo mundo do nosso jeito, acredito que devemos continuar buscando, sei que encontraremos algo menos suspeito e melhor. É por isso que sempre mudamos de lugar, lembra? O nosso pai queria que encontrássemos o Laboratório, ouvimos dizer que lá eles podem nos abrigar. O Governo nunca se mostrou de pé, e agora sabemos que ainda existe. Não vejo coisa boa nisso. Parece que nem tudo é para todos, só para quem tem sorte.
Ficamos em silêncio novamente, e no fundo, o Estêvão está coberto de razão.
— Eu concordo — digo.
Adam sorri para mim e depois se volta para o Estêvão.
— O que você sugere?
— Que fiquemos aqui por um mês, que provemos o nosso valor, que mostremos que não estamos infectados e depois, vamos pedir para irmos embora. Tenho certeza que não vão nos obrigar a ficar.
— Ótimo plano — concorda Túlio.
— Gostei — diz Adam —, mas e o Jordan?
Essa pergunta do Adam nos pega de surpresa, todos sabem que o Jordan é um peso morto e foi responsável pela morte do nosso pai, foi culposo até onde sabemos, mas mesmo assim, não o queremos por perto.
— Ah! — finalmente Lucas diz alguma coisa, e eu sempre gosto, porque ele é muito sincero. — Vamos torcer para aquele embuste ter sido infectado e vamos deixar ele aqui para morrer.
— Não podemos ser assim, Lucas — diz Adam.
Ele é cheio de equidade e eu o admiro por isso.
— Ele vai nos atrasar, Adam, como sempre tem feito.
Ninguém ousa protestar contra as palavras do Lucas, pois, ele está certíssimo. Neste exato momento, alguém bate na porta.
— Depois resolveremos isto — sussurra Adam ao se levantar.
Ele abre a porta e de repente entra um rapaz com jaleco branco, de máscara e luvas de látex, um capanga o acompanha e percebo que Túlio torce para que não seja o de outrora.
— Olá, calouros, sejam bem-vindos, eu sou o Doutor Ferdinando e vou examinar vocês — o Doutor Ferdinando é bem extrovertido, é alto forte, branco e loiro, se parece um pouco com o Túlio, a única diferença é que o Túlio é mais forte e não fala tão rápido. Ele abre uma porta qual percebemos que se trata de um quarto e pergunta: — Quem será o primeiro?
— Ham... — Adam começa a dizer alguma coisa, ele olha para todos, pois, ficamos todos, de certa forma, desconfortáveis. — Só por curiosidade, como será esse exame?
— Vocês tiram a roupa e eu me certifico de que não foram mordidos, é um procedimento rápido e ineficaz, o Governo não nos deu um aparelho que detecta com precisão a presença do agente patológico que transforma humanos em emojis do w******p, é um aparelho grande, pesado, não tem muitos, demora para trazer o resultado e é movido a eletricidade, o que não temos. Preciso dizer mais alguma coisa? A não ser que todos tirem as suas roupas agora e facilitem o meu trabalho aqui, não precisarei examinar um por um no sigilo.
— Eu vou primeiro — diz Adam a entrar no quarto bem rápido.
Ainda bem que ele fez isto. Eu não teria maturidade para ver aquele povo nu.
— Muito bem, bonitão — brinca o Doutor Ferdinando, entra também no quarto e fecha a porta.
— Ah! — resmunga Túlio e se joga no sofá aborrecido. — Mais um?
***
Logo após todos serem examinados pelo Doutor Ferdinando, me deixam para o final.
É a minha vez, espero que ele não seja abusado.
Eu entro no quarto e ele nem espera eu fechar a porta, manda eu tirar logo a roupa. Ele não está olhando, está com um bloco de notas e escreve alguma coisa.
Eu fico sem jeito, mas preciso fazer isso rápido, e é desta maneira que fico despido na frente daquele homem.
— Nossa! Que rápido, obrigado — diz o Doutor a olhar para mim, estou a esconder as partes íntimas. Ele é cheio de gracinha. Não sei se isso me deixa mais confortável por ele não deixar tudo tão tenso ou preocupado por achar que ele não leva o seu trabalho a sério. O Doutor me mede com os olhos e começa a anotar. — Qual o seu nome, filho? — pergunta.
— Prego — a minha resposta faz o Doutor me olhar rapidamente e com o cenho franzido. — Desculpa, este é meu apelido e eu gosto mais do que do meu próprio nome.
— Oh! Então não precisa me dizer, vou anotar aqui: Prego.
— Obrigado! — agradeço. Ele não demonstra ser muito curioso, isso me leva a pensar que não é um homem abusado.
O Doutor se levanta da cama, chega mais perto e começa a me analisar me apalpando, levanta os meus braços afasta as minhas pernas, examina a minha cabeça. Fico com vergonha, mas não tanto quanto ficaria se estivesse na frente dos meus irmãos.
— Qual a sua idade, filho, 16? — ele pergunta ainda examinando a minha cabeça para se certificar de que não tem marca de mordida.
— Exatamente 16. Faço 17 daqui a alguns meses.
— Será?
Essa pergunta dele me faz arregalar os olhos, depois ele ri e diz que é brincadeira e fala que eu já posso me vestir.
— Você é médico? De verdade? — pergunto ao mesmo tempo que ponho a minha roupa no corpo.
— Sou pediatra — responde o homem. Ele tira a máscara e permite que eu veja o seu rosto. — Estava no último semestre para me formar na faculdade quando o mundo parou.
— Nossa! Não sei dizer que foi uma perda, aposto que perdeu coisas mais importantes.
O Doutor sorri pra mim, depois anota no bloco: 16 anos; sem marca de mordida.
— Com certeza, meu jovem, com certeza — ele olha para mim novamente. — O que você queria fazer se entrasse na faculdade?
— Não sei, eu tava no ensino fundamental quando o mundo parou — quando respondo, já estou completamente vestido.
— Você tem jeito para ser professor — a dedução do Doutor me pega de surpresa, seria a minha escolha agora, professor de língua portuguesa. — É uma profissão que pode ser exercida em qualquer período da nossa existência. Os professores já existiam antes mesmo de saberem que eram professores.
— Sério? Será que eu posso ensinar? Eu leio muito.
— O que você quer ensinar?
— Língua Portuguesa.
— Isso seria maravilhoso...
Alguém interrompe o nosso diálogo ao bater na porta.
"Tá tudo bem aí?", pergunta a voz do meu irmão mais velho, eu imaginei que alguém iria suspeitar da demora.
"Não incomode o Doutor", diz outra voz, provavelmente a do capanga que veio o acompanhando.
Rapidamente abro a porta e o Doutor se levanta a pôr a máscara. Adam se aproxima para ver se não houve nada que pudesse fazê-lo gritar com o Ferdinando.
— Estávamos conversando — explica o Doutor. — Bem, o meu trabalho está feito. Até mais — ele passa por mim e diz antes de se retirar daquele AP: — Salve a nossa língua, Prego — pisca um olho para mim e some.
Espero vê-lo mais vezes. Seria ótimo se ele fosse embora daqui com a gente, um pediatra no nosso bando é bem útil, apesar de o Túlio ser veterinário, ou seja, briga por território, e os dois se paressem muito.
— Alguém já viu que o Doutor se parece muito com o Túlio? — comenta Lucas, o que deixa o Túlio estarrecido.
— Ah! Faça-me o favor — diz o veterinário.